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Santo ou Demônio?
 
Com a agressividade de um trator, é assim que o escritor católico inglês John Cornwell o descreve em Hitler's Pope: the Secret History of Pius XII (O Papa de Hitler: a História Secreta de Pio XII). O livro só será lançado nos Estados Unidos e na Europa no dia 27, mas a publicação de um excerto na revista americana Vanity Fair já mostrou a que veio. Um teólogo do Vaticano, o padre Pierre Blet, considerou "caluniosas e fictícias" as acusações de Cornwell. Blet também tem um livro novo na praça sobre Pio XII, com enfoque oposto. E seu processo de beatificação continua, abrindo a perspectiva de que a Igreja tenha um santo que comungou com o diabo.

Cornwell jura que sua intenção inicial era ajudar a dirimir as dúvidas sobre a atuação de Pio XII durante a II Guerra Mundial e, com isso, melhorar a imagem do pontífice. Concluída sua pesquisa, o escritor se disse "em estado de choque moral" diante das "evidências explosivas" da colaboração do papa com o führer. O pano de fundo histórico é conhecido: embora execrasse Hitler, Pio XII o considerava uma ameaça menor, comparada ao comunismo - de resto uma atitude comum na época, e não só no âmbito da Igreja. A pesquisa de Cornwell refaz a trajetória do papa desde os anos 10, quando era o arcebispo Eugenio Pacelli, núncio para a região alemã da Bavária. Nessa época, Pacelli revelou a visão extremamente preconceituosa em relação aos judeus. Ao relatar, numa carta, seu espanto com uma manifestação de bolcheviques em Munique, o núncio se referiu ao líder do protesto como "russo e judeu; pálido, sujo, com olhos vazios, vulgar, repulsivo".

Quando o ascético e intelectualizado Pacelli se tornou embaixador do Vaticano para toda a Alemanha, surgiram dois personagens importantes em sua vida. Sobre ambos, Cornwell insinua indícios de relações amorosas com Pio XII, carnais ou platônicas. Uma é a freira Pasqualina Lehnert, fidelíssima governanta que acompanhou o futuro papa até a morte, chegando a provocar ciúme na irmã de Pio XII. Outro é Ludwig Kaas, padre e líder do Partido Católico do Centro, completamente obcecado pelo italiano. Segundo a tese de Cornwell, Kaas era o peão do futuro papa em sua aliança maligna: em troca da centralização do poder da Igreja, numa Alemanha que tinha um clero independente demais para seu gosto, os atuantes políticos católicos seriam neutralizados. Kaas de fato funcionou como negociador do acordo, ou concordata no jargão religioso, de reconhecimento mútuo entre o Estado alemão e o Vaticano. A concordata foi assinada por Pio XI em 1933, quatro anos após o retorno de Pacelli a Roma e meses depois da ascensão de Hitler. A idéia, porém, de que Pio XII, por puro maquiavelismo, tenha desarticulado sozinho o Partido do Centro parece claramente exagerada.

Festas para Hitler

O papado de Pio XII começou em março de 1939, ano em que a invasão da Polônia - a catolicíssima Polônia, massacrada sem protestos do Vaticano - deu início à II Guerra Mundial. Enquanto isso, na Alemanha, o núncio em Berlim, arcepisbo Cesare Orsenigo, organizava uma recepção de gala para comemorar o aniversário de Hitler. Era o auge da agressão nazista, com a Europa subjugada e uma situação política inteiramente diferente, na qual o líder da resistência britânica, Winston Churchill, defendia um pacto com o diabo - no caso, o ditador soviético Josef Stalin - para derrotar Hitler. Pio XII continuava em silêncio. Sob pressão dos países que combatiam o nazi-fascismo, só foi pronunciar-se contra as atrocidades no Natal de 1942. Milhões de pessoas já haviam sido mortas, mas o papa falou em "centenas de milhares", sem usar as palavras "nazismo" e "judeus". No ano seguinte, tropas alemãs invadiram o gueto judeu de Roma, quase vizinho do Vaticano, prenderam mais de 1.000 pessoas e as deportaram para o campo de concentração de Auschwitz.

O padre Blet defende Pio XII com o conhecido argumento de que, se ele tivesse condenado publicamente o genocídio, teria provocado a ira do regime nazista contra os católicos, a começar pelos judeus convertidos, fazendo um número ainda maior de vítimas. Pio XII mandou abrir as portas das ordens religiosas de Roma, salvando assim alguns milhares de judeus. Cornwell não contesta isso em seu texto emocional, permeado pela decepção e pela tendência a passar batido por aspectos que não o interessam, como o secreto e arriscadíssimo apoio de Pio XII a um golpe fracassado contra Hitler. Com todas essas ressalvas, permanece o fato de que Pio XII errou desastrosamente em suas opções políticas e pecou, sim, ao se acovardar perante o maior crime da história da humanidade. Mesmo que ele seja beatificado nos próximos meses, como pretende João Paulo II, só um milagre limpará sua imagem.


 
Santo ou Demônio?

22 de setembro de 1999

Novo livro diz que o papa Pio XII não foi apenas omisso, mas ajudou Hitler

Por mais que o Vaticano tente livrar-se do assunto, a atitude do papa Pio XII em relação ao nazismo continua a pairar, como cadáver insepulto, lançando uma sombra sobre a Igreja como um todo. Que ele se omitiu em relação aos crimes de Adolf Hitler já é uma espécie de consenso, a ponto de o papa João Paulo II ter proferido um mea culpa oficial, há um ano e meio. Agora, a discussão entrou em outro patamar: Pio XII teria se aliado a Hitler para destruir a organização política dos católicos alemães, facilitando assim a consolidação da tirania nazista? Seu anti-semitismo era tão enraizado que fez dele quase um colaborador do genocídio dos judeus europeus?