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28 de abril de 1999

Como o marquês de Pombal usou poetas brasileiros para fazer autopromoção

O marquês de Pombal: contra os jesuítas, a pena de Basílio da Gama


 
O grupo de intelectuais franceses conhecido como Escola dos Annales - divulgadora da chamada história do cotidiano - começa a perder espaço. Voltaram a ser publicados, na Europa, livros que se dedicam a analisar fenômenos históricos por meio da biografia dos grandes líderes da humanidade - o que já estava na hora de acontecer, especialmente num século em que homens como Stalin ou Hitler fizeram uma tremenda diferença. A decadência da Escola dos Annales se faz sentir também no Brasil, país onde ela exerceu grande influência. Um exemplo é o esplêndido livro de Ivan Teixeira Mecenato Pombalino e Poesia Neoclássica (Fapesp/Edusp; 623 páginas; 65 reais), que estabelece um novo padrão para os estudos brasileiros do século XVIII. A partir de uma idéia genial, a de explorar a influência do marquês de Pombal, o poderoso primeiro-ministro português, no conteúdo da poesia da sua época, Teixeira revela um novo mundo praticamente ignorado pelos historiadores.

Com uma prosa límpida, ele demonstra como Pombal usou a arte como veículo de autopromoção. Depois de subir ao poder, em 1750, Pombal patrocinou portentosas obras arquitetônicas, deixando sua marca em Lisboa quando reconstruiu a cidade após o terremoto de 1755. Além disso, o governante lusitano apoiava escritores financeira e politicamente. Déspota esclarecido, condicionava o apoio, claro, à exaltação de sua política. Também queria promover um tipo de arte que defendesse idéias iluministas contra o que julgava ser as trevas da religião. Ou seja, que servisse de justificativa para um dos grandes feitos de seu governo, que foi a diminuição da influência dos jesuítas na vida política do país. A novidade do livro de Ivan Teixeira é demonstrar como, no além-mar, jovens escritores brasileiros afinaram-se com essa ideologia.

O caso mais significativo foi o do mineiro José Basílio da Gama (1741-1795), autor do poema épico O Uraguay. Teixeira retira Basílio da Gama do panteão indianista e nativista, para situá-lo como um poeta central no discurso pombalino. O livro demonstra que o grande herói de O Uraguay não é o índio, mas o próprio marquês de Pombal, personagem do poema com o nome de Conde de Oeiras. Segundo Ivan Teixeira, essa bela peça poética foi um eficiente instrumento da promoção do primeiro-ministro como o representante - e vencedor - das forças da razão e das luzes contra o obscurantismo dos seguidores de Santo Inácio de Loyola.

Com 28 anos de idade à época da publicação de O Uraguay, Basílio da Gama mantinha com Pombal uma relação de vantagens recíprocas. O poeta "fazia a cabeça" de seus conterrâneos, evitando que as obras de Alvarenga Peixoto, Silva Alvarenga e Joaquim Inácio de Seixas Brandão, entre outros literatos de renome, fossem contagiadas pelo espírito da velha nobreza lusitana, a inimiga de Pombal. A proximidade entre o primeiro-ministro e Basílio da Gama era tamanha que, após a publicação de O Uraguay, o marquês o nomeou seu secretário particular. Seria interessante que Teixeira continuasse a deslindar essa história fascinante, investigando o que aconteceu com os poetas que apoiaram Pombal nas décadas seguintes à queda do governante, em 1777.