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Mãe Zelosa e Fiel
 
Mãe Zelosa e Fiel

16 de dezembro de 1998

Pesquisa de historiadora contesta o mito de que Xica da Silva era um furacão sedutor

Dentre os raros escravos brasileiros que deixaram a senzala para registrar seu nome na História, um dos casos mais fascinantes é o de Xica da Silva. Sua vida já rendeu inúmeros trabalhos acadêmicos, um filme estrelado por Zezé Motta e uma novela veiculada no ano passado pela TV Manchete. Em todas essas obras, sua ascensão social vertiginosa era atribuída à arte de seduzir senhores de escravos, fidalgos, funcionários da coroa portuguesa e todo homem branco que tivesse dinheiro nas Minas Gerais do século XVIII. Uma pesquisa realizada pela historiadora Júnia Ferreira Furtado, professora da Universidade Federal de Minas Gerais, está virando esse mito pelo avesso.


 
Com base em documentos encontrados em fóruns de cidades próximas a Diamantina, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e na Torre do Tombo, em Lisboa, Júnia descobriu que Xica da Silva estava mais para zelosa mãe de família, fiel ao homem com quem viveu por dezessete anos, do que para mulher depravada que escolhia parceiros conforme o tamanho do cofre. "Ponho a minha mão no fogo por ela", diz a historiadora. "Xica da Silva juntou-se ao contratador de diamantes da coroa portuguesa João Fernandes, deu-lhe treze filhos e nunca o traiu."

Um dos documentos mais importantes descobertos por Júnia durante a pesquisa é a carta de alforria de Xica da Silva, encontrada enquanto a historiadora revirava os arquivos do fórum do Serro, cidade vizinha a Diamantina. A papelada estava carcomida pelas traças, mas mesmo assim foi possível reconstituir a verdadeira história da escrava. Logo que chegou ao Arraial do Tejuco (atual Diamantina), em 1753, João Fernandes comprou Xica da Silva de um médico português por 800 réis, o triplo do que valia um bom escravo na época. Poucos meses depois, João Fernandes não só se amancebou com ela como lhe concedeu alforria, pôs propriedades em seu nome, deu-lhe escravos e incentivou sua alfabetização. "Uma prova de que sua ascensão social era encarada com naturalidade pela sociedade da época é o fato de que ela freqüentava irmandades de brancos e era chamada de 'dona', tratamento que normalmente só era dispensado a mulheres brancas e ricas", informa Júnia.

Bruxaria e sedução

Para recontar a vida da ex-escrava, a historiadora pesquisou a fundo os costumes daquele tempo. Descobriu que Xica estava longe de ser a única mulher negra a viver, ou - no dizer da época - a amancebar-se com homens brancos. "Essa era uma prática comum nas Minas Gerais daquele tempo", afirma Júnia. "Ela jamais teria escandalizado aquela sociedade, porque muitas outras ex-escravas da época tiveram vida parecida com a dela." O mito da Xica da Silva sedutora e promíscua foi alimentado, no século XIX, pelo memorialista mineiro Joaquim Felício dos Santos, autor de artigos e crônicas sobre a personagem. Isso se deve ao fato de que as Minas Gerais do século XIX eram muito menos liberais do que no século anterior. Imbuído dos valores de sua época, Santos não conseguia aceitar a idéia de que uma escrava tivesse conquistado João Fernandes e vivido com ele, um dos fidalgos mais ricos e influentes da época, sem apelar para bruxaria ou jogos de sedução. O resultado foi uma versão distorcida que se tem repetido erroneamente com o passar do tempo. O estereótipo culminou na novela que a Manchete veiculou no ano passado, com Taís Araújo no papel de Xica da Silva. Teve até participação da estrela italiana do cinema pornô Cicciolina.

Casa de Xica da Silva em Diamantina