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08 de novembro de 2000

Que papelão! O arqueólogo mais famoso do Japão é pego enterrando peças para mais tarde "descobri-las"

Desde os tempos dos antigos gregos, a evolução da ciência anda junto com denúncias de fraude e picaretagens. Faz parte da natureza humana essa tendência de ajeitar dados, manipular um número ou forjar experimentos para que o resultado final seja mais espetacular do que seria se o rigor fosse respeitado. Tanto que alguns estudos de Ptolomeu, Galileu Galilei, Isaac Newton e até do monge Gregor Mendel, o pai da genética, são questionados, pela falta de, digamos, precisão. Esse é um lado da história. O outro são aquelas pesquisas deliberadamente construídas como fraude, em que tudo é falso, feito para tapear a boa-fé, e nas quais o cientista faz de tudo para ser reconhecido como gênio. Foi exatamente isso que aconteceu na semana passada quando o mais famoso arqueólogo do Japão foi apanhado em meio a uma armação vergonhosa para conquistar o título de descobridor dos mais antigos artefatos produzidos pelo homem naquele país.


Shinichi Fujimura, um pesquisador de 50 anos e pelo menos 180 grandes descobertas no currículo, admitiu ter enterrado 27 objetos de pedra num sítio arqueológico a 300 quilômetros de Tóquio para desenterrá-las algumas horas depois diante das câmaras de televisão como se fossem o mais antigo tesouro científico japonês, datado de pelo menos 600.000 anos. A armação teria passado despercebida se Fujimura não tivesse sido apanhado com a mão na lama por um fotógrafo do jornal Mainichi Shimbum, um dos principais do país. Ele foi flagrado no exato instante em que enterrava as pedras, poucas horas antes de anunciar a espetacular descoberta. Pressionado, Fujimura admitiu que, dos 65 objetos que descobriu este ano, 61 foram fraudados. "Eu estava desesperado para encontrar algo espetacular e ouvia vozes dizendo que devia fazer alguma coisa. Caí em tentação", disse ele.

Poucas vezes se viu tanta cara de pau no meio arqueológico, uma área notória em falsificações de todo tipo. É coisa parecida com um dos mais famosos embustes da história da ciência, conhecido pelo nome de homem de Piltdown. Em 1912, um geólogo amador chamado Charles Dawson anunciou, com um colega do Museu Britânico de História Natural, Arthur Woodward, ter encontrado na cidade inglesa de Piltdown um estranho crânio que seria do elo perdido entre os homens e os macacos. Tinha a caixa craniana grande como a de um homem, mas a mandíbula proeminente como a de um macaco. Os ossos exibidos por Dawson e Woodward foram saudados como a comprovação da teoria da evolução de Charles Darwin. Até 1953 se acreditou de fato que os restos eram de um remoto parente humano. Foi nessa época que um exame mais detalhado de datação paleontológica mostrou que o fóssil era uma mistura de crânio humano com mandíbula de orangotango. Tudo tratado com produtos químicos para apresentar o devido aspecto envelhecido.

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Encontrado o 'elo perdido' entre humanos e macacos

Hoje existem fartas evidências -- tanto genéticas como fósseis -- de que a humanidade guarda forte parentesco com seus primos primatas, sobretudo com os chimpanzés. A história evolutiva que nos leva ao ancestral comum entre os dois ainda está longe de ser totalmente desvendada. Mas, no início do século 20, os cientistas pensaram estar muito mais perto dela.

A culpa foi de Charles Dawson, um colecionador que apresentou em 1912, numa reunião da Sociedade Geológica de Londres, dados sobre a descoberta de um fóssil em Piltdown, uma vila obscura da Inglaterra. O "homem de Piltdown" tinha alguns traços que lembravam muito a anatomia humana moderna, mas outros pareciam mais simiescos.

Por mais de 40 anos, esse "elo perdido" ficou como um grande mistério da ciência, que não se encaixava com mais nada que havia sido encontrado antes ou depois. Até 1953, quando a verdade foi revelada: era um crânio de humano moderno, misturado a uma mandíbula de orangotango. O responsável pela fraude nunca foi identificado, e suspeitos há para todos os gostos: entre eles, o próprio Dawson, Pierre Teilhard de Chardin e Arthur Conan Doyle (sim, o criador de Sherlock Holmes!) Mas o maior mistério é mesmo como essa tosqueira óbvia se passou por fóssil legítimo ao olhar dos especialistas por quatro décadas...