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Canudos de Volta
Canudos de Volta

22 de setembro de 1999

Com a seca, o arraial do Conselheiro ressurge do fundo do açude onde repousava



Com as secas que se repetem, nos últimos anos, o açude chegou ao nível mais baixo de sua história. De sua capacidade de 245 milhões de metros cúbicos de água, restam 10 milhões - menos de 5%. A área onde ficava Canudos secou ompletamente. As ruínas do arraial, palco de um dos episódios mais delirantes e trágicos da História do Brasil, voltaram à tona.

Não é muito o que sobrou da Canudos do Conselheiro: duas igrejas, um cruzeiro. Ou melhor, as ruínas das ruínas de duas igrejas e, em melhor estado, o cruzeiro. Não é muito em termos materiais, mas é muito em peso histórico. As duas igrejas, mais o cruzeiro, constituíam o que era chamado de a "praça" de Canudos - não só o lugar onde o povo se reunia para rezar e ouvir as prédicas do amado e santo líder, mas também o cenário dos lances mais dramáticos da guerra. A praça era na verdade quase tudo. O resto do arraial, tirante algumas poucas casas mais bem construídas, limitava-se a uma sucessão de barracos, mais precários que os de uma favela de hoje. Canudos, para usar a expressão de Euclides da Cunha, em Os Sertões, era "a Tróia de taipa".

Durante vinte dias, até o último dia 11, uma equipe de arqueólogos esteve trabalhando nas ruínas. A seca, a que geralmente se associam a penúria e o sofrimento do Nordeste, pelo menos algo de bom trouxe, desta vez, ao fazer ressurgir o arraial. Era preciso aproveitar a oportunidade, e rápido, antes que voltasse a chover. Os arqueólogos, além de desencavar ossadas, cartuchos de balas e estilhaços de granada, fizeram o que chamam de "evidenciar" as ruínas dos três monumentos da praça, qual seja: tirar o lodo que os recobria, livrá-los tanto quanto possível do entulho e escavar ao redor deles, de modo a delimitá-los e fazê-los ressaltar do solo.

O resultado é um conjunto que chega a ser emocionante. "É a Teotihuacan sertaneja", diz o arqueólogo Paulo Zanettini, um dos coordenadores - a outra é a professora Erika Robrham-González, ambos de São Paulo - da equipe que pesquisou o local. O paralelo com as ruínas do México se justifica pela ordem geométrica em que as duas igrejas se dispõem, uma de face para a outra, a amplidão da praça entre elas, longa, de 100 metros, contados entre uma fachada e outra, e pelo caráter sagrado de que um dia o local se revestiu. Se não temos no Brasil templos nem pirâmides como os dos astecas, temos um arraial com um passado de fé e morte, esperança e terror, que ressurge das águas.

25 igrejas
O município que hoje tem o nome de Canudos fica a 10 quilômetros de distância. É o local para onde foram transferidas as populações das áreas inundadas pelo açude. Na Canudos velha, a que agora emergiu das águas, ambas as igrejas foram construídas por Antônio Conselheiro. Ele era obcecado pela construção, ou reparo, de igrejas e cemitérios. O pai era pedreiro e Antônio Vicente Mendes Maciel - este seu nome civil - possuía noções de construção. Também contava com mestres-de-obras para ajudá-lo nesse mister. No começo da carreira de pregador e guia espiritual, ele estabeleceu como meta construir 25 igrejas no sertão.

Construiu talvez nem tantas, mas muitas, algumas das quais subsistem, como as dos municípios de Crisópolis e Chorrochó, ambos na Bahia. Antes de se fixar em Canudos, sua vida era perambular pelo sertão. Nunca ficava muito tempo num lugar. Ia pelas estradas, o cajado na mão, seguido por um séquito crescente de fiéis. Oferecia-se para fazer uma igreja aqui, um cemitério ali. Entre os fiéis, não faltavam voluntários para carregar pedras e erguer paredes.

A primeira das duas igrejas de Canudos foi iniciada numa dessas passagens do Conselheiro. Ele ainda não se decidira a ficar por lá. É a igreja de Santo Antônio, também conhecida como igreja velha. Em frente a ela, como é costume no interior, edificou-se um cruzeiro - um pedestal encimado por uma cruz. Nesse pedestal, conservado quase intato, havia uma placa onde se lia: "Edificada em 1893. A.M.M.C". Por "A.M.M.C.", entenda-se: "Antônio Mendes Maciel Conselheiro". Tanto essa placa como a cruz de madeira que encimava o pedestal ainda existem. Foram tiradas do local às vésperas da inundação e hoje estão guardadas num memorial da guerra na Canudos nova.

Nesse mesmo ano de 1893 em que a igreja de Santo Antônio ficou pronta, Antônio Conselheiro, depois de pelo menos vinte anos de peregrinações, resolveu fixar-se, com seus seguidores, em Canudos. Sua fama crescia. Os adeptos se multiplicavam e afluíam para o arraial. Logo a igreja ficou pequena, e ele começou a construção de outra. Surgia então a igreja dita "nova", a do Bom Jesus, que na realidade jamais seria terminada, mas que, como a outra, teria um papel importante na guerra.

