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O Mal do Mestre
 
O Mal do Mestre

25 de março de 1998


Exumação dos ossos de Aleijadinho confirma que ele tinha hanseníase e uma doença cutânea


Adormecido por mais de dois séculos sob o assoalho da Igreja da Nossa Senhora da Conceição, em Ouro Preto, o mistério que ronda os males físicos de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814), começa a ser desvendado. Na semana passada, uma equipe de seis médicos desenterrou uma urna metálica com ossadas do século XVIII. De acordo com relatos da época, Aleijadinho foi enterrado sob o primeiro degrau do altar de Nossa Senhora da Boa Morte, na Igreja da Nossa Senhora da Conceição.

Pois ali, aos pés da Virgem, junto com outras três ossadas, foram exumados os ossos do maior escultor do barroco brasileiro. De início, a equipe do médico Geraldo Barroso de Carvalho verificou que os ossos pertenceram de fato a um ancião - o artista viveu 76 anos. Mas a novidade mais importante diz respeito às doenças que o molestaram. Além de hanseníase, um mal já sabido, ao que tudo indica Aleijadinho também tinha porfiria. Deformante, essa doença provoca úlceras na pele quando seu portador toma sol. E os ossos de Aleijadinho têm um tom avermelhado, típico de portadores de porfiria. As conclusões definitivas virão depois dos resultados de exames laboratoriais.


 
"A porfiria explica o mau humor e o comportamento estranho dele no fim da vida", diz Carvalho. Conta-se que depois de adoecer, aos 40 anos, Aleijadinho perdeu os dedos dos pés, quase todos os das mãos e ficou cego de um olho. Por isso, só trabalhava escondido dentro de um toldo, com os cinzéis amarrados ao antebraço. Filho do arquiteto português Manuel Francisco da Costa Lisboa com uma escrava, Aleijadinho aprendeu a projetar e a esculpir com o pai. Dono de um talento múltiplo, além de entalhar em pedra e madeira pintava e projetava igrejas. Viveu e morreu na miséria. Freqüentemente era roubado por seus patrões e tudo o que ganhava dividia com seu escravo Maurício. Ironicamente, foi debilitado que o mestre, chamado de "gênio universal" pelo crítico francês Germain Bazin, criou suas obras-primas. Os primeiros sintomas da doença vieram quando trabalhava na Igreja Terceiros Franciscanos de Vila Rica, em 1776. Já os doze profetas, de Congonhas do Campo, foram feitos entre 1800 e 1805. A atual pesquisa sobre o escultor é uma boa notícia para a cultura brasileira. Mas para que se faça justiça a sua obra é preciso restaurar seus profetas, hoje mutilados pelo tempo, pelo vandalismo e pelo descaso oficial.