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08 de abril de 1998

Pesquisadores descobrem ossos com inscrições de 3.500 anos na China

Foi anunciada na semana passada uma descoberta que pode lançar novas luzes sobre as origens da língua escrita. Arqueólogos chineses encontraram nas escavações de um antigo altar usado para sacrifícios, na província de Shandong, leste da China, dois pedaços de ossos de cordeiro onde foram esculpidos oito caracteres, considerados uma forma primitiva de chinês. Junto com os ossos, desenterraram-se 360 peças de cerâmica pertencentes à cultura yueshi, que viveu em Shandong 3.500 anos atrás. Os caracteres gravados nos ossos de Shandong não são a forma de escrita mais antiga do mundo.


Já foram encontrados mapas do mundo em alfabeto cuneiforme com 4.500 anos e vasos com hieroglifos egípcios da mesma idade. Sua importância está em fornecer pistas sobre o nascimento da única dessas três escritas milenares que continua sendo usada no mundo de hoje. Enquanto a escrita cuneiforme e os hieroglifos egípcios desapareceram do uso corrente com o passar do tempo, dando lugar a linguagens que desembocaram nos atuais alfabetos, o chinês continua sendo falado e escrito por um quinto da população mundial.

Velhos pedaços de esqueleto conservados no subsolo têm sido a fonte sobre a escrita chinesa mais pesquisada pelos arqueólogos. Na China antiga, os ossos de cordeiro eram usados por adivinhos e profetas para prever o futuro. Os ossos eram postos no fogo junto com cascos de tartaruga até se quebrarem. A partir das fissuras criadas pelo calor, os adivinhos previam chuvas, guerras e o destino do reino. Durante a dinastia Shang, que reinou na China por 650 anos a partir de 1751 a.C., os reis preocupados com o futuro mandavam os adivinhos esculpir suas previsões nos ossos semicarbonizados. Esse procedimento é o que forneceu aos arqueólogos os mais antigos exemplos da escrita chinesa. É um trabalho fascinante, mas nem sempre bem-sucedido. Dos 10.000 caracteres já encontrados em ossos de cordeiro na China, apenas 1.000 foram decifrados. Entre os oito caracteres esculpidos nos ossos desenterrados na semana passada - cerca de 200 anos mais antigos do que os já encontrados na China anteriormente -, dois já foram decifrados. Um deles é um "V" de cabeça para baixo, que foi identificado como o número 6. O outro é o símbolo chinês para a palavra "profecia".

A escrita é uma tecnologia relativamente recente para a humanidade. O primeiro ser humano já tinha há 50.000 anos sua formatação física atual, mas só há 5.000 começou a escrever. São dessa época os primeiros documentos escritos, encontrados na região do Iraque, onde ficava a antiga Mesopotâmia. As tentativas mais remotas que o homem fez de comunicar-se através de símbolos datam de 20.000 a.C. Eram desenhos de animais e figuras geométricas que possuíam significado literal. Por ser a língua mais antiga ainda em uso no planeta, a chinesa é a que melhor guarda as características de transição entre o desenho e a escrita moderna. São em achados como os ossos de Shandong que os estudiosos procuram entender como ocorreu a passagem dos antigos ideogramas para os códigos de linguagem contemporâneos.