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17 de fevereiro de 1999

Manuscritos do Arquivo Nacional detalham a atuação da Companhia de Jesus no Brasil

Nóbrega e Anchieta, em retrato épico: padres e construtores de império

A importância dos jesuítas nos três primeiros séculos da História do Brasil é de tal dimensão que aos padres da ordem fundada por Santo Inácio de Loiola poderia ser dado o título de "construtores de império" - um império tropical onde encontraram a glória e a desgraça.


 
Peças-chave na expansão ultramarina de Portugal no século XVI, eles chegaram ao país em 1549 - no minúsculo grupo que incluía o padre Manuel da Nóbrega -, meteram-se em boa parte do território nacional, enfrentaram a amargura da expulsão por motivos políticos, voltaram com força menor e foram imortalizados em ilustrações de gosto duvidoso, sempre a catequizar hordas de índios. Documentos encontrados por pesquisadores do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, mostram uma faceta mais cotidiana da saga jesuítica em terras brasileiras. Ao ordenar todo o acervo que cobre o período colonial brasileiro, historiadores encontraram manuscritos que detalham a convivência dos membros da Companhia de Jesus com os índios, com outras ordens religiosas e com as autoridades portuguesas durante quase 300 anos. Acreditava-se que boa parte desse pacote havia voltado para Portugal junto com a corte de dom João VI e o acervo da Biblioteca Real, em 1821.

No auge da influência da Companhia de Jesus, a troca de correspondências entre burocratas da colônia e do império mostra a extensão da autoridade dos jesuítas. "São sempre os primeiros a que costumam recorrer nas dificuldades e perigos os meus governantes e capitães", relata o escrivão da Fazenda João Dias da Costa, em 23 de março de 1664, ano em que o prodigioso padre Antônio Vieira tinha sob sua jurisdição 52 aldeias indígenas. A documentação mais extensa, no entanto, é a que retrata a perseguição política contra os religiosos. Está no Arquivo Nacional o processo que acusa os marqueses de Távora de atentar contra a vida de dom José I, rei de Portugal, em 1758. No mesmo complô foi envolvido um grupo de jesuítas - pretexto usado para a expulsão da Companhia de Jesus dos domínios portugueses, decretada pelo marquês de Pombal, um primeiro-ministro resolvido a implodir o poder das ordens religiosas. A partir de 1759, quando é determinada a expulsão, a campanha vira caça às bruxas. Num dos documentos, o próprio Pombal avisa que os jesuítas se estariam disfarçando com hábitos de outras ordens para continuar no Brasil. Há ainda documentos que tratam de confisco dos bens, como a Fazenda Nacional de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, uma das maiores propriedades da Companhia de Jesus no país. Nessa leva de manuscritos, o termo 'jesuitismo" começa a aparecer como sinônimo de 'dissimulação", como está até hoje no Aurélio. Documentos como esses, descobertos em meio a volumes empoeirados, não mudam a História do Brasil colônia, mas mostram que uma parte dela ainda pode estar perdida nos acervos brasileiros.

Pombal: atenção para disfarces