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02 de junho de 1999

Caminhada refaz trajeto percorrido pelo padre Anchieta na costa capixaba

Para levar adiante sua missão de catequizar os índios, o padre José de Anchieta tornou-se um andarilho incansável. Duas vezes por mês, durante os dez últimos anos de vida, ele caminhava 100 quilômetros, da Aldeia de Reritiba, onde morava com índios tupiniquins, até a cidade de Vitória, onde exercia o cargo de diretor do colégio jesuíta São Tiago. Pelo trajeto, sempre à beira-mar, ergueu capelas, perfurou poços artesianos e escreveu seus ensinamentos sobre a areia. Quando morreu, em junho de 1597, aos 63 anos, seu corpo foi carregado por um cortejo de 3.000 índios. A história é fascinante, o personagem, quase um santo (é o mais forte candidato brasileiro à canonização pelo papa), e o cenário, repleto de belas paisagens e monumentos seculares. Tudo perfeito para transformar esse trecho da costa capixaba em atração turística de caráter místico.


Pensando nisso, a Associação Brasileira dos Amigos dos Passos de Anchieta trabalhou durante três anos na reconstituição histórica do trajeto. Neste final de semana, nos dias 3, 4 e 5, cerca de 1.500 andarilhos passarão pelos mesmos locais percorridos pelo beato.

Caminhadas que misturam História, misticismo e lugares bonitos fazem muito sucesso em outras partes do mundo. Santiago de Compostela atrai milhares de turistas todos os anos para a rota de 800 quilômetros entre a França e a cidade espanhola onde está o túmulo do apóstolo São Tiago. A primeira versão brasileira desse tipo de passeio foi realizada no ano passado, quando cerca de 500 pessoas trilharam os "passos de Anchieta". "Além de reviver a saga desse personagem do Brasil colonial, a idéia é criar a oportunidade para caminhadas reflexivas", diz Eustáquio Palhares, presidente da associação. "Vim porque acho instigante a história do beato", afirma o professor aposentado Elias Rodrigues, que fez uma parte da caminhada no final de semana retrasado. "Eu estava em busca de uma graça para minha filha, que teve um aneurisma, e acabei descobrindo o prazer de andar pela praia", conta a dona de casa Iracema Fabri da Silva. O caminho pode ser feito a pé, de bicicleta ou a cavalo. "Queremos dotar o percurso com uma infra-estrutura que permita a realização de várias caminhadas por ano", explica Lucas Izoton, um dos idealizadores do projeto.

Os andarilhos partem do antigo Colégio São Tiago, em Vitória, onde hoje fica o Palácio Anchieta, sede do governo capixaba. Um dos salões abriga o túmulo do padre e referências históricas sobre sua passagem pelo Estado. Para atravessar o canal que leva a Vila Velha, o padre usava uma piroga (canoa indígena). A turma da caminhada vai de lancha. A partir de Vila Velha, o trajeto é feito pelas praias, algumas delas inabitadas. A caminhada termina na antiga aldeia de Reritiba, hoje cidade de Anchieta, onde há uma igreja construída pelo missionário e a casa em que morou. Essa construção do século XVI abriga um museu com objetos indígenas e peças sacras.

O padre José de Anchieta, Jesuita, foi um dos primeiros missionários a virem para o Brasil. Nasceu em São Cristóvão da Laguna, pertencente a Espanha na ilha de Tenerife, em 1533, e morreu em Iriritiba (Atual Anchieta), no Espírito Santo, em 9 de julho de 1597. Contava vinte anos quando chegou ao Brasil, na comitiva de D. Duarte da Costa, segundo Governador Geral. Em 1554, ele formou o terceiro colégio regular do Brasil, onde, em 25 de janeiro, foi rezada a primeira missa. Como era o dia em que a Igreja celebra a conversão de S.Paulo, o lugar recebeu o nome do apóstolo. Construiu-se, junto ao colégio, um seminário de instrução. Havendo falta de professores, Anchieta tomou a si as aulas de Castelhano, Latim, Doutrina Cristã e Mais tarde, a língua brasílica.

Falava e escrevia o idioma tupi com rara facilidade, sobre o qual escreveu uma obra. Graças a esse conhecimento serviu de intérprete junto aos Tamoios, que se encontravam em guerra contra os portugueses. Nessa ocasião compôs o seu poema dedicado à Virgem Maria. Trabalhou incansavelmente não só em Piratininga, como no Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Espírito Santo. Em 1567, ajudou Estácio de Sá na expulsão dos franceses do Rio de Janeiro. Para os indígenas, ele não representava apenas o socorro espiritual: cuidava-lhes também das enfermidades e ferimentos, valendo-se dos conhecimentos medicinais que trouxera da Europa, mais os que havia assimilado dos selvagens. Na sua catequese, serviu-se da poesia e do teatro com o que tornava mais suave a tarefa de aprender. Tornou-se, assim, o precursor da nossa literatura. Merecidamente foi cognominado de "Apóstolo do Brasil".