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Uma Jóia à Venda
 
Uma Jóia à Venda

08 de abril de 1998

Símbolo de requinte e qualidade, a Rolls-Royce é disputada pela BMW e Volks

Em quase um século de existência, a Rolls-Royce, fabricante inglesa de automóveis, tornou-se símbolo de requinte, luxo e nobreza. Seus carros estão nos castelos de reis e príncipes e nas garagens de milionários de todo o planeta. Custam entre 250.000 e 500.000 dólares e, por sua qualidade, ficaram conhecidos como os automóveis que nunca quebram. São o símbolo de uma era na indústria automobilística que está chegando ao fim - pelo menos no que diz respeito aos ingleses. A Rolls-Royce atravessou a semana passada sendo disputada num leilão. Na segunda-feira, a montadora alemã BMW anunciou sua oferta: 571 milhões de dólares. Um dia depois, outra alemã, a Volkswagen, deu um lance mais impressionante, 921 milhões pela marca inglesa. As alemãs brigam pela fábrica da Rolls-Royce e pelo charme que envolve seu nome.


 
Os 2.000 carrões que a Rolls-Royce monta todo ano são praticamente artesanais. A preocupação com detalhes é algo inacreditável nos tempos modernos. A fábrica inglesa simplesmente ignorou as vantagens da produção em série, descobertas em 1913 por Henry Ford, o fundador da marca Ford americana. Na Rolls-Royce, até hoje, não existe linha de montagem. O couro que reveste seus bancos e portas é importado de fazendas de gado da Dinamarca. Motivo: nas pastagens dinamarquesas não há cercas, para evitar que o arame cause ferimentos aos animais. O couro é, portanto, impecável. A madeira utilizada no revestimento do painel - nogueira - é cultivada na Itália especialmente para a Rolls-Royce. A carroceria recebe entre catorze e vinte camadas de tinta, para que não haja imperfeições na pintura. Antes de sair da fábrica, o carro é examinado por uma equipe caça-defeitos durante uma semana. As portas são abertas e fechadas milhares de vezes, com o auxílio de um equipamento que acusa qualquer desnível.

Bons e duráveis - Desde que iniciou a produção, a Rolls-Royce fabricou 115.000 carros. A maioria está em pleno funcionamento até hoje, o que é um atestado da qualidade da marca. "São carros para durar a vida toda", diz Lawrence Pih, dono dos moinhos de trigo Pacífico, que coleciona automóveis, já teve um Rolls-Royce, modelo Silver Spur, e hoje anda pelas ruas de São Paulo em um Bentley, também fabricado pela Rolls-Royce. Na Inglaterra, a rainha Elizabeth, quando não sai de carruagem, só deixa o Palácio de Buckingham em seu Rolls-Royce. O príncipe Rainier, de Mônaco, tem vários modelos. O homem mais rico do mundo, o sultão Hassanal Bolkiah, de Brunei, é um colecionador desses automóveis. Tem 165. Há pelo menos catorze Rolls-Royce rodando no Brasil. O mais famoso é o da Presidência da República, um modelo de 1952, que foi presente do governo inglês ao então presidente Juscelino Kubitschek, e desde então sempre é utilizado nas cerimônias de posse. Recentemente, entraram no país três modelos Silver Spur, que valem 410.000 dólares cada um. Um deles ficou com a embaixada britânica. Os outros dois foram comprados por um banqueiro e um fazendeiro. A empresa não revela os nomes.

A Rolls-Royce está sendo negociada porque seus carros viraram um produto de venda tão restrita que a empresa não consegue caixa para lançar novos modelos. O último, o Silver Seraph, consumiu anos de estudos e mais de 270 milhões de dólares em investimentos. O grupo Vickers, dono da marca, calcula que seja preciso gastar 500 milhões de dólares para desenvolver um modelo novo e não tem esse dinheiro. A BMW quer investir 800 milhões de dólares não só para lançar novos produtos. Também pretende aumentar a produção de 2000 para 6.000 carros por ano, e popularizar um pouco a marca. Por enquanto a BMW leva vantagem sobre sua concorrente alemã porque já fornece o motor do Rolls-Royce e está jogando pesado. Na semana passada, ameaçou suspender o fornecimento de motores se a oferta da Volkswagen for aceita. A briga só termina em maio, quando os acionistas da Vickers se reunirem para decidir sobre o negócio. Quando ele for fechado, terá sido vendida a última fábrica de automóveis legitimamente britânica. A Jaguar e a Aston Martin foram compradas pela Ford e o grupo Rover, pela própria BMW.

A história feita à mão

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A rainha Elizabeth, da Inglaterra, só sai do palácio de carruagem ou em um de seus Rolls-Royce