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Fogueira das Vaidades
 
Fogueira das Vaidades

28 de março de 2001

Fóssil de 3,5 milhões de anos esquenta rixa entre os caçadores do elo perdido da evolução

Na paleontologia são comuns as teorias sobre rivalidades entre populações pré-históricas que terminaram em completa extinção de espécies e povos. Originário da África, o Homo sapiens teria aniquilado até o último homem de Neandertal, o primo abrutalhado que desapareceu da Europa há 30.000 anos. Coisa parecida ocorre entre os autores dessas teorias, os paleoantropólogos. Divididos em tribos rivais, cada uma delas dona do próprio feixe de ossos fossilizados, os cientistas não medem esforços para impor suas teses à comunidade científica e esmagar os rivais. Na semana passada, o anúncio da descoberta no Quênia do crânio de um hominídeo de 3,5 milhões de anos, pela inglesa Meave Leakey, pôs mais lenha na fogueira das vaidades acadêmicas. Trata-se de uma espécie até então desconhecida, batizada de Kenyanthropus platyops, que pode jogar para o galho seco da evolução o mais célebre de todos os fósseis, Lucy, uma fêmea que viveu no mesmo período.


 
Na paleontologia são comuns as teorias sobre rivalidades entre populações pré-históricas que terminaram em completa extinção de espécies e povos. Originário da África, o Homo sapiens teria aniquilado até o último homem de Neandertal, o primo abrutalhado que desapareceu da Europa há 30.000 anos. Coisa parecida ocorre entre os autores dessas teorias, os paleoantropólogos. Divididos em tribos rivais, cada uma delas dona do próprio feixe de ossos fossilizados, os cientistas não medem esforços para impor suas teses à comunidade científica e esmagar os rivais. Na semana passada, o anúncio da descoberta no Quênia do crânio de um hominídeo de 3,5 milhões de anos, pela inglesa Meave Leakey, pôs mais lenha na fogueira das vaidades acadêmicas. Trata-se de uma espécie até então desconhecida, batizada de Kenyanthropus platyops, que pode jogar para o galho seco da evolução o mais célebre de todos os fósseis, Lucy, uma fêmea que viveu no mesmo período. Com seu 1,10 metro de altura, 3,2 milhões de anos e braços mais compridos que as pernas, Lucy reinou durante um quarto de século como o mais antigo ancestral do homem moderno. A descoberta do Kenyanthropus mostra que outra espécie de hominídeo, como são chamados os ancestrais do homem, viveu na mesma época. Qual deles deve ser chamado de vovô?

A TRIBO DA LUCY
Em 1974, o americano Donald Johanson (foto) encontrou na Etiópia o esqueleto quase completo de um hominídeo. Até a descoberta da semana passada, esse fóssil, chamado de Lucy, foi aceito como o ancestral mais antigo do homem. Johanson fez dupla com Tim White, o cientista que inspirou o personagem Indiana Jones

Há duas correntes rivais no mundo da paleoantropologia. A primeira é formada pela família Leakey, cujo patriarca, Louis, foi responsável pelas descobertas que confirmaram a África como o berço da humanidade. Filho de missionários, nascido no Quênia em 1903, Louis deu origem a uma linhagem de grandes paleontólogos que inclui a mulher, Mary, o filho, Richard, e a nora, Meave. No Quênia eles são, além de cientistas, figuras influentes na política e no governo. Ex-administrador dos parques nacionais quenianos, Richard foi ministro, lidera um dos partidos mais influentes e já foi cotado para disputar a Presidência da República. A segunda corrente é liderada pelos americanos Tim White e Donald Johanson. Nos últimos trinta anos, Tim White participou da descoberta de quatro dos mais importantes hominídeos. Foi nele que o diretor Steven Spielberg se inspirou para criar o personagem Indiana Jones, vivido nas telas por Harrison Ford. Johanson, por sua vez, é o descobridor de Lucy, exemplar de um gênero oficialmente chamado de Australopithecus afarensis. Os Leakey nunca aceitaram a tese de que Lucy seria a bisavó dos seres humanos.

