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18 de novembro de 1998

Livro sobre Ação Integralista Brasileira revela o dia-a-dia do fascismo no país

Mobilização
As passeatas serviam para exibir a disciplina e força integralistas. Esta é a última marcha da AIB, em novembro de 1937, poucos dias antes da extinção, pelo Estado Novo, de todos os partidos políticos brasileiros. Plínio Salgado (foto), chefe nacional da AIB, acreditava que Getúlio Vargas era simpatizante da causa integralista. Não era. Depois do golpe, militantes foram perseguidos e Salgado partiu para o exílio em Portugal. Voltaria ao Brasil em 1945, para fundar o Partido de Representação Popular - mas, depois do holocausto, as idéias integralistas perderam interesse

A Ação Integralista Brasileira, AIB, é um capítulo pouco conhecido na História do país. Isso se deve, em parte, à sua brevíssima existência. Foram apenas cinco anos de atividade, desde que Plínio Salgado publicou o Manifesto de Outubro, em 1932, até sua extinção, junto com todos os demais partidos políticos, pelo Estado Novo de Getúlio Vargas.


O relativo esquecimento do integralismo também é resultado de sua identificação com o fascismo italiano e com o nazismo alemão. Depois da II Guerra Mundial, quando as atrocidades comandadas por Hitler e Mussolini se tornaram públicas, a AIB foi confinada aos porões da História. É de lá que foram recuperadas as pouco mais de 100 fotografias que compõem o livro Imagens do Sigma, editado pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, com publicação prevista para o final deste mês. As fotos, que faziam parte do arquivo do Departamento da Ordem Política e Social, Dops, revelam pela primeira vez a vida cotidiana do integralismo no Brasil.

Inspirados pelos seus congêneres europeus, os integralistas - também conhecidos como camisas-verdes, em razão do uniforme que usavam - eram anti-semitas e defendiam um Estado autoritário. Até hoje não se sabe, com exatidão, quantas pessoas se filiaram ao movimento. As estimativas variam de 100.000 a um milhão. O fato é que nas eleições de 1936 a AIB fez 3.000 vereadores, vinte prefeitos e quatro deputados estaduais. O livro Imagens do Sigma documenta tudo isso em fotos de marchas, reuniões e cenas do dia-a-dia. "A fotografia era fundamental para o integralismo, assim como para o fascismo e o nazismo, que viam nela uma maneira de se perpetuar", explica Ana Maria Mauad, coordenadora do Laboratório de História Oral e Iconografia da Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ).

Excluídos
"Cada integralista fazia uma interpretação particular do movimento", diz o sociólogo Marcos Chor Maio. Assim, mesmo com o racismo da AIB, negros eram incentivados a participar. Outros grupos excluídos da vida política, como mulheres e crianças, também eram atraídos. Há alguns aspectos espantosos nas imagens, como a participação maciça de mulheres no movimento. "Não deixa de ser surpreendente que a mulher tenha sido incorporada à militância, numa organização que tendia a vê-la como mera reprodutora", aponta o historiador paulista Roney Cytrynowicz. Embora não fizessem parte do comando nacional do partido, elas participavam das decisões regionais. E como explicar a presença considerável de negros na AIB, que tinha como um de seus principais líderes Gustavo Barroso, defensor da eugenia e repetidor das idéias racistas do nazi-fascismo? O que dizer ainda da adesão de intelectuais respeitáveis como Miguel Reale e Santiago Dantas?

Assistencialismo
A AIB foi o partido que inaugurou o assistencialismo como método de persuasão política. Em vez de dar dentaduras à população carente, construía ambulatórios, escolas e promovia distribuição de alimentos. É preciso entender o período para responder às perguntas. A polarização política da época opunha comunistas e integralistas. De um lado estava o internacionalismo vermelho. De outro, o nacionalismo verde. Ao comunismo aderiam principalmente operários, grande parte de imigrantes ou seus descendentes. Era uma classe razoavelmente organizada. À outra parte da população, desorganizada, o integralismo apareceu como alternativa pelo seu ideário moralista. Mais do que um partido político, representava um conjunto de códigos éticos e comportamentais, com disciplina rígida. Do batizado ao enterro, tudo deveria obedecer a um protocolo. A AIB também dava às mulheres e negros a chance de participar da vida política nacional.

Cerimônias
Como todo movimento fascista, o integralismo dizia buscar a formação de um novo homem, comprometido com Deus, com a pátria e com a família. Mesmo cerimônias religiosas, como casamento, enterro e batizado, seguiam as normas rígidas da AIB - no casamento, apenas a noiva podia dispensar o uniforme verde. O assistencialismo era um dos principais chamarizes do fascismo tupiniquim. A AIB construía escolas e ambulatórios, em que médicos devidamente fardados atendiam a população. Distribuía cestas de alimentos aos mais pobres. Tinha a simpatia de prelados da Igreja, como o arcebispo cearense dom Hélder Câmara, que estimulavam a entrada de católicos na AIB. A participação de jovens, os "plinianos", também era incentivada. "Essa é outra característica de movimentos fascistas, que usam a juventude como símbolo de força, de renovação", diz Cytrynowicz. Aos intelectuais, atraía a ênfase que o integralismo dava ao nacionalismo. O próprio grito de saudação, "anauê", significa "você é meu parente" em tupi-guarani. "O que nós queríamos era uma cultura nacional, em vez de idéias que chegavam ao Brasil de navio", lembra o jurista Miguel Reale, ex-membro do Conselho Supremo da AIB. "Foi com o susto do nazismo que revi minha posição, embora não a renegue. É preciso compreender aquele tempo." É exatamente o que essas fotos ajudam a fazer.