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Primeiros Mártires
Primeiros Mártires

09 de dezembro de 1998

Católicos brasileiros assassinados por índios no século XVII serão beatificados

A primeira matança aconteceu em Cunhaú, uma das regiões mais prósperas da capitania do Rio Grande do Norte. Era domingo, dia de missa, e a capela estava lotada por cerca de setenta católicos. Assim que começou a celebração, um grupo de índios tapuias e potiguares invadiu a igreja e fechou todas as portas. Um a um, os portugueses foram retalhados por espadas afiadas. O padre André de Soveral, de 73 anos, que rezava a missa, foi atacado com uma adaga e feito em pedaços. Quatro meses depois, outro morticínio. Dessa vez na cidade vizinha de Uruaçu, às margens de um rio. Os índios ordenaram que católicos se despissem e ajoelhassem no chão. Foi uma chacina pavorosa. Um leigo, Mateus Moreira, teve o coração arrancado pelas costas. Durante a agonia da morte, teria gritado: "Louvado seja o santíssimo sacramento". Uma menina teve a cabeça quebrada e dividida em duas por um pedaço de madeira. Morreram oitenta pessoas. Segundo um relato da época, "os índios tiraram as entranhas, depois de cortar as cabeças, pernas e braços de suas vítimas. Às cabeças, arrancaram as partes que lhes dão a forma, como olhos, línguas, narizes e orelhas. Aos braços, as mãos.


Às mãos, os dedos. Horríveis deixou a crueldade aqueles corpos, tanto que nem mais tinham a forma de troncos". Os dois massacres aconteceram em 1645 e são páginas pouco conhecidas da História do Brasil. A partir do final do ano, podem-se tornar mais populares.

Nas próximas semanas