Com o crânio recém-descoberto, o clã Leakey pode agora anunciar uma nova árvore genealógica para a espécie humana, tentando destronar a dupla Johanson-White. "Esse exemplar é altamente fragmentado. Em breve se descobrirá que esse fóssil é mais uma variedade do Australopithecus afarensis que uma nova espécie ou gênero", desdenhou Tim White. O centro da disputa é o Vale do Grande Rift, que vai da Tanzânia à Etiópia, passando pelo Quênia. A região é o eldorado dos paleontólogos porque ali foram encontrados quase todos os fósseis mais importantes de hominídeos, inclusive Lucy. As escavações no Quênia e em parte da Tanzânia estão nas mãos dos Leakey. Ali, ninguém entra sem a autorização deles. Pesquisadores já foram presos porque tentaram ter acesso aos sítios de escavação sem passar pelo clã. Martin Pickford, paleontólogo inglês que em dezembro anunciou ter encontrado um fóssil de hominídeo de 6 milhões de anos, passou cinco dias na cadeia no ano passado por fazer escavações sem autorização no território controlado pelos Leakey.

A TRIBO DOS LEAKEY
Na década de 30, o casal Louis e Mary Leakey descobriu na África espécies ancestrais do homem que definiram a região como berço da civilização. Eles deram origem a uma família de grandes paleontólogos. A nora do casal, Meave (foto), é autora da mais recente descoberta. Ela sustenta que, em vez de Lucy, foi seu Kenyanthropus platyops quem originou o homem. Seu marido, Richard, é o pesquisador que mais achou fósseis do gênero Homo. Ele é inimigo público de Johanson e já chamou Lucy de "bastarda"

Não é à toa que se odeiam. Antes da descoberta de Lucy, o ancestral mais antigo era um Homo habilis, de 2,6 milhões de anos, achado por Richard Leakey em 1972. "É apenas uma bastarda aberrante", declarou ele certa vez referindo-se a Lucy. Em 1981, Leakey e Johanson brigaram em público e ao vivo em rede nacional de televisão nos Estados Unidos. Durante um debate, irritado, Leakey pegou um lápis colorido e rabiscou um enorme X numa árvore genealógica da humanidade tendo Lucy como ancestral comum, desenhada por Johanson. Os dois nunca mais se falaram. Não é só uma guerra de poder no mundo da paleoantropologia. Os dois grupos lutam pela primazia de achar o chamado elo perdido, o ancestral comum não só dos seres humanos atuais mas também dos macacos, seus primos na linha evolucionária. Ao escolher o nome Kenyanthropus platyops, os Leakey querem estabelecer uma nova espécie na raiz do gênero Homo, relegando os australopitecos, como Lucy, a um ramo extinto da árvore genealógica. "O problema é que, com tantas novas descobertas de fósseis, a árvore humana virou uma moita", pondera o paleoantropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo e ex-aluno de Tim White. Com isso, qualquer pesquisador pode estabelecer as linhagens e desqualificar as espécies que quiser. Provavelmente o Kenyanthropus platyops reinará por algum tempo até que seja descoberto algo mais espetacular.




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Esqueleto de Lucy vai estar exposto em museus nos Estados Unidos
8 de agosto de 2007

O célebre esqueleto de australopiteco Lucy, descoberto na Etiópia em 1974, deixou Addis Abeba para ser exposto pela primeira vez fora do seu país, em museus norte-americanos, anunciou uma comissão responsável pela sua manutenção. “O fóssil saiu do país no domingo”, declarou à agência AFP Hapte-Sellasie Tafesse, membro da comissão de peritos.

O esqueleto de Lucy, que tem 3,2 milhões de anos e que foi descoberto em 1974 na região de Afar, deverá efetuar uma viagem de seis anos nos Estados Unidos. A Etiópia, que é considerada como sendo um dos berços da Humanidade, abriga numerosas ossadas que retraçam a história do Homem.

Este 'Australopithecus afarensis' deve o seu nome à música dos Beatles "Lucy in the sky with diamonds", que era ouvida pelos investigadores quando da sua descoberta. Pouco tempo depois de ter sido descoberto, o esqueleto teve de ser transportado para os Estados Unidos, para serem efetuados estudos científicos, e depois regressou à Etiópia.