Sem cabeça
Nas igrejas, concentrou-se a resistência dos conselheiristas, em particular nos últimos dias de combate. Os canhões do governo bombardeavam seguidamente suas torres. Em contrapartida, encarapitada nelas, a jagunçada respondia com o que ainda lhe restava de fogo. Quando enfim despencou o campanário da igreja velha, veio junto, "revoluteando, estridulamente badalando, como se ainda vibrasse um alarma" - nas palavras de Euclides da Cunha - "o velho sino que chamava ao descer das tardes os combatentes para as rezas". Extinto o último foco de resistência do arraial, as igrejas apresentavam-se furadas de balas e canhonaços e com raras paredes de pé. Não contentes, os militares ainda assim as dinamitaram, para que não sobrasse resquício físico do arraial, não sobrasse pedra que pudesse virar centro de peregrinação. E no entanto...

No entanto, eis o fortim dos irredentos do sertão, o ponto de reunião de jagunços e beatos, de volta. As pesquisas arqueológicas das últimas semanas incluíam, entre seus objetivos, achar o local onde está enterrado o Conselheiro. Ele morreu, de morte natural, treze dias antes do fim da guerra, e foi enterrado próximo ao altar existente no "santuário", como era chamada a casinha onde morava. Onde ficava o "santuário"? Segundo alguns, junto à igreja nova. Segundo outros, junto à velha. Ainda não foi desta vez que foi encontrado, mas o historiador Renato Ferraz, um especialista na Guerra de Canudos, que serviu de consultor histórico para os arqueólogos, garante: "Nós ainda vamos achar. Se tivermos outras oportunidades, não há dúvida de que vamos achar". O problema é que a verba de 66.000 reais do governo da Bahia só deu para uma pesquisa sumária, de não mais que vinte dias de duração. Ao cabo deles, os trabalhos tiveram de ser interrompidos.

Não será difícil encontrar os restos do Conselheiro, em primeiro lugar, porque a área a ser pesquisada é restrita. Em segundo, porque uma tétrica particularidade ajudará a identificá-los: a falta da cabeça. Quando o Exército entrou em Canudos, desenterrou o cadáver e decepou-o. A cabeça foi em seguida levada em peregrinação, para exemplo das gentes, como se faria anos depois com Lampião, e enfim guardada em Salvador, no Museu Nina Rodrigues. Em 1905 ocorreu um incêndio no museu, e a tenebrosa relíquia foi devorada pelas chamas.

As pesquisas das últimas semanas se estenderam também ao chamado "Vale da Morte", local onde, sobre os morros - portanto, fora da área alagada pelo açude -, o Exército enterrava seus mortos. O melhor achado foi um esqueleto inteirinho, de um soldado sepultado na posição em que provavelmente morreu, o rosto voltado para o chão, os braços dobrados. A arqueóloga Erika Robrham-González, comandante da equipe que vasculhou o Vale da Morte, desmontou em seguida o esqueleto e o levou para exames no Museu de Arqueologia da Universidade de São Paulo.

E agora, que será da Canudos emersa das águas? Começando a chover, voltará para o fundo do açude. Será uma pena, mas, mesmo que fosse tecnicamente possível manter seco o local, a água é mais importante, para os sertanejos, do que uma relíquia histórica. Há outra hipótese, pior: a dilapidação da praça do arraial por parte de turistas e aproveitadores que, antes que voltem as águas, se lancem a uma corrida por suvenires. Não é de hoje que funciona, na região, uma pequena indústria de lembranças da guerra. E para proteger as ruínas da praça, depois que os arqueólogos foram embora, ficou apenas um guarda, um único, solitário e mal equipado guarda. "Tenho medo do vandalismo", diz Luiz Paulo Neiva, diretor do Centro de Estudos Euclides da Cunha da Universidade Estadual da Bahia, organismo que tem a seu cargo a gestão do chamado Parque Estadual de Canudos, criado para resguardar os sítios da guerra. Foi Neiva quem contratou os arqueólogos e quem tem a responsabilidade última pelo projeto.

Para a arqueóloga Erika Robrham-González, caso não se crie uma estrutura para proteger o local, o melhor é que o açude volte logo a encher. "Pelo menos, as águas são uma proteção." Ao arqueólogo Paulo Zanettini ocorreu uma aposta: pedir o tombamento do local ao Patrimônio Histórico. O caminho é incerto. Sabe-se lá se é possível tombar algo que está no fundo de uma represa, sabe-se lá, sendo possível, que efeito prático resultaria disso, mas, enfim, algo poderia acontecer. Senão, resta confiar na fibra de um arraial que já foi bombardeado, depois afogado e no entanto insiste em ressurgir, e ressuscitar, e sobreviver.


A base do cruzeiro e mais ao fundo as ruínas da igreja velha. À direita, uma foto histórica, tirada do mesmo ângulo, mostra o local logo ao fim da guerra

Canudos insiste. O arraial de Antônio Conselheiro já foi destruído uma vez, ao fim da guerra de 102 anos atrás. Foi destruído uma segunda vez há trinta anos, quando da inauguração do açude de Cocorobó, um dos maiores do Nordeste, cujas águas, entre outras porções da vasta bacia entre montanhas em que consiste a região, engoliram o sítio onde estava erigido. E, no entanto, eis que ressurge.