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Ilha da Fantasia
 
Ilha da Fantasia

27 de janeiro de 1999

Aberto ao público o palácio que serviu de cenário para o último baile do Império

Fachada da construção: capricho verde-abacate

A maior festa de arromba no Brasil ocorreu em 9 de novembro de 1889, seis dias antes da proclamação da República. Num baile organizado em homenagem a um encouraçado chileno de passagem pelo Brasil, 3.000 convidados dançaram até o amanhecer num palácio erguido na Ilha Fiscal, localizada na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. No dia seguinte, conta a lenda, mucamas recolheram dezenas de corpetes e demais roupas íntimas femininas, numa demonstração de que diversas virgindades haviam tombado entre uma valsa e outra. Com o advento da República, o cenário do último baile do Império acabou transformado em guarnição militar. O palácio da Ilha Fiscal, cuja aparência lembra a de um castelo de conto da carochinha, está desde 1913 sob a direção da Marinha, que chegou a retalhar o salão onde as moças perderam os espartilhos para ali construir escritórios. Agora, um pouco da antiga pompa foi recuperado. Depois de uma cuidadosa restauração, o palácio foi transformado em museu e reaberto ao público na semana passada.


 
Breguice

Se tivesse composto seu Samba do Avião a partir do Santos Dumont, e não do Galeão, Tom Jobim bem poderia ter citado o castelinho da Ilha Fiscal. É uma das imagens do Rio divisadas por quem chega de São Paulo a bordo de uma aeronave. Visto de cima, parece um monumento à breguice, com sua coloração verde-abacate. Examinado de perto, verifica-se que é mesmo um horror. Trata-se de uma imitação barata e estilizada de um edifício gótico, com arcos ogivais e vitrais ornados de rosáceas que simulam os da famosa Catedral de Notre- Dame, em Paris. O fato de ser uma porcaria do ponto de vista arquitetônico não lhe tira, porém, a importância histórica. Ao todo, os trabalhos de restauração duraram treze meses e consumiram 1,5 milhão de dólares do orçamento da Marinha. Num dos ambientes, um mosaico com doze tipos de madeira nobre brasileira foi inteiramente recuperado, bem como um afresco de gosto duvidoso que reproduz o céu do Rio. As estrelinhas, por exemplo, são douradas.

O palácio da Ilha Fiscal foi construído entre 1881 e 1889, por ordem do imperador dom Pedro II. Em visita ao local, ele ficou encantado com a vista que se tinha dali dos principais pontos do Rio. O monarca determinou, então, que o engenheiro de obras da corte, Adolpho José Del Vecchio, projetasse uma construção supimpa. Para impressionar o chefe, ele resolveu caprichar - e deu no que deu. A vista continua sendo o principal atrativo da ilha de 7.000 metros quadrados. Até junho, os visitantes terão acesso ao museu por meio de lanchas da Marinha. No segundo semestre, a travessia contará com um charme adicional - será realizada em um rebocador de 1910 que está sendo reformado.

O interior da construção: vitrais e arcos das janelas imitam o estilo gótico