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08 de dezembro de 1999

Alfabeto pode ter sido inventado no Egito

Sinais em Wadi el-Hol: antepassados de nossos A e B gravados na pedra

Conhecido como a terra das pirâmides e múmias, o Egito pode reivindicar um novo título: o de pátria do alfabeto. Um grupo de pesquisadores, liderado pelo arqueólogo americano John Darnell, do Instituto de Estudos Orientais da Universidade de Chicago, encontrou indícios de que a escrita alfabética surgiu dois ou três séculos antes do que se pensava, há 3.900 anos. Até a descoberta, acreditava-se que o alfabeto teria sido criado por um povo semita que vivia onde hoje ficam o Líbano, a Síria e a Palestina.


 
O código gravado nas rochas de Wadi el-Hol, um desfiladeiro próximo ao Vale dos Reis, por onde passava uma movimentadíssima estrada na Antiguidade, confirma o mesmo povo como o inventor da escrita alfabética, mas no próprio Egito. Os pesquisadores acreditam que os semitas pretendiam criar uma forma de escrita mais simples e democrática que os hieróglifos egípcios e os sinais cuneiformes dos sumérios, ambos pictóricos. Os dois códigos exigiam enorme destreza dos escribas e tinham um número restrito de leitores. "Um profissional dedicado à escrita tinha de estudar a vida inteira para conhecer todos os sinais pictóricos", explica Kyle McCarter, especialista da Universidade Johns Hopkins. "Um alfabeto como o dos semitas podia ser aprendido em poucas horas."

Ao todo foram localizados 350 caracteres em Wadi el-Hol. Boa parte deles era uma representação simplificada de hieróglifos que funcionava como letras. Entre eles, a equipe de Darnell acredita ter identificado os remotos antepassados de nossas letras A e B. Os sinais não são novos. Nos anos 30, arqueólogos já haviam esquadrinhado o local. Porém nunca tinham sido estudados como agora. A equipe de Darnell observou que alguns caracteres compõem textos inteiros em escrita cursiva. Nem tudo é legível, pois parte dos sinais está danificada pela ação do tempo ou de ladrões de relíquias. Darnell, um cientista excêntrico que se veste como Indiana Jones, levou seis anos estudando a região antes de revelar suas descobertas. Ainda falta muito para decifrar os caracteres, mas ele já desenvolveu uma teoria sobre sua criação. Darnell acredita que o alfabeto foi inventado para atender a necessidades práticas. Vivendo de uma atividade para a qual a escrita era fundamental, comerciantes e viajantes semitas tinham dificuldades para registrar seus negócios na complicada linguagem dos hieróglifos.

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A Invenção do Alfabeto

Acima, inscrições descobertas no vale de Wadi el-Hol, no Egito. Nelas é possível reconhecer alguns símbolos característicos dos alfabetos semitas primitivos, como a linha ondulada (letra mem) ou a cabeça (rosh) que deram origem às nossas letras m e r. A idade dessa escrita foi obtida pelos dados registrados em inscrições localizadas perto dali, entalhados em hieróglifos egípcios.

A extraordinária descoberta confirma uma teoria já aceita por grande parte dos pesquisadores: que os alfabetos utilizados para escrever os principais idiomas do mundo – não apenas o inglês, o francês e o espanhol, mas também o grego, o russo, o tibetano, o hebraico, o hindi, o árabe – tiveram uma única origem. Todavia, inclui dois elementos revolucionários que modificam profundamente a história do alfabeto, uma das mais importantes conquistas dos povos: leva para trás em pelo menos 200 anos a data de sua invenção e revela os nomes – ou ao menos a nacionalidade – de seus autores.

O caminho de terra batida, castigado por um sol implacável, infestado de escorpiões e cobras venenosas, é chamado em árabe de Wadi el-Hol, que pode ser traduzido por “despenhadeiro do terror”.

Nesse local corria, há 4 mil anos, um trajeto freqüentado por mercadores, pastores e soldados mercenários. Ao menos dois deles quiseram mostrar aos futuros viajantes que haviam passado por lá, e somaram à notícia uma evocação aos deuses para que os protegessem ao longo daquela estrada perigosa. No entanto, diferentemente de outros viajantes que haviam registrado preces parecidas sobre a delicada parede calcária daquele vale – utilizando os hieróglifos do complexo sistema de escrita egípcio –, nossos dois heróis entalharam seus grafites usando as letras do primeiro sistema alfabético de que se tem notícia.