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Paisagem Perdida
 
Paisagem Perdida

28 de outubro de 1998

O Rio antigo revelado pelas lentes do suíço Leuzinger, o primeiro fotógrafo da cidade

Os arcos da Lapa, com o Pão de Açúcar ao fundo (à esquerda), e a Rua Direita, com suas carruagens: na década de 1870, a região central da cidade vivia um crescimento veloz. Na Lapa, casebres miseráveis surgiam da noite para o dia, e a Rua Direita, ponto de lojas chiques, era ocupada pelos fidalgos

Há 130 anos, quando a fotografia ainda engatinhava no Brasil, o suíço George Leuzinger teve a idéia de retratar a cidade do Rio de Janeiro. Carregando uma caixa fotográfica de 10 quilos pelas ladeiras cariocas, ele compôs a primeira crônica fotográfica da cidade, entre 1860 e 1870. As lentes do suíço, um fotógrafo amador que ganhava a vida editando livros para a corte de dom Pedro II, registraram a paisagem urbana e as belezas naturais da então capital do império. Meticuloso, Leuzinger não apenas produziu as imagens fotográficas, tratando de encaderná-las em álbuns com capas aveludadas, para depois serem vendidos a nobres brasileiros e europeus. Quando se cansou da fotografia, passou a incentivar seus assistentes a praticar a nova técnica. Entre eles estava o carioca Marc Ferrez, que se tornaria o mais notório fotógrafo do Rio antigo. Leuzinger, entretanto, ficou esquecido. Tamanha injustiça está prestes a ser reparada. No mês que vem chega às livrarias a obra O Rio de Janeiro do Fotógrafo Leuzinger, da editora Sextante, que reúne oitenta das cerca de 120 imagens que restaram de sua produção. "Não se trata apenas de uma relíquia. As imagens são um testemunho notável do crescimento da cidade", diz o historiador Mario Aizen, um dos organizadores do livro.


 
Ver as fotos de Leuzinger é como fazer um passeio pelo Rio do Segundo Império. Naquele tempo, a cidade era o centro político e financeiro do país, com uma vida social agitada, como demonstram os livros de Machado de Assis. A Rua Direita, no centro, hoje Rua Primeiro de Março, vivia congestionada de carruagens. Perto dali, a Rua do Ouvidor, uma das transversais da Rua Direita e hoje ocupada por camelôs, abrigava as lojas mais chiques da época. A própria editora de Leuzinger ficava no número 36. Não contente em empunhar sua câmera para o centro da cidade, ele carregou seu equipamento para a região que hoje compõe a Zona Sul. Na época com 270.000 habitantes, o Rio já crescia naquela direção. Fugindo da balbúrdia do centro da cidade, onde os casebres populares se amontoavam, os ricos começavam a construir seus palacetes à beira da Baía de Guanabara, nos bairros de Botafogo e Laranjeiras. Foi quando a Lagoa Rodrigo de Freitas entrou de verdade para o mapa da cidade. Ainda sem o aterro feito no século XX, que tomou grande parte de seu espelho d'água, a lagoa inundava um bom pedaço do que hoje são os bairros do Leblon e de Ipanema, esbarrando no Jardim Botânico, como mostram as fotos do suíço.

Feita de madeira e vidro, a câmera de Leuzinger era tecnologia de ponta para a época. Só para captar a imagem de um objeto eram necessários cinco minutos de exposição. Depois dessa etapa o fotógrafo tinha de correr até uma cabana escura para fixar a imagem em enormes chapas de vidro. "Naquele tempo era impossível fazer fotos de movimento", diz o pesquisador Pedro Vasquez. Até o álbum de Leuzinger ser redescoberto, muitos pesquisadores desconfiavam da autoria das fotos. Como ele era dono da editora, acreditava-se que o suíço apropriava-se da criação de seus empregados, inclusive das chapas feitas por Marc Ferrez. Identificadas pela caligrafia do próprio Leuzinger, que as assinava sempre com um "G. Leuzinger", finalmente elas foram legitimadas.

Foto à esquerda: George Leuzinger: natureza e arquitetura da capital do império
Foto ao centro: a Lagoa Rodrigo de Freitas, ainda sem o aterro: inundando boa parte do que hoje são os bairros do Leblon e de Ipanema
Foto à direita: o Pão de Açúcar, sem o bondinho, visto a partir de Botafogo: a construção maior é o prédio que hoje abriga a Universidade Federal do Rio de Janeiro