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Visões do Passado
 
Visões do Passado

01 de setembro de 1999

Coletânea reúne textos de viajantes estrangeiros sobre o Rio de Janeiro na época colonial

A enseada da Baía de Guanabara, em 1795: elogios à paisagem e críticas ao povo



 
"Não deve causar espanto a afirmação de que a corrupção é quase generalizada entre os habitantes do Brasil." Assim, solta, a frase parece tirada de algum panfleto oposicionista dos dias de hoje. A constatação, no entanto, foi feita no ano de 1757 por M. De La Flotte, tripulante de um navio francês que, a caminho da Índia, passou dois meses ancorado na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Anotações como essa compõem o livro Visões do Rio de Janeiro Colonial (José Olympio/Eduerj, 262 páginas, 24 reais), organizado pelo pesquisador Jean Marcel Carvalho França. Trata-se de uma antologia de textos de viajantes que aportaram no Rio entre 1531 e 1800. São 35 trechos nos quais, em geral, a beleza do Rio é exaltada e os habitantes do lugar são descritos com críticas severas e poucos elogios.

No início do Brasil colônia, Portugal não via com bons olhos a aproximação de navios de outras bandeiras. Havia o perigo constante de invasões e saques. Desse modo, são raros os relatos estrangeiros datados do século XVI, época em que as imediações da Baía de Guanabara eram uma selva habitada por índios. "Se Deus não tiver piedade desses selvagens, eles dificilmente serão convertidos ao cristianismo, e isso sobretudo em razão de seu detestável hábito de comerem-se uns aos outros", espantou-se o navegador francês Nicolas Barré, em 1555. Com o passar dos anos e o nascimento da cidade do Rio de Janeiro, os relatos sobre o lugar tornaram-se mais comuns. Por intermédio dos textos reunidos no livro, é possível acompanhar o crescimento da cidade e a evolução dos hábitos e costumes de seus cidadãos.

Galanteria temida

Certos relatos traem uma visão preconceituosa da Europa a respeito dos trópicos. O inglês James Cook chegou a afirmar que o Rio era uma cidade onde não havia uma única mulher honesta. Tudo porque lhe contaram que algumas mulheres jogavam, das sacadas das casas, flores sobre os forasteiros, o que seria um sinal claro de seu interesse sexual por eles. Os homens, em geral, eram descritos como ciumentos ao extremo. O francês De La Flotte narrou um episódio que ilustra esse sentimento. Ao baile organizado pelo governador em homenagem aos oficiais de sua esquadra não compareceu uma única dama nativa. Seus pais e maridos não as queriam expostas aos franceses, "povo muito temido em matéria de galanteria". "Imagine o leitor o quão animado foi esse baile e o quão viva foi a dança", ironizou De La Flotte.

Há também textos anônimos. Um dos mais interessantes remonta a 1703 e foi publicado no Journal d'un Voyage, escrito por um integrante de uma companhia de tráfico negreiro. O autor do relato e um amigo queriam embarcar num navio que se dirigiria à colônia de São Sacramento (o atual Uruguai). Ouviram do governador do Rio, Francisco de Castro Morais, que o rei havia proibido que qualquer estrangeiro seguisse naquela direção. "Resolvemos dar 40 moedas de ouro ao secretário do governador", escreveu o viajante. Linhas adiante, ele celebra que "as moedas foram entregues e, sobretudo, aceitas". No dia seguinte, ele e o amigo tiveram permissão para partir. Sua conclusão sobre o episódio, que caberia naquele panfleto hipotético citado na abertura desta resenha: "O ouro persuade mais do que qualquer argumento; não há dificuldade que ele não remova".