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O Tibete é Aqui
O Tibete é Aqui

14 de março de 1999

Com apelo pop e um líder boa-praça, o budismo tibetano tem platéia

Cristiane Torloni confere em Curitiba a mensagem do líder budista tibetano: "Prazer da vida, sem pecado e sem culpa"

Santo de casa não faz milagre, mas os de fora operam prodígios. Do presidente Fernando Henrique Cardoso à cantora Baby do Brasil (ex-Consuelo), do senador Antonio Carlos Magalhães até a atriz Maitê Proença, reverente a ponto de mimosear o visitante com um beijo nas mãos, um monge budista vindo do outro lado do planeta angariou na semana passada as simpatias de um diversificado espectro de admiradores.


Está certo que o monge é o dalai-lama, líder político e espiritual do Tibete, venerado por seus fiéis como uma das encarnações do próprio Buda. E que o dalai-lama é uma verdadeira fera das relações públicas, capaz de transformar uma causa melancolicamente perdida - a independência do Tibete, anexado pela China - e uma religião enigmática em bandeiras de estrelas de Hollywood, militantes pacifistas e amantes dos mistérios do Oriente.

O segredo do sucesso do dalai em plagas brasileiras, onde religiões tradicionais e seitas variadas disputam a unha novos fiéis, está na mensagem, docemente adaptada aos ouvidos ocidentais atormentados pela realidade da vida numa sociedade tecnológica e competitiva. Para sensibilidades previamente amaciadas pelos ventos místicos da chamada nova era, o pacote filosófico do budismo tibetano cai como uma luva. É a religião do pacifismo, da ecologia, do autoconhecimento. Nada muito diferente dos manuais de auto-ajuda que proliferam no mundo materialista. Como encanto adicional, ao contrário das outras vertentes do budismo, mais abstratas e inalcançáveis, oferece o charme da causa política sem nuances: a defesa dos espiritualizados tibetanos contra os malvados comunistas chineses. O dalai-lama faz jus ao que se espera de um prêmio Nobel da Paz e de um deus vivo. É uma figura sorridente, um monge de fala macia, confortável em seu manto cor de vinho e pés descalços. Vive exilado na Índia, de onde parte para turnês mundiais dignas de um popstar.

Lama gaúcho
Quando o dalai-lama veio ao país pela primeira vez, para a Eco 92, era apenas um simpático mas exótico visitante. De lá para cá, pipocaram centros de estudo do budismo tibetano país afora. A organização Chagdud Gonpa, por exemplo, ergueu centros em treze cidades, do interior do Rio Grande do Sul a Salvador. Até um mestre tibetano da gema, Chagdud Tulku Rinpoche, resolveu morar na serra gaúcha, onde construiu o primeiro templo sul-americano de arquitetura fiel ao modelo himalaio. Na cidade de São Paulo, o centro Odsal Ling tinha quinze freqüentadores em 1995, quando a lama (mestre) americana rebatizada com o instigante nome de Tsering Everest assumiu os ensinamentos. Hoje tem quatro vezes mais.

Com seu coquetel filosófico adaptável aos mais variados propósitos, o budismo tibetano concentrou seu proselitismo num público especialíssimo - figurinhas carimbadas do show business, o que potencializa seu marketing. Em Hollywood, seus mestres-de-cerimônias vão do bonitão Richard Gere ao brutamontes Steven Seagal. Em Curitiba, na semana passada, renderam homenagem ao dalai-lama Gilberto Gil, Rita Lee e Elba Ramalho, que cantaram de graça para o mestre. Gil endossa a popularização do budismo tibetano: "A vulgarização é a própria essência do proselitismo religioso. A Bíblia, por exemplo, diminui a essência de Cristo. Escreveu, materializou; saiu do espírito, chegou ao corpo. É melhor que seja assim, é mais democrático". Captou a mensagem? Bem, mais difícil ainda é entender os preceitos do budismo tibetano, vertente mística da religião, repleta de demônios e seres fantasmagóricos, que exige dos seguidores de fé uma vida inteira de orações, estudo de textos herméticos e renúncia ao mundo dos sentidos - incluindo-se aí o sexo -, considerado a porta de todo o sofrimento. Coisa, enfim, para iniciados, não gente como a atriz Christiane Torloni, uma das estrelas da platéia de cerca de 1.000 pessoas que suaram em bicas durante as palestras do mestre na Ópera de Arame. "O budismo fala do prazer da vida, sem pecado, sem culpa", acredita. Decana do esoterismo, a cantora Baby do Brasil deu uma força. "O dalai-lama é pop porque ele ama a paz. Woodstock já dizia isso", resumiu a ex-telúrica, ex-cósmica e andarilha da trilha de Santiago de Compostela.

Longe dos altos papos, o budismo tibetano, como qualquer outra religião, vem sendo experimentado no Brasil como solução para questões bastante prosaicas. "São muitos os que nos procuram com problemas com o marido ou a mulher, ou com conflitos no emprego", diz o lama Padma Samten, ex-professor de física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que foi viver de donativos num centro de estudos na cidade de Viamão, em torno do qual orbita uma centena de pessoas. Isso o dalai-lama não resolve. Bom de relações públicas, ele encontrou no Brasil, porém, um parceiro ideal para contornar o carma do qual nunca se livra: os protestos da China contra países que lhe abrem as portas. Pressionado pela Embaixada da China, país com o qual o Brasil mantém um comércio fértil, o Itamaraty recomendou ao presidente que não recebesse o santo monge. Fernando Henrique levitou sobre a constrangedora situação com seu apurado senso de marketing. Reuniu-se com o líder tibetano na casa do presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães. Proibiu fotos e câmaras, mas fez questão de que a imprensa soubesse do encontro com antecedência.



Baby do Brasil, a decana do esoterismo no show business:
"O dalai-lama é pop porque ele ama a paz. Woodstock já dizia isso"