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Os Falsos Gringos
 
Os Falsos Gringos

27 de outubro de 1999

Coletânea reúne cantores brasileiros que se faziam passar por ídolos internacionais

Nos anos 70, época em que o samba andava em baixa e as rádios no Brasil tocavam majoritariamente música estrangeira, inventou-se no show biz nacional um personagem curioso: o falso astro importado. Ele cantava em inglês, embora na maioria das vezes não tivesse nenhuma intimidade com o idioma de Paul McCartney. Fazia-se passar por americano ou britânico, ainda que tivesse nascido em Copacabana ou na periferia de São Paulo. Seus discos invariavelmente vendiam dezenas de milhares de cópias e forneciam farto material para as trilhas internacionais das telenovelas. Os nomes desses cantores eram Morris Albert (o autor de Feelings), Mark Davis (Fábio Jr.), Chrystian (José Pereira da Silva, que manteve o pseudônimo como cantor sertanejo), e Christie Burgh (posteriormente conhecido pelo nome verdadeiro de Jessé), entre muitos outros. Com o passar dos anos, a moda dos astros postiços passou e seus protagonistas mudaram de ramo. Agora, essa turma acaba de voltar às paradas de sucessos com o álbum quádruplo Hits Again, da Som Livre, que já vendeu mais de 300.000 CDs para quarentões saudosistas. "As pessoas querem se lembrar das festinhas e dos namoros daquela época", comenta Chrystian, transformado em garoto-propaganda do álbum na TV.

Boa parte desses gringos de araque eram músicos e cantores competentes. A maioria tocava em bailes, caso dos grupos Sunday, Lee Jackson, Light Reflections (ex-Os Bruxos) e Pholhas. Outros eram profissionais de estúdio de gravação, como as vocalistas do Harmony Cats. Em geral, os artistas aprendiam a pronunciar palavra por palavra das letras em sessões de gravação que duravam até quinze horas. "As letras eram compostas por quem não sabia nada de inglês e corrigidas por quem tinha alguma noção", diz Hélio Costa Manso, ou melhor, Steve MacLean, que fez sucesso numa carreira-solo e como integrante do conjunto Sunday. Os Pholhas tinham um método original de compor. Eles tiravam os versos de suas canções de um livro dos anos 30 chamado Inglês Como Se Fala. "A gente achava uma frase legal, copiava e depois tentava emendar com outras do mesmo livro", confessa Oswaldo Malagutti, ex-baixista do grupo.

Para não ser desmascarados, os artistas evitavam fazer espetáculos e se apresentar na TV, o que os prejudicava bastante do ponto de vista financeiro. "Em 1973, eu estava estourado em todo o Brasil com a canção Dont't Say Goodbye. Podia ter ganho um bom dinheiro, se não fosse tão difícil encarar um show ao vivo", diz Chrystian. Pernambucano radicado no Rio de Janeiro, Ivanílton de Souza Lima compôs uma balada em inglês chamada My Life. Na hora de lançar o disco pelo selo Top Tape, teve de escolher um nome internacional. Abriu a lista telefônica de Nova York e escolheu Michael Sullivan. My Life entrou na trilha sonora da novela O Casarão, mas Michael continuou a faturar como Ivanílton - ele era vocalista da banda de ieieiê Renato e Seus Blue Caps. "O chato é que eu cantava My Life com o grupo e tinha de ouvir das pessoas que a versão da novela era melhor", diverte-se.

A mania dos cantores internacionais made in Brazil começou a decair no início dos anos 80, quando a música brasileira ganhou mais espaço nas rádios. "As gravadoras sentiram que a longo prazo era mais negócio investir no Martinho da Vila do que na gente", pondera André Barbosa Filho, integrante do Light Reflections, que em 1972 vendeu 1 milhão de compactos da música Tell Me Once Again. Vários dos artistas daquela época permaneceram em evidência, com seus nomes verdadeiros ou mantendo os pseudônimos. Michael Sullivan, por exemplo, transformou-se num compositor de sucesso, com músicas gravadas por Xuxa, Angélica e Paulo Ricardo. Outros mudaram de vida. Hélio Costa Manso tornou-se executivo de gravadora e casou-se com Vivian, ex-Harmony Cats e hoje dona de casa. André Barbosa Filho é professor de rádio e TV da Universidade de São Paulo, USP. "A certa altura, delirando com o sucesso, chegamos a pensar que poderíamos estourar também no exterior", relembra Lopes. "Naturalmente, tudo não passou de ilusão." The dream is over.

O astro que virou fumaça

Muitos dos falsos astros internacionais sonhavam em fazer sucesso em outros países. Apenas um deles conseguiu: o carioca Maurício Alberto Kaiserman, aliás, Morris Albert. Feelings, canção que compôs e gravou em 1973, está entre as músicas mais executadas em todos os tempos. Chegou a ganhar versões de Frank Sinatra e Julio Iglesias. Recentemente o grupo americano Offspring, apreciado pela moçada que mal tirou o aparelho ortodôntico, fez uma releitura satírica do hit. A carreira de Morris Albert declinou ainda nos anos 70. Nenhuma das músicas que ele compôs depois de Feelings emplacou. Mas o pior estava por vir. Nos anos 80, o compositor francês Lou Lou Gasté processou Morris Albert por plágio, alegando que Feelings seria cópia de uma composição sua, Pour Toi. Morris perdeu a causa e teve de entregar 3 milhões de dólares a Gasté. Nunca mais se recuperou do baque. Hoje, ele vive em Toronto, no Canadá, onde dirige um estúdio de gravação.