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Epopéia Tropical
 
Epopéia Tropical

23 de junho de 1999

A saga dos espanhóis que cruzaram o Brasil há 140 anos e as fotos, agora descobertas

Vista do Rio


 
Eles chegaram à Bahia, em setembro de 1862, como a fina flor da ciência espanhola. Formavam um grupo de oito jovens cientistas enviados à América para estudar a fauna, a flora e os costumes locais. Três anos e meio depois, quando deu por encerrada a expedição, o grupo estava reduzido à metade. Ao longo do imenso percurso, um integrante morrera e três outros desistiram no meio do caminho. Enfrentaram uma guerra e muitas intrigas. Os quatro remanescentes estavam esfarrapados, sem dinheiro, abandonados pelo governo que os enviara. Naquele último ano haviam atravessado a pé, em mulas e em canoas a parte mais larga da América do Sul, na chamada "grande viagem". Foram 3.500 quilômetros de Guaiaquil, no Equador, a Belém, no Pará, lutando contra doenças, chuvas amazônicas, a fome. A expedição, batizada de Comissão Científica Destinada ao Pacífico, deixou um tesouro de documentos científicos e 500 fotografias - uma novidade para a época. Esquecido com o passar do tempo, esse legado agora volta à tona. Do pacote, fazem parte 51 fotos oferecidas ao imperador dom Pedro II e localizadas por VEJA numa sala-cofre da divisão de iconografia da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, registro importante dos primórdios da fotografia documental do país (veja quadro).

O resgate da aventura esquecida começou em 1995, quando foram encontradas 100 fotos inéditas da expedição na Biblioteca Geral de Humanidades do Conselho Superior de Investigações Científicas, CSIC, em Madri. São da coleção particular do zoólogo Marcos Jiménez de la Espada, o mais conhecido dos quatro naturalistas que concluíram a viagem. As expedições eram moda na época e o Brasil, um prato cheio de exotismo, lendas e mistério. Charles Darwin havia passado pelo país trinta anos antes dos espanhóis. A Comissão do Pacífico permaneceu cerca de seis meses no Brasil. Dom Pedro II recebeu a equipe em duas ocasiões no Rio. O imperador nutria uma curiosidade científica descomunal, boas relações com a rainha Isabel II da Espanha e cumulou os naturalistas de atenções. Eles retribuíram a mordomia com mimos, entre eles o álbum de fotos agora encontrado.

"Grande viagem"
Em Montevidéu, os oito naturalistas se dividiram. Metade partiu por terra para o Chile. Três deles embarcaram nas fragatas e o zoólogo Jiménez de la Espada, num veleiro, largado à própria sorte durante a tenebrosa travessia do Estreito de Magalhães. Em meados de 1863, os naturalistas estavam separados entre o Chile e o Peru. Durante um ano aconteceu de tudo: o presidente da expedição voltou para a Espanha. Quatro cientistas chegaram até San Francisco, nos Estados Unidos, onde morreu de icterícia o colega Fernando Amor. Enquanto isso, as relações com as ex-colônias se deterioraram. Em 1864, a Espanha abriu guerra contra o Chile e o Peru, e a esquadra que dava carona aos cientistas entrou na briga, bombardeando portos locais. Os pesquisadores receberam ordens de voltar para casa. Jiménez de la Espada, o botânico Juan Isern, o zoólogo Francisco de Paula Martínez y Sáez e o antropólogo Manuel Almagro desobedeceram, indo ao Equador para iniciar a "grande viagem".

Partiram de Guaiaquil, cruzando montanhas geladas, entrando em vulcões. Guiados por índios, carregavam em mulas centenas de quilos de material, inclusive esqueletos e animais vivos. Em agosto de 1865, depois de descer o Rio Napo em canoas e balsas de troncos de árvores, os quatro naturalistas chegaram ao Rio Amazonas. Estavam esgotados. Tabatinga, uma guarnição da fronteira brasileira, seria apenas a continuação do inferno. Passaram 28 dias de fome, até partir para Manaus. Vestiam farrapos, pareciam mendigos, cheios de piolhos, a barba enorme. Os quatro exploradores desembarcaram na Espanha com 80.000 objetos. Isern morreu dias depois, na mesma época em que o fotógrafo Castro y Ordóñez cometeu suicídio. As 51 fotos do álbum brasileiro são talvez a única lembrança que sobrou da epopéia no país.

Um presente de imperador
O álbum com as 51 fotografias do espanhol Rafael Castro y Ordóñez, doado a dom Pedro II em 1862 pela expedição espanhola, ficou disponível na Biblioteca Nacional durante mais de um século, mas passou incólume pelos pesquisadores. "Não há nenhuma menção a esse fotógrafo na bibliografia da fotografia brasileira do século XIX", diz o chefe da divisão de iconografia da Biblioteca Nacional, Joaquim Marçal Ferreira de Andrade. O professor Boris Kossoy, um dos principais historiadores da fotografia no Brasil, não se lembra de nenhum registro sobre o trabalho de Castro y Ordóñez. O álbum está na biblioteca desde 1892 e só foi tirado de circulação há dois anos, para evitar deterioração. A razão para ter permanecido escondido é que a própria expedição é praticamente ignorada por grande parte dos historiadores brasileiros. Os museus espanhóis têm cerca de 500 fotos da epopéia, várias do Brasil.

Das 51 fotos do álbum, três são de Madri, quatro de Cádiz, dez da Bahia, 33 do Rio de Janeiro e uma do comandante da esquadra. Pelo menos os registros baianos devem ter impressionado dom Pedro II, que conhecia a fotografia desde quase sua invenção, vinte anos antes, e mostrava grande interesse pelo assunto. Em 1862, com 37 anos, o imperador nunca havia estado na Bahia. No Rio, o retratista espanhol registrou um "exotismo" que se tornaria marca da cidade, a caótica ocupação habitacional. Existem várias fotos mostrando os famosos arcos do aqueduto da Lapa tomados por casebres. O álbum traz ainda fotos de uma pequena índia pataxó, portanto anterior ao trabalho do fotógrafo A. Frisch, de cerca de 1865, um dos primeiros registros de nativos brasileiros no país.

Foto abaixo à esquerda: Martínez, Isern, Jiménez e Almagro - inferno na Amazônia
Foto abaixo ao centro: arcos da Lapa - vãos habitados
Foto abaixo à direita: personagens baianos - Pedro II nunca havia visitado a Bahia