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27 de setembro de 2000

Pesquisa sobre os primeiros anos da fotografia no Brasil revela curiosidades saborosas

A princesa Isabel e o escritor Euclides da Cunha: realeza sem pompa e celebridade na selva

"Fazemos retratos de defuntos, no estabelecimento ou fora dele." Assim o daguerreotipista gaúcho Luiz Deschamps anunciou seus serviços num jornal de Porto Alegre, em 1867. A idéia, hoje, soa para lá de macabra. Mas no Brasil do século XIX a prática de conservar a imagem de um parente morto - e inclusive de levar seu corpo ao ateliê de um fotógrafo - não tinha nada de anormal.


 
Era apenas um dos muitos hábitos que a chegada da fotografia disseminou pelo país. Há quinze anos, o historiador paulista Boris Kossoy vem fazendo o inventário e a análise de tais comportamentos. O resultado desse longo estudo acaba de ser exposto como tese de livre-docência na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. A tese deve transformar-se em livro até o final deste ano, pelo Instituto Moreira Salles. O nome previsto para a obra é Dicionário de Fotógrafos e do Ofício Fotográfico no Brasil. Nela, o autor mostra dados interessantes. Para começo de conversa, Kossoy conseguiu identificar cerca de 850 fotógrafos que trabalharam no Brasil entre 1840 e 1910. O número é muito maior do que aquele contabilizado oficialmente. Espalhados pelos quatro cantos do território nacional, esses profissionais da câmara produziram um imenso acervo sobre a vida pública e privada dos brasileiros.

A primeira forma de captação de imagens chegou ao Brasil no final de 1839. Era a daguerreotipia, um processo revolucionário, mas rudimentar. Logo começaram a surgir estúdios no Rio de Janeiro, onde a corte se deslumbrou com a novidade. Toda residência elegante ostentava uma foto da família na sala. No começo, a brincadeira era muito cara. Um daguerreótipo era anunciado por 5.mil-réis, o equivalente a 28 quilos de bacalhau, uma iguaria de alto preço na época. Com acabamento melhor, a chapa podia sair por 30.mil-réis, uma pequena fortuna. Mas a maior distinção para um profissional era ser chamado ao Palácio Imperial. Dom Pedro II foi desde logo um entusiasta da fotografia. Outros membros de sua família foram retratados, e o formidável dessas imagens é que algumas mostram a realeza totalmente desprovida de pompa e circunstância. O alemão Otto Hees, por exemplo, capturou em 1889 uma princesa Isabel deselegante e feiosa - para dizer o mínimo.

Com o desenvolvimento de novas técnicas, a invenção ganhou o país. Uma das fotos mais célebres do escritor Euclides da Cunha, por exemplo, não foi feita em São Paulo ou no Rio, mas na Amazônia. Muitos fotógrafos tinham espírito de aventura. O americano Charles Fredricks é um caso exemplar. Em apenas cinco anos, entre 1846 e 1851, ele esteve no Pará, no Maranhão, em Pernambuco, na Bahia e novamente em Pernambuco. Viagens como essas eram difíceis de ser feitas, porque, além de transportar o equipamento em si, muito mais pesado do que os atuais, o profissional tinha de levar consigo chapas de vidro, produtos químicos e instrumentos para revelação. Boris Kossoy demonstra que as excursões em busca de trabalhos no interior eram mais comuns do que se imaginava. E os clientes correspondiam. Casamentos eram marcados para os dias em que o fotógrafo estaria na cidade. O mesmo acontecia com batizados e primeiras comunhões. A chegada de um fotógrafo a uma localidade era um fato comemorado pelos cidadãos. Para comunicar sua presença, os fotógrafos publicavam anúncios nos jornais. "Esses reclames também são um delicioso repositório de informação histórica", afirma Kossoy. Deles, e das lentes dos antigos profissionais da fotografia, surge uma imagem nítida e muito rica do Brasil de antigamente.


Retrato de duas meninas, depois da primeira comunhão: cenas da vida privada
Criança morta, fotografada no ateliê de Militão de Azevedo: essa imagem era comum no século XIX, e o serviço era anunciado nos jornais