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15 de março de 2000

Exposição de arte erótica de Pompéia exibe aspecto menos conhecido do cotidiano da cidade ressurgida das cinzas

As ruínas de Pompéia, no sul da Itália, são famosas por terem se transformado numa espécie de cápsula do tempo. Localizada a 32 quilômetros do vulcão Vesúvio, a cidade foi varrida do mapa por uma monumental erupção em 24 de agosto do ano 79 depois de Cristo. Num espaço de poucas horas, o vulcão vomitou uma gigantesca nuvem de pedras e gases venenosos que matou 2 000 pessoas, 10% da população local, e cobriu as ruas com uma camada de 6 metros de cinzas. Quando os arqueólogos identificaram a cidade, em 1763, descobriu-se que a tragédia formara sobre Pompéia um escudo natural que congelou durante mais de um milênio imagens do cotidiano do Império Romano. Os corpos de muitos habitantes foram encontrados petrificados na posição em que morreram. Pinturas e afrescos se mantiveram com suas cores vívidas. Construções públicas, padarias, lojas e residências emergiram das escavações com as estruturas intactas. Tombada como patrimônio histórico da humanidade, Pompéia foi admirada primeiro por seu conjunto arquitetônico raro e belo. Com o tempo, transformou-se num campo de estudos para decifrar o cotidiano na Antiguidade. Nos últimos anos, pesquisadores têm-se dedicado a entender como os romanos viviam, do que se alimentavam, como se organizavam - e até como faziam sexo.

Uma das contribuições mais recentes para o entendimento dessa memória ocorrerá no próximo mês, no Museu Nacional de Arqueologia de Nápoles. O lugar irá expor pela primeira vez um conjunto de 250 pinturas e estátuas eróticas recolhidas dos escombros de Pompéia e outras três cidades vizinhas engolidas pela fúria do Vesúvio. O acervo estava guardado num local que foi batizado de "sala secreta", devido ao acesso restrito a estudiosos e por causa do conteúdo dos objetos ali armazenados. São peças com deuses, sátiros e ninfas protagonizando cenas apimentadas. Um conjunto de afrescos dessa coleção forma uma espécie de Kama Sutra romano, mostrando uma série de posições sexuais. O anúncio da exposição já provocou protestos do Vaticano, que classifica a obra de pornografia. "É uma bobagem, pois milhares de turistas vêem nas ruínas imagens muito semelhantes", disse a VEJA Andrew Wallace-Hadrill, que dirige a Escola Britânica de Roma. "Não interessa o que esses objetos significavam para os romanos; hoje eles são obscenos, e ponto final", vociferou um porta-voz da Santa Sé.

Não foram só os religiosos que interpretaram dessa forma os símbolos encontrados entre as ruínas. Diante do que era desenterrado em Pompéia, muitos estudiosos chegaram a classificar a cidade como um antro de luxúria e devassidão, uma espécie de Las Vegas do Império Romano. Reforçavam essa idéia as várias inscrições feitas no muro da cidade, com frases que poderiam estar na porta de qualquer banheiro da era moderna. Mais recentemente, esse tipo de teoria revelou-se simplista e precipitado. "Os romanos não faziam sexo com mais freqüência do que as pessoas das sociedades modernas", explica o arqueólogo Paulo Funari, da Universidade de Campinas. "Eles apenas atribuíam ao ato um caráter religioso e representavam tal idéia em sua arte." O acervo do Museu de Nápoles é uma demonstração dessa mentalidade. Para os romanos, o ato da reprodução era um momento mágico, sagrado. Uma das imagens mais cultuadas pelo povo dessa época era a do falo, que simbolizava as poderosas forças procriadoras da natureza. Tal figura podia ser encontrada entre os adornos de jóias (como um amuleto para proteger contra o mau-olhado), no meio de plantações (assegurando a "fecundidade" do campo) e em candeias colocadas junto ao leito dos casais (garantia dos bons fluidos adequados a uma noite de amor).

Muitas das pinturas eróticas do acervo do Museu de Nápoles ornamentavam as paredes dos 25 bordéis localizados entre os escombros de Pompéia. No caso, a decoração não tinha nenhum objetivo religioso: servia como sugestão e estímulo aos freqüentadores desses estabelecimentos. Os prostíbulos eram formados por uma série de quartos cuja mobília se resumia a apenas uma cama de pedra com um colchão em cima. Na entrada de cada um deles havia uma cortina, onde constavam o preço e a especialidade da prostituta. As profissionais - ou "lobas", como eram conhecidas na Antiguidade - aguardavam os clientes na porta vestidas com uma toga curta e uma rede fina de fios dourados cobrindo os seios. O programa de Pompéia tinha preços populares. Era o equivalente a duas taças de vinho barato nos bordéis ordinários. Nas boas casas freqüentadas pela elite romana, o serviço podia custar até quatro vezes mais.

A prostituição era encarada durante o Império Romano como um mal necessário. Para a sociedade da época, o fato de os jovens fogosos procurarem as lobas para se distrair garantia a virtude das damas. Na esmagadora maioria das vezes, a vida sexual das mulheres da elite se resumia à função de reprodutoras. Quando o poeta Ovídio publicou, no ano 2 a.C., a obra A Arte de Amar, suas idéias de que o sexo deveria contemplar o prazer mútuo foram consideradas subversivas. Mesmo enfrentando esse tipo de mentalidade, pode-se dizer que as romanas gozavam de muito maior prestígio no Império Romano do que suas companheiras de outras civilizações da mesma época. Diferentemente do que ocorria na Grécia, onde o sexo feminino vivia segregado, as romanas podiam participar de banquetes, ter propriedades e administrar pequenos comércios. Não tinham direito ao voto, mas participavam das campanhas apoiando candidatos.

