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11 de outubro de 2000

Uma onda de restauração de seus casarões põe o Rio na dianteira da preservação histórica

Centro do Rio: o conjunto arquitetônico renova o visual e revitaliza a cidade


 
Uma das cidades mais bonitas do país começa a nascer em pleno centro do Rio de Janeiro. É o Rio do início do século XX, que está surgindo da reforma de seus velhos casarões e sobrados. As construções estão florescendo coloridas em meio à paisagem da área mais movimentada da cidade, que abriga atualmente o maior movimento de preservação arquitetônica do país. Cerca de 800 imóveis foram restaurados. Há, neste momento, quarenta obras em andamento e outras 300 estão em fase de aprovação na prefeitura. Mais ainda que no ano passado, quando foram feitos 220 pedidos de autorização para obras. As fachadas empoeiradas, os letreiros escandalosos, a fiação aparente deram lugar a janelas e adornos bem-cuidados. Uma reforma desse porte só se compara, no Brasil, à que foi feita no Pelourinho, em Salvador, mas há diferenças entre as duas. Enquanto na Bahia a revitalização foi inteiramente concebida e executada pelo governo estadual e os imóveis estão concentrados numa mesma área, no Rio são os proprietários que se encarregam da melhoria, enquanto os prédios se espalham por dezenas de quarteirões na região central. A fórmula tem dado tão certo que serviu de modelo para outras cidades do país.

O projeto não é novo. A prefeitura estimula os proprietários a reformar os imóveis há mais de quinze anos. A novidade é que nos últimos dois os comerciantes se animaram e iniciaram as restaurações. O maior atrativo está na ponta do lápis: isenção do imposto predial e territorial urbano (IPTU). A dispensa é total e por tempo indeterminado, desde que o proprietário mantenha o imóvel em bom estado de conservação. A partir dessa concessão, os ocupantes dos velhos imóveis logo concluíram que seria mais interessante gastar o dinheiro com uma fachada renovada do que pagar o tributo. A cada três anos uma equipe de técnicos faz uma vistoria e reafirma a isenção ou a derruba. Pode ser bom negócio. Uma churrascaria teria de pagar, neste ano, 30.000 reais de imposto. Investiu a mesma quantia numa reforma completa, com a vantagem de que melhorou o lugar para a clientela.

Arrasa-quarteirão

Com a renovação da paisagem, o movimento de revitalização da região é visível. "Há dez anos era uma área degradada. Hoje, grandes grifes de moda e restaurantes estão se instalando por aqui", diz o arquiteto Augusto Ivan, responsável pela administração municipal no centro da cidade. Ivan, um dos pioneiros do projeto de preservação naquela região, é uma espécie de Indiana Jones da arquitetura histórica carioca. Recentemente, embatucou com um sobrado, completamente descaracterizado, com as janelas trocadas por paredes de tijolo, mais parecido com um caixotão de cimento. Cismou que era do período colonial e foi pesquisar. Acabou encontrando nos livros um belíssimo palacete, que foi residência do núncio apostólico no Brasil.

O casario do centro, em estilo eclético, foi quase todo construído no início do século XX. Tem grande importância histórica para a cidade, porque representa o marco inicial da vida urbana no século XX. Data da época em que o então prefeito Pereira Passos promoveu uma reforma no mais puro estilo arrasa-quarteirão. Entre 1903 e 1906, quadras inteiras foram demolidas para o alargamento das ruas, obras de saneamento e rearranjo do espaço urbano. A preocupação de Pereira Passos, além de uma higienização nas ruas de saneamento precário, era transformar a então capital federal de ares provincianos numa metrópole moderna, com um modelo bem definido - Paris. Também era necessário acompanhar o crescimento da cidade com vias mais largas e arejadas. Das obras, surgiram avenidas como a Rio Branco, até hoje o coração do centro do Rio.

Houve uma época em que, para ver um casarão restaurado, era preciso cruzar o Atlântico e desembarcar em países como Itália, França, Portugal ou Espanha. A partir da década de 70, essa preocupação se difundiu entre os brasileiros. Hoje, várias cidades estão empenhadas na preservação de suas construções históricas. São Luís do Maranhão, São Paulo, Curitiba, Santos, Recife, Porto Alegre, Fortaleza e Salvador são alguns exemplos. "A diferença é que, até a década de 70, as intervenções urbanas eram maquiagens de fachada. Foi assim em Parati, no litoral sul fluminense, por exemplo", afirma a secretária municipal de urbanismo do Rio, Hélia Nacif. "A tendência agora é dar sustentabilidade aos projetos, com a própria população se envolvendo." Essa é a diferença do que está acontecendo no Rio.

São os próprios comerciantes, ocupantes dos imóveis, os responsáveis pela reforma. Para alguns, a isenção do IPTU virou uma oportunidade de melhorar os negócios. Na Cinelândia, tradicional ponto da boemia carioca, um edifício inteiro construído nos anos 20, em arquitetura eclética, foi restaurado para ser vendido. Um dos principais argumentos do vendedor, afixado nos cartazes, era justamente a isenção do tributo. "Houve uma evolução na consciência dos brasileiros em relação à preservação de seu patrimônio", atesta o engenheiro Ricardo Piquet, responsável por esse setor na Fundação Roberto Marinho. Isso não quer dizer que a cidade esteja na vanguarda dos mecanismos de incentivo à conservação. Há, em outros países, formas mais completas de incentivo, nas quais o Estado não apenas dá a isenção como financia parte da obra. Mas a conscientização das prefeituras das capitais brasileiras já é um avanço, num país que, apesar de muito jovem, costuma ter lapsos de memória e se esquece de preservar sua História.

Memória preservada

O garimpo da preservação histórica acaba de revelar mais uma pérola. Depois de dois anos de restauração, será aberto ao público, no próximo mês, o Museu de Arte Sacra do Rio de Janeiro, que vai funcionar na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no centro da cidade. A construção, do século XVIII, é uma preciosidade arquitetônica. Construída em estilo barroco, a igreja deve uma parte de seu valor histórico aos artistas que entalharam seus adornos. Os escultores portugueses Manuel de Brito e Francisco Xavier de Brito vieram para o Brasil especialmente para esse trabalho. Ao concluírem a obra, andaram pelo país espalhando seu estilo. Manuel acabou se tornando mestre de Aleijadinho. Apesar de sua importância histórica, a igreja esteve degradada por décadas e durante doze anos permaneceu trancada a sete chaves. Com isso, acabou-se por evitar o roubo de suas peças mais valiosas. O trabalho de restauração, financiado pelo BNDES, consumiu 3,5 milhões de reais e trouxe surpresa aos historiadores. A igreja ostentava uma imagem de Cristo de olhos fechados como sendo a do Senhor morto. Após a limpeza, descobriu-se que originalmente tinha os olhos abertos.


Museu de Arte Sacra: igreja histórica é restaurada
Em vários pontos das ruas do centro surgem obras nas fachadas históricas