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28 de abril de 1999

Fóssil achado em Portugal revela que o neandertal cruzou e teve filhos com os seres humanos

O esqueleto de uma criança de 4 anos encontrado numa caverna ao norte de Lisboa embaralhou um dos capítulos mais intrigantes da Pré-História humana. Os ossos têm cerca de 25.000 anos e compõem um mosaico de características anatômicas. O queixo, os dentes e a bacia são muito semelhantes aos dos seres humanos atuais. A tíbia, o fêmur e os membros superiores, no entanto, são parecidos com os do homem de Neandertal, um ramo já extinto na árvore da evolução. A descoberta foi uma completa surpresa para os cientistas. Humanos e neandertais tiveram um ancestral comum e  dividiram  os  mesmos  habitats na  Europa e na  Ásia por cerca de


70000 anos. Até agora, no entanto, não havia uma única evidência de cruzamento genético entre eles. Há dois anos, uma pesquisa feita na Alemanha reforçou essa convicção ao comparar amostras de DNA humano com as de fósseis de neandertal. Por esse estudo, uma espécie não deixou traços genéticos na outra. O esqueleto encontrado em Portugal desmente essa teoria. "Agora temos uma prova de que humanos e neandertais se misturaram, cruzaram e produziram uma descendência", diz Erik Trinkaus, professor da Universidade de Washington e um dos maiores especialistas no assunto.

A descoberta de um fóssil é sempre uma nova peça no grande quebra-cabeça da evolução humana. Entre os ancestrais mais antigos estão os australopitecos, criaturas que, na aparência, lembravam os macacos, mas andavam eretas e tinham traços anatômicos típicos dos seres humanos (veja quadro). O degrau seguinte é o gênero Homo, cujas inovações incluíram a construção de ferramentas e o domínio do fogo - as duas grandes revoluções tecnológicas da Pré-História. O homem de Neandertal, cujo primeiro fóssil foi encontrado no Vale de Neander, na Alemanha, pertence a um ramo muito mais recente. Ele viveu entre 230.000 e 30.000 anos atrás e foi extinto na última Idade do Gelo. Pelo menos era isso que se imaginava até a descoberta anunciada na semana passada.

Os neandertais eram muito parecidos com o Homo sapiens, a espécie dos humanos modernos. Habitavam cavernas, construíam abrigos temporários, fabricavam ferramentas, dominavam o uso do fogo e enterravam seus mortos. Arqueólogos descobriram sepulturas que trazem indícios de rituais simples, como a colocação de flores junto ao cadáver. Aparentemente, comunicavam-se numa linguagem rudimentar. Tinham tronco e membros mais robustos que os humanos. O nariz e a arcada dentária mais proeminentes lhes davam um rosto de perfil angulado. O cérebro, quase do mesmo tamanho, ficava atrás da face, e não no topo da cabeça. Por essa razão, o crânio era abaulado na parte traseira. Essas diferenças anatômicas entre as duas espécies eram tão sutis que um museu da cidade alemã de Erkrath exibe a reconstituição de um neandertal devidamente barbeado e penteado, vestido com terno e gravata. Visto assim, ele parece uma versão mais atarracada do ator Arnold Schwarzenegger, com cerca de 1,60 metro de altura. Numa grande metrópole com razoável grau de diversidade étnica, passearia despercebido nas ruas, sem assustar ninguém.

Apesar da grande semelhança, humanos e neandertais sempre foram considerados ramos separados da evolução. Alguns cientistas acreditavam que a incompatibilidade genética entre eles seria tão grande que, se cruzassem, não poderiam ter filhos. O fóssil descoberto em Portugal sugere duas novas hipóteses. A primeira é de que neandertais e humanos se cruzaram, mas o resultado foi um desvio sem continuidade na história da evolução. Nesse caso, a descendência deles pode até ter se reproduzido por algum tempo, mas, como milhões de outras espécies, acabou se extinguindo. Teria sido, portanto, um experimento fracassado no laboratório da natureza. A segunda hipótese é de que esses cruzamentos foram tão ocasionais e produziram tão poucos descendentes que a herança genética se diluiu entre as populações humanas atuais. Isso explicaria por que os exames de DNA não revelam parentesco genético significativo entre as duas espécies. "As características anatômicas dos neandertais se perderam no decorrer dos anos porque eram recessivas", acredita o arqueólogo João Zilhão, do Instituto Português de Arqueologia, de Lisboa, um dos descobridores do novo fóssil. Se essa hipótese for verdadeira, mesmo que os neandertais tenham desaparecido da face da terra, uma ínfima porção de sua memória genética sobreviveu entre nós.

