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01 de setembro de 1999

Escavações na tumba das múmias revelam as glórias da vida e da morte no antigo Egito

Muito do que se sabe sobre o antigo Egito é resultado da obsessiva preocupação de seus habitantes com a vida após a morte. As pirâmides, túmulos de faraós importantes, preservaram para a posteridade artefatos, murais e múmias que ajudaram os cientistas a entender o passado. Os milhares de tumbas de pessoas comuns continham informações essenciais para entender a vida cotidiana em torno do Rio Nilo. Na semana passada, arqueólogos egípcios revelaram os primeiros detalhes de um dos mais fantásticos achados de todos os tempos, o cemitério construído há 2.000 anos no oásis de Bahariya, próximo à cidade de Bawiti, a 350 quilômetros do Cairo.


A enorme necrópole, exaustivamente escavada no último ano, foi descoberta literalmente por acaso, quando um asno fez ruir parte do teto de uma tumba, três anos atrás. O complexo é espetacular, com 6 quilômetros de extensão e 10.000 corpos sepultados. O mais fascinante é seus tesouros terem escapado aos saqueadores. Isso significa que se tem um conjunto de artefatos e múmias só comparável à descoberta da tumba do faraó Tutancâmon, em 1922, e da dos filhos de Ramsés II, ainda por ser escavada. "Nunca antes tal número de múmias foi encontrado num só lugar", diz Zahi Hawass, diretor das escavações em Bahariya e vice-ministro responsável pelas pirâmides de Giza. "O lugar está tão preservado que, quando entrei na primeira tumba, pude sentir o cheiro da resina usada na mumificação dos corpos."

O cemitério de Bahariya é testemunha de um período menos conhecido da longa história do Egito, em que o país esteve sob domínio do Império Romano. Nas quatro tumbas exploradas até agora, os arqueólogos encontraram 105 múmias de homens, mulheres e crianças. Há famílias inteiras sepultadas juntas. Surpreende a mistura de estilos do Egito romanizado. Em artigo escrito para a revista Archaeology publicada na semana passada, Hawass descreve a múmia de uma mulher cujo cabelo está arrumado em estilo claramente romano, "como se vê nas estátuas do período, mas a iconografia de sua máscara, pintada com divindades que protegem o falecido e ajudam em sua passagem para a vida além-túmulo, era puramente egípcia".

Um casal foi mumificado de forma que a mulher ficasse com o rosto voltado para o marido, num claro sinal de carinho. Os pesquisadores catalogaram as múmias em quatro categorias, de acordo com o tipo de sepultamento que receberam. No mais simples, o morto tinha apenas o corpo mumificado envolvido em linho e depositado numa tumba. Numa segunda classe, o cadáver era colocado dentro de um caixão, com o rosto do morto esculpido em cerâmica. O terceiro grupo era o das múmias que tinham enfeites e desenhos ligados aos deuses egípcios. Já o último era composto de múmias cobertas com uma fina camada de ouro. Ainda que os corpos datem dos séculos I e II depois de Cristo, os arqueólogos acreditam que o lugar começou a ser escavado no período em que Alexandre, o Grande, invadiu o Egito, em 322 a.C. No início da era cristã, Bawiti tinha 30.000 moradores, era um próspero centro produtor de vinho e ponto de passagem de caravanas. Os romanos formavam a elite, controlando o comércio e a administração pública. A prosperidade da região é facilmente percebida na riqueza que acompanhou os mortos à última morada.

Cleópatra

As múmias estão muito bem preservadas. Na avaliação dos arqueólogos, a grande quantidade de materiais valiosos e a riqueza dos adornos são um sinal de que os egípcios romanizados do oásis davam mais importância ao embelezamento dos sarcófagos do que à mumificação em si. A descoberta é também uma prova de que as práticas funerárias dos tempos dos faraós sobreviveram pelo menos até o século II. Os romanos conquistaram o Egito pouco depois do nascimento de Cristo. Nos três séculos anteriores, o país tinha sido governado por uma dinastia de origem grega, os Ptolomeu. O primeiro deles foi um general de Alexandre. O último, a célebre rainha Cleópatra, que teve um filho com Júlio César e foi amante de Marco Antônio. Entre os objetos encontrados junto às múmias, estavam moedas com a efígie de Cleópatra, além de estátuas, jóias e amuletos.

O que os arqueólogos estão desencavando é uma fonte inestimável de informações sobre o Egito greco-romano. A grande quantidade de múmias vai permitir estimar a demografia do período, incluindo a mortalidade infantil e a expectativa de vida. O exame dos corpos trará informações sobre a alimentação e as doenças. A arquitetura de Bahariya traz outras surpresas aos estudiosos. Sobretudo pelo sincretismo. Há um templo grego logo na entrada, mas o lugar é guardado por uma imagem de Anubis, um deus egípcio. Os arqueólogos esperam agora arrancar dos corpos mumificados detalhes ainda mais intrigantes dessa época. Querem, durante os próximos dez anos, esmiuçar seu código genético e descobrir exatamente quem eram, como viveram e do que morreram essas pessoas.