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Circuito Miami
 
Circuito Miami

07 de janeiro de 1998

Miami tem uma programação de artistas nacionais melhor do que muitas capitais do país Miami, a cidade mais famosa da Flórida, Estados Unidos, tem uma população de 130.000 brasileiros com residência fixa, número que cresce para 300.000 quando se incluem os turistas que diariamente carimbam o passaporte na alfândega local. Quem vive numa cidade de semelhante tamanho fincada no interior do Brasil como Franca, Ilhéus ou Blumenau costuma invejar a agenda cultural das metrópoles. Os brasileiros de Miami não. Assistem a recitais do pianista Nelson Freire ou do violoncelista Antonio Meneses, que tocam no Brasil apenas esporadicamente. Estrelas da MPB, como Djavan, Daniela Mercury, Gilberto Gil e Baden Powell, hoje fazem escala em Miami como se fossem a Brasília ou Porto Alegre.

"Para os brasileiros, Miami tem uma oferta de bens culturais maior que Belo Horizonte", afirma a empresária Myrian Dauelsberg. Em 1996, um festival de música clássica em homenagem ao centenário da pianista brasileira Guiomar Novaes teve como ponto alto a apresentação de Arnaldo Cohen privilégio que não coube às platéias mineiras. Outro exemplo vem da pintura. Uma exposição reunindo obras do pintor francês Edgar Degas que se encontram no Brasil, podendo ser vistas em museus do Rio e de São Paulo, mas não de Belo Horizonte, teve lugar em Miami no ano passado. A produção da peça Trair e Coçar... É Só Começar, de Marcos Caruso, sucesso de público em cartaz há doze anos ininterruptos, também está de malas prontas para Miami. Será exibida, em português, num teatro de 500 lugares. "Fora São Paulo e Rio, só estivemos em Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Salvador", enumera Attílio Riccó, produtor e diretor do espetáculo.

Esse fenômeno cultural é recente e tem duas explicações. Uma parcela considerável, ainda que minoritária, dos brasileiros que vivem em Miami é formada por gente endinheirada, que gosta de encontrar velhos amigos em espetáculos de atrações verde-amarelas. Imigrantes que dividem espaço com outras comunidades, mais antigas e mais vigorosas, como a dos cubanos e a dos haitianos, os brasileiros estão fazendo da cultura uma forma de preservação da identidade. "Produtos culturais não requerem investimentos pesados e trazem enorme visibilidade", explica Luiz Fernando Benedini, cônsul-geral do Brasil em Miami. Pianista diletante, Benedini tem facilidades especiais para convencer colegas músicos a se apresentar na cidade. O violoncelista brasileiro Antonio Meneses, que vive na Suíça, lá se apresentou duas vezes a convite do diplomata.

Villa-Lobos
Empresas brasileiras que têm atividade pesada na Flórida costumam apoiar esses espetáculos também. A Odebrecht, por exemplo, já bancou uma apresentação da New World Symphony, regida por Michael Tilson Thomas, num programa dedicado exclusivamente ao compositor Heitor Villa-Lobos. "Procuramos investir em produtos que mostrem um Brasil pouco divulgado", explica Luiz Osvaldo Leite, presidente da Odebrecht Contractors of Florida. A multinacional americana AT&T, gigante do ramo de telecomunicações, de olho nas privatizações que ocorrem no Brasil, já percebeu o filão. "Temos a comunidade brasileira residente no país como um de nossos alvos. É um grupo organizado, vibrante e poderoso", diz Gustavo Alfonso, que a propósito do "vibrante e poderoso" é relações-públicas da AT&T em Miami. A companhia bancou shows de Marisa Monte, Gilberto Gil e o festival Guiomar Novaes. Ao contrário do que costuma acontecer em Nova York, onde a maioria dos artistas brasileiros só toca no circuito alternativo, as apresentações de brasileiros em Miami já ocupam casas de prestígio como a Jackie Gleason, com capacidade para 3.500 pessoas, ou o Gusman Hall, que tem a melhor acústica da cidade. Há até casos em que os brasileiros são convidados de honra de estrelas locais. O pianista Nelson Freire, por exemplo, apresentou-se acompanhado da Orquestra Filarmônica da Flórida.

Timbalada e Chiclete com Banana - local: Ocean Drive, durante o Carnabeach; público estimado: 200 000 pessoas
Djavan - local: Teatro Jackie Gleason; público: 3 500 pessoas
Nelson Freire - três concertos: Palm Beach, Coral Gables e Miami; público total: 5.000 pessoas
Baden Powell - local: Colony Theater; público: 500 pessoas
Da esquerda para a direita: Baden Powell, Marisa Monte, Djavan, Daniela Mercury e Gilberto Gil