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11 de novembro de 1998


Teste de DNA revela que Thomas Jefferson teve filho ilegítimo com uma escrava


Uma revelação chocante para muitos americanos acaba de emergir dos laboratórios. Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos e autor da Declaração de Independência americana, teve pelo menos um filho ilegítimo com uma jovem escrava negra, Sally Hemings. Seus milhares de descendentes, hoje na sexta geração, provavelmente são mais numerosos que os herdeiros brancos que Jefferson teve com sua mulher oficial, Martha. Para chegar a essa conclusão, cientistas americanos, ingleses e holandeses submeteram a testes de DNA homens que hoje descendem das duas linhagens de Jefferson, a legítima e a bastarda. Descobriram que as características genéticas entre eles são idênticas. "Essa é uma grande notícia", comemorou Julia Jefferson Westerinen, uma moradora de Nova York, 64 anos, descendente de Sally Hemings. "Finalmente, a ciência está confirmando o que durante quase dois séculos nossa família sempre soube."


 
O DNA é o código genético que define as características de todos os seres vivos. É por ele que detalhes como a cor dos olhos da mãe, o formato do rosto do pai ou mesmo a propensão de ambos para desenvolver certas doenças passam de uma geração para outra. No caso dos homens, parte dessa herança genética é transmitida pelo cromossomo Y, uma seqüência do DNA que passa sempre de pai para filho e se mantém praticamente imutável ao longo das gerações. Isso significa que o cromossomo Y de um homem que tenha o sobrenome Fagnani e more hoje em São Paulo é igual ao de seu tataravô que trouxe a família para o Brasil, no século passado. Foi pelo estudo dessa partícula do DNA que os cientistas americanos chegaram aos herdeiros de Thomas Jefferson. Os testes, feitos em Oxford, na Inglaterra, mostraram que o presidente foi o pai de pelo menos um dos sete filhos de Sally. "A conclusão nos dá quase 100% de certeza de que Eston, o filho caçula de Sally, era de Jefferson", diz Eric Lander, geneticista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, MIT, e co-autor do estudo com o patologista Eugene Foster, da Universidade da Virgínia. "A semelhança é total", confirma Foster.

A revelação causou grande repercussão nos Estados Unidos por várias razões. A primeira é que ela fere de morte algumas noções que sustentavam idéias racistas. Para uma parte da população americana, que até hoje acredita na supremacia dos brancos sobre os negros, é inconcebível a idéia de que Jefferson, um dos pais da pátria, teve filhos com uma escrava. Jefferson não foi um presidente qualquer. É um dos ícones da História americana, talvez o maior de todos. É o autor da mais célebre frase da Declaração de Independência, segundo a qual todos os homens nascem iguais e possuidores de direitos inalienáveis, incluindo o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. São princípios que mudaram a História da humanidade e que, mais tarde, serviriam de inspiração para a Revolução Francesa e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sua face é uma das quatro esculpidas no Monte Rushmore, ao lado dos presidentes George Washington, Abraham Lincoln e Theodore Roosevelt. Aparece também na nota de 2 dólares e na moeda de 5 centavos.

Fofoca corrosiva

"A revelação derruba todos os argumentos do preconceito racial entre nós", diz Orlando Patterson, professor de sociologia na Universidade Harvard e autor de um livro sobre a escravidão nos Estados Unidos. Além disso, não é só o passado americano que está em questão. A pesquisa veio à tona no exato momento em que o presidente Bill Clinton anda às voltas com um processo de impeachment, acusado de fazer sexo com uma estagiária dentro da Casa Branca. Se Jefferson teve filhos com uma escrava, por que Clinton não poderia dar também suas escapadelas? Por essas razões, a pesquisa se tornou uma batata quente para as publicações científicas. Antes de sair na Nature, foi recusada por outras duas revistas especializadas, a Science e a Nature Genetics. Os editores achavam que o assunto era explosivo demais às vésperas de uma eleição em que Bill Clinton jogaria suas chances de continuar no cargo até o final do mandato (veja reportagem).

O resultado dos exames confirmou o que durante quase dois séculos foi uma das fofocas mais corrosivas da História americana. Os rumores de que Jefferson tinha uma escrava como amante começaram a correr ainda em sua primeira eleição para a Presidência, em 1800. Biografias mais recentes mostraram que Jefferson, um viajante freqüente, estava sempre na sua fazenda de Monticello, no Estado da Virgínia, nove meses antes do nascimento de cada um dos filhos de Sally. Segundo relatos da época, embora fosse escrava, Sally tinha a pele clara. A explicação é que ela própria era filha ilegítima de um relacionamento do sogro de Jefferson com uma escrava. Era, portanto, meia irmã de Martha, a mulher do presidente. Jefferson ficou viúvo em 1782, aos 39 anos, depois de um casamento de dez com Martha, e nunca mais se casou. Quatro anos mais tarde, era embaixador americano na França quando Sally, com apenas 13 anos, foi enviada a Paris em companhia da filha mais nova dele, Mary. O relacionamento entre os dois teria começado nessa época. Quando Jefferson retornou à Virgínia, em 1789, Sally, com 16 ou 17 anos, estava grávida de seu primeiro filho. Enquanto morou na propriedade de Monticello, Sally teve pelo menos cinco filhos, todos eles com pele clara e muito parecidos com Jefferson. O mais novo, Eston, em cujos descendentes foram feitos os testes de DNA, casou-se com uma mulher branca e, desde então, praticamente não restaram traços característicos dos negros na família.