Como berço da moderna civilização ocidental, as cidades romanas possuem muitos aspectos semelhantes às metrópoles atuais. Suas ruas, por exemplo, já tinham calçadas laterais para os pedestres. Elas desembocavam no Fórum, o centro administrativo, que invariavelmente tinha como vizinho um templo. Em Pompéia, havia quatro deles, para o culto dos deuses greco-romanos Apolo, Júpiter e Vênus - e outro dedicado à deusa egípcia Ísis. A próspera economia local tinha como carro-chefe a produção de vinho, lã e objetos de bronze. Esses produtos eram trocados por couro, âmbar e escravos. Metade da população era formada por crianças e a expectativa de vida girava em torno de 40 anos.

Além das termas e dos banhos públicos, os habitantes tinham outras opções de lazer. Os boêmios lotavam as tavernas, estabelecimentos que se prolongavam na rua através de um balcão. Lá, o cliente mais apressado podia tomar de pé um cálice de vinho, acompanhado de uma salsicha ou um doce quente. A maioria dos moradores freqüentava as três arenas da cidade. Na maior delas, com capacidade para 20 000 lugares, ocorriam as lutas de gladiadores, que gozavam de popularidade semelhante à dos astros do esporte de hoje em dia. Tinham direito até a uma espécie de torcida organizada. Numa luta ocorrida em 59 d.C. entre dois desses brutamontes, as hordas adversárias protagonizaram uma briga memorável. A bagunça provocou a interdição do estádio por dez anos.

Por uma ironia histórica, a tragédia do Vesúvio permitiu que as sociedades modernas tivessem contato com essa realidade (veja quadro abaixo). Os vários anos de escavação arqueológica das ruínas trouxeram à tona 20 000 metros quadrados de pinturas e 2 000 de mosaicos, espalhados por mais de 1 milhão de metros cúbicos de construção. Dois terços de uma área total de 66 hectares já foram escavados. Recentemente, o governo italiano deu o aval para que se prossiga a exploração do espaço restante. Uma das principais preocupações atuais é preservar as ruínas do desgaste provocado pelas intempéries naturais e das hordas de turistas vândalos, que chegam a fazer inscrições com caneta esferográfica nos muros da cidade. Por esse motivo, permite-se hoje o acesso a somente dezesseis dos 64 locais de visitação abertos ao público em 1950. As áreas fechadas são liberadas apenas a pesquisadores e a profissionais como o francês Stéphane Compoint, autor das fotos que ilustram esta reportagem. Cuidados como esse representam a tentativa de preservar por mais tempo as ruínas que estão levando ao entendimento de como os homens da Antiguidade se comportavam - inclusive na cama.

Fúria adormecida

A explosão do Vesúvio, responsável pelo soterramento de Pompéia, foi um espetáculo tão assustador que pôde ser observado de Roma, distante 200 quilômetros. Durante a erupção, o monte cuspiu uma montanha de fogo contendo pedras com 8 metros de diâmetro, que eram arremessadas a quilômetros de distância. Os que não foram esmagados sucumbiram respirando o gás letal expelido pelo ventre do vulcão. Mais recentemente, pesquisas realizadas na região descobriram formas de morte ainda mais cruéis. A análise de alguns corpos de pessoas encontrados nas praias das redondezas revelaram que elas agonizaram submetidas a um calor de quase 500 graus. Os cadáveres soterrados na cidade foram recobertos de cinzas molhadas. Com o tempo, as camadas ficaram sólidas, moldando-se perfeitamente ao formato dos corpos, registrando até a expressão facial dos habitantes em seus momentos derradeiros. Depois do processo de decomposição, restaram moldes ocos, cujas cavidades foram preenchidas com gesso líquido para formar as mais famosas imagens da cidade. "Era possível ouvir o lamento das mulheres, o choro das crianças, o grito dos homens. Alguns estavam tão aterrorizados que rezavam pela morte. Outros levantaram as mãos para os deuses e muitos desacreditaram da existência deles naquela noite interminável." Essa descrição perturbadora é o único relato existente sobre a tragédia. Foi deixado à posteridade pelo historiador Plínio, o Jovem, que assistiu à erupção a distância.

Com 1 220 metros de altura, o Vesúvio continua em atividade. Sua última erupção ocorreu em 1944, mas não provocou danos maiores. Os especialistas, porém, acreditam que nos próximos anos o vulcão pode acordar novamente, de forma muito mais violenta. Um dos fatores que estariam impedindo que isso ocorra é a presença de uma gigantesca rocha obstruindo a boca da cratera, como se fosse a rolha de uma garrafa de champanhe. Para tentar prevenir uma nova tragédia, o governo italiano toma alguns cuidados. A atividade da montanha é monitorada por sensores, e um plano lançado em meados da década de 90 prevê a remoção das 700 000 pessoas que moram nas áreas consideradas de risco. A retirada dos moradores seria possível num prazo de uma semana numa hipotética situação de emergência. Para os pesquisadores, pode ser tarde demais. Quando Pompéia foi destruída, a maioria das pessoas morreu nas primeiras doze horas depois do início da erupção.