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A Lista de Mendes
 
A Lista de Mendes

11 de novembro de 1998

O reconhecimento tardio do cônsul português que salvou 30.000 vidas das garras do nazismo

A cidade francesa de Bordeaux tinha-se transformado em um beco sem saída para a multidão que se refugiava do avanço do Exército alemão em junho de 1940. A única saída era pela fronteira com a Espanha - mas os vistos eram sistematicamente negados. Foi nesse ambiente de caos e desespero que o cônsul português Aristides de Sousa Mendes se pôs a emitir visto de entrada em Portugal a qualquer um que pedisse. Durante dias de esforço frenético, ele despachou numa mesa instalada em plena rua e transportou pessoalmente refugiados até a fronteira. Salvou 30.000 pessoas, incluindo 10.000 judeus. O desafio arruinou-lhe a carreira, mas o colocou numa restrita galeria de heróis da II Guerra, ao lado do alemão Oskar Schindler e do diplomata sueco Raoul Wallenberg, que salvou 20.000 judeus húngaros do extermínio.

Entre os três, Sousa Mendes é o menos conhecido, apesar de ter salvado maior número de vidas. No mês passado, o livro "Le Juste de Bordeaux" (O Justo de Bordeaux), escrito pelo jornalista José-Alain Fralon, do jornal Le Monde, fez justiça tardia à incrível história do diplomata que morreu há 45 anos, na miséria, num convento franciscano em Lisboa.


 
"Ele foi responsável pela maior operação de resgate empreendida por uma única pessoa durante a barbárie nazista", diz o historiador israelense Yehuda Bauer. Como Schindler, que tinha até carteirinha do Partido Nazista, Sousa Mendes havia sido até os 55 anos, quando eclodiu a II Guerra Mundial, um funcionário fiel à ditadura de António de Oliveira Salazar. Embora oficialmente neutro em relação ao conflito, o salazarismo tinha algum parentesco ideológico com o regime de Adolf Hitler e proibiu a concessão de vistos para judeus e outras pessoas de "nacionalidade incerta". Aristocrata com catorze filhos, Sousa Mendes passou por uma transformação ao receber de Lisboa a negativa de visto para um rabino que abrigara no próprio consulado.

Durante três dias, Sousa Mendes se manteve recolhido em seu quarto, sem falar com ninguém. O retiro se encerrou com a seguinte conclusão: "De agora em diante, darei vistos a todos. Não há mais nacionalidades, nem raças, nem religiões". Em poucos dias, febrilmente, o diplomata assinou milhares de passaportes. Estranhamente, foi a diplomacia inglesa que se queixou do cônsul que desafiava o protocolo diplomático trabalhando fora de hora e em locais impróprios. A ditadura salazarista chamou-o de volta. Mesmo a caminho de casa, Sousa Mendes continuou a distribuir vistos, às vezes quando os nazistas já estavam nos calcanhares de suas vítimas. Em Portugal, o diplomata foi forçado ao exílio interno até morrer. Finda a ditadura, em 1974, a campanha por sua reabilitação só se concluiu em 1988, quando o Parlamento o livrou dos opróbrios lançados em seu currículo pelos inquisidores de Salazar. Hoje, um bosque com 30.000 árvores o homenageia em Jerusalém, simbolizando cada uma das vidas que salvou. Em parte, o esquecimento em torno do heroísmo de Sousa Mendes se deve a ele mesmo. Católico fervoroso, julgava ter apenas agido segundo sua consciência e, com esse argumento, recusou a notoriedade.

Em 1967, em Nova Iorque, a Yad Vashem, organização israelita para a recordação dos mártires e heróis do Holocausto, homenageia Aristides de Sousa Mendes com a sua mais alta distinção: uma medalha comemorativa com a inscrição do Talmude "Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro". Em 1988, depois de muitas resistências do Antigamente infiltrado no Abril, a Assembleia da República e o Governo português, pressionados pelos filhos de Sousa Mendes e pelos americanos (entre estes o congressista Tony Coelho), finalmente procedem à reabilitação do Cônsul.