O predomínio dos humanos sobre os neandertais se deveu a uma dramática mudança no clima ocorrida cerca de 30.000 anos atrás. Com duração de 20.000 anos, um período relativamente curto em escala geológica, a última era glacial teria favorecido uma espécie em detrimento da outra. Mais evoluídos, os primeiros homens modernos levaram vantagens na disputa por alimentos. É curioso observar que, nesse caso, a evolução não favoreceu o mais forte, e sim o mais habilitado a se adaptar ao novo ambiente. Até então, a história tinha sido bem diferente. Exímio caçador, mais forte e robusto, o homem de Neandertal competia em condições vantajosas com os humanos na disputa por territórios e alimentos. Aparentemente, essa vantagem física não o levou a desenvolver estratégias de sobrevivência para enfrentar tempos mais difíceis.

O novo membro da família

A linhagem dos seres humanos ganhou um novo membro na semana passada. É um ancestral que viveu há cerca de 2,5 milhões de anos no norte da África. Batizado de Australopithecus garhi, ele compõe um elo inteiramente novo na cadeia evolutiva da espécie. A grande diferença, em relação aos outros ancestrais até então conhecidos, é sua capacidade de usar ferramentas para matar e destrinchar animais. A dieta à base de carne, mais rica em proteínas e gorduras, pode ter resultado num salto evolutivo considerável, que deu a esse ancestral novas habilidades e um cérebro maior e mais poderoso. Seus restos foram encontrados entre os fósseis de oito hominídeos por uma equipe internacional de pesquisadores no Deserto de Afar, no nordeste da Etiópia. Os achados mais valiosos incluem o crânio, fragmentos de dentes e alguns instrumentos de pedra.

Os cientistas acreditam que o novo hominídeo seja uma ligação vital entre o Australopithecus afarensis, que viveu na África há mais de 3 milhões de anos, e os Homo habilis e erectus, dois ancestrais mais recentes. O afarensis é a espécie a que pertencia Lucy, o mais famoso dos antepassados da humanidade. Essas criaturas já andavam eretas, mas ainda tinham os braços longos e as pernas curtas, como os macacos, e nenhuma tecnologia. O gênero Homo só apareceu muito mais tarde, há cerca de 2 milhões de anos. O que aconteceu nesse intervalo de 1 milhão de anos é cercado de mistério. Mudanças climáticas estavam acabando com as florestas onde viviam os homens macacos, forçando sua evolução para seres adaptados à vida nas savanas. Os hominídeos bípedes tiveram de ocupar um ambiente de campos abertos, enfrentando grandes predadores como hienas e tigres.

Acredita-se que essa forte pressão seletiva acelerou o passo da evolução na direção de espécies mais parecidas com o Homo sapiens atual. "Você entra nesse período com chimpanzés bípedes e sai com hominídeos carnívoros de cérebro desenvolvido", diz Tim White, da Universidade da Califórnia em Berkeley, antropólogo que liderou a equipe de quarenta pesquisadores envolvidos na descoberta anunciada na semana passada. O Australopithecus garhi pode ser, portanto, a peça que faltava na transição mais importante da história da espécie. Os cientistas dizem que a chave para as transformações ocorridas nesse período são os instrumentos de pedra encontrados junto com os fósseis. Com eles, os hominídeos podiam não apenas destrinchar os animais e aproveitar toda a carne, mas também quebrar os ossos para sugar o tutano em seu interior - uma fonte preciosa de nutrientes até então inacessível.