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Alguns dos automóveis mais bem-sucedidos no Brasil estão com os meses contados. Veículos confortáveis como o Tempra e o Santana, carros médios como o Escort e o Kadett e até campeões de venda como o Gol e o Uno começam a entrar na marcha da aposentadoria. É uma péssima notícia para os nostálgicos e para os proprietários desses modelos, que devem rumar para a desvalorização. A maior parte dos principais carros fabricados no Brasil já está desaparecendo no resto do mundo, onde estão sendo substituídos por lançamentos como o Marea, da Fiat, o Focus, da Ford, e o novo Passat, da Volkswagen. Esses veículos vão difundir equipamentos até agora encontrados apenas em poucos modelos nacionais, como airbag, sistema computadorizado de tração e chave com dispositivo eletrônico de bloqueio de ignição. As empresas relutam em dizer oficialmente quais dos seus carros sairão de linha, e quando. Não é difícil, contudo, imaginar o futuro. "As montadoras européias são as primeiras a parar de fabricar modelos ultrapassados", diz o engenheiro José Luiz Vieira, consultor de empresas internacionais de autopeças. "Depois de um ou dois anos, os carros desaparecem também das linhas de montagem dos outros países. No mundo globalizado, não compensa fabricar carros para um único mercado consumidor."

Por essa lógica, um dos candidatos a sair de linha é o Uno, o carro mais barato do país, responsável por catapultar a Fiat do quarto para o segundo lugar no mercado brasileiro. Na Europa, só a filial polonesa da montadora continua fabricando o carro. O último Uno italiano saiu da linha de montagem em 1995. Depois de vender 1,4 milhão de unidades em catorze anos no Brasil, o Uno brasileiro vai pelo mesmo caminho. A montadora de Betim aproveitou o lançamento do Palio para tirar de linha as suas versões mais sofisticadas. Hoje, só os populares modelos 1.0 do Uno continuam a ser fabricados, com bons resultados. No mês passado, o Uno foi o quarto carro mais vendido no país, perdendo para o Gol, o Palio e o Corsa. A curva das vendas é ainda o que o sustenta no mercado. O mesmo ocorre com o Gol, o carro mais vendido do país nos últimos onze anos. A Volkswagen só o produz no Brasil e na Argentina, com peças brasileiras. Mas o espaço para um carro de um único país está acabando, e ele deve também ser substituído por um novo veículo da montadora desenvolvido na Alemanha. Será um modelo intermediário entre os atuais Polo e Golf, com previsão de lançamento para o ano 2000.

Sucatas ambulantes

Nas contas da Volkswagen, cabem na futura linha de produção mundial apenas quatro plataformas de montagem de veículos. Nenhuma delas é reservada ao Gol. Lançado em 1980 para competir com o Chevette e a Brasília, que só existem hoje sob a forma de sucatas ambulantes, o automóvel da Volks já foi negociado em meia dúzia de moedas e acumulou ao longo dos anos a impressionante cifra de 2,5 milhões de unidades vendidas. É o único carro com potencial para superar o recorde histórico dos 3,2 milhões de Fuscas que rodaram no país. Apesar da brilhante carreira, o Gol já sente o processo de desvalorização comum a todos os "fim-de-linha". Um Gol 1.6 comprado por 17.000 reais no ano passado, por exemplo, perdeu 14,1% de seu valor original. Seu concorrente, o Palio 1.5, teve uma queda de 13% no mesmo período. Embora a diferença seja pequena, é sintomática no caso de um veículo que era considerado moeda segura e de liquidez imediata nos tempos de inflação galopante.

A desvalorização preocupa as montadoras que sustentam a produção desses carros. Vendo-se bombardeada no final de 1996 pelos comentários sobre uma aposentadoria iminente do Tempra, a Fiat anunciou uma grande promoção. Os compradores de um Tempra 97 poderiam retornar um ano depois à loja para substituir o carro por um modelo novo. O usado entrava sobrevalorizado na troca. Essa era também uma forma de mostrar que a empresa continuaria fabricando o carro no ano seguinte. Agora, o Tempra está sendo substituído na Europa pelo Marea, que deve chegar ao Brasil no mês que vem, e deverá conviver com o velho modelo no mercado por algum tempo. Curiosamente, outros veículos à beira do processo de extinção acabam ganhando uma sobrevida justamente graças ao seu processo de desvalorização. O Kadett perdeu tanto valor nos últimos anos que começou a competir numa faixa de mercado diferente. No começo do ano, o Kadett GL 2.0 zero-quilômetro custava 16.000 reais, mesmo patamar de um carro popular como o Gol Mi Plus, da Volks. "Como a montadora já teve o retorno do investimento ao longo dos anos, ela usa essa estratégia para 'tirar leite de pedra' antes que o modelo saia de linha", explica José Roberto Ferro, professor de economia da Fundação Getúlio Vargas, especializado na indústria automobilística.

Envelhecimento

Entre todos os modelos, o primeiro a se despedir das fábricas brasileiras deve ser o Santana, ainda neste ano. Lançado no Brasil em 1984 como uma versão do Passat europeu, ele resistiu no mercado brasileiro uma década e meia sem passar por grandes mudanças. Foi um dos últimos carros brasileiros a abandonar o antiquado quebra-vento. O consumidor percebeu seu envelhecimento. Pela média das vendas do primeiro trimestre, a estimativa é de que 1998 será o ano com menos Santana vendidos no país. A tendência é que ele seja trocado pelo novíssimo Passat, que começa a ser importado da Europa em junho e deve ser fabricado no Brasil já a partir do próximo ano. Outro carro que não deve durar muito é o Escort, que sofreu neste ano a terceira grande mudança. No mês passado, a Ford causou frisson no Salão de Genebra, uma das mais importantes feiras automotivas do mundo, com o design futurista do Focus, seu mais novo lançamento. O Focus, com o tamanho do Escort, que começa a ser vendido no mercado europeu em outubro e deve chegar ao Brasil em dois anos, foi tomado pela imprensa de todo o mundo como o seu sucessor. A Ford prontamente desmentiu - embora ultrapassado, o Escort é ainda seu carro mais vendido na Europa. "Nós continuaremos fabricando o Escort", garantiu uma carta emitida pelo escritório britânico da montadora. "Até o ano 2000."

Novidades que vão chegar

Uma nova geração de carros está chegando ao Brasil. Na semana passada, durante o Salão Auto Rio 98, no Rio de Janeiro, foi exibida pela primeira vez no Brasil a linha 98 do Cordoba e do Ibiza, principais novidades da montadora espanhola Seat. Os modelos devem ser vendidos no país a preços entre 28.500 e 40.600 reais. A Volks mostrou os novos Passat e Passat Variant, que começam a ser vendidos aqui a partir de junho. A Fiat também anuncia para o próximo mês um lançamento de peso: o Marea, veículo que está substituindo o Tempra. Já o Focus, da Ford, apresentado no mês passado no Salão de Genebra, desembarca no Brasil só no ano 2000.


 
Marcados para Morrer

29 de abril de 1998

Santana, da Volkswagen - Lançamento 1984
Kadett, da GM - Lançamento 1989


Ford Escort - Lançamento 1983
Fiat Tempra - Lançamento 1991


Fiat Uno - Lançamento 1984
Volkswagen Gol - Lançamento 1980



Alguns dos carros nacionais mais vendidos começam a entrar na fila da aposentadoria