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Hora da Justiça
 
Hora da Justiça

11 de março de 1998

Preso oficial nazista que admite ter matado 500 judeus, incluindo mulheres e crianças

A Alemanha pôs atrás das grades um criminoso nazista de tipo raríssimo: o que admite ter cometido atrocidades. Alfons Goetzfried, 78 anos, oficial da Gestapo durante a II Guerra, confessou ter pessoalmente matado a tiros 500 judeus, incluindo mulheres e crianças, em Maidanek, um campo de extermínio na Polônia, em novembro de 1943. A Justiça alemã, que o prendeu na terça-feira passada, em Stuttgart, acha que pode acusá-lo de cumplicidade na morte de 70.000 pessoas, principalmente judeus, na Polônia e na cidade ucraniana de Lvov.

Em Maidanek morreram cerca de 1,5 milhão de prisioneiros, a maioria judeus, por maus-tratos ou executados nas sete câmaras de gás. A confissão de Goetzfried, que diz ter permanecido dezessete anos prisioneiro dos soviéticos, na Sibéria, e que só voltou à Alemanha em 1991, foi feita a investigadores russos e ingleses, que o ouviram como testemunha da chamada operação Festival da Colheita. Organizada como represália contra o levante dos prisioneiros no campo de extermínio de Sobibor, em outubro de 1943, a operação assassinou 43.000 judeus, em três campos de concentração.


 
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Goetzfried foi preso no final da guerra pelas tropas soviéticas e levado para Moscou, onde foi julgado e confinado num campo de prisioneiros da Sibéria. Libertado em 1958, foi para o Cazaquistão, onde ficou até 1991, quando, então, decidiu retornar à Alemanha, beneficiado por um programa de repatriamento. Depois foi preso em seu apartamento nos arredores de Stuttgart, onde vivia tranqüilamente. Desde o fim da Segunda Guerra, a Alemanha prendeu cerca de 100 mil suspeitos de crimes de guerra e condenou mais de seis mil.

Sob a doutrina racista do III Reich, cerca de 7,5 milhões de pessoas perderam a dignidade e a vida em campos de concentração, especialmente preparados para matar em escala industrial. Para os nazistas, aqueles que não possuíam sangue ariano não deveriam ser tratados como seres humanos. A política anti-semita do nazismo visou especialmente os judeus, mas não poupou também ciganos, negros, homossexuais, comunistas e doentes mentais. Estima-se que entre 5,1 e 6 milhões de judeus tenham sido mortos durante a Segunda Guerra, o que representava na época cerca de 60% da população judaica na Europa. Foram assassinados ainda entre 220 mil e 500 mil ciganos. O Tribunal de Nuremberg estimou em aproximadamente 275 mil alemães considerados doentes incuráveis que foram executados, mas há estudos que indicam um número menor, cerca de 170 mil. Não há dados confiáveis a respeito do número de homossexuais, negros e comunistas mortos pelo regime nazista.

A perseguição do III Reich começou logo após a ascensão de Hitler ao poder, no dia 30 de janeiro de 1933. Ele extinguiu partidos políticos, instalou o monopartidarismo e passou a agir duramente contra os opositores do regime, que eram levados a campos de concentração - em março de 1933 já havia 25 mil presos no campo de Dachau, no sul da Alemanha. Livros de autores judeus e comunistas - entre ele Freud, Marx e Einstein -- foram queimados em praça pública. A intelectualidade, acuada, só assistia - o Führer tinha o hábito de reprimir violentamente qualquer manifestação de protesto. Os condenados sofriam torturas, eram obrigados a fazer trabalhos forçados ou acabavam morrendo por fome ou doença.

Eram também considerados inimigos do III Reich os comunistas - embora Hitler tenha se associado à União Soviética para garantir a invasão da Polônia -, pacifistas e testemunhas de Jeová. Um após Hitler ter assumido o poder foram baixadas leis anti-judaicas iniciando o boicote econômico. Após a expulsão dos judeus poloneses da Alemanha, um jovem repatriado, Herschel Grynspan, assassinou em Paris o secretário da embaixada alemã, Ernst von Rath. Isso detonou entre os dias 9 e 11 de novembro de 1938 uma série de perseguições que ficaram conhecidas como a Noite dos Cristais. Centenas de sinagogas foram incendiadas, 20 mil judeus foram levados a campos de concentração e 91 foram mortos, segundo informações de fontes alemãs. Cerca de 7 mil lojas foram destruídas e os judeus ainda foram condenados a pagar uma multa de indenização de 1,5 bilhão de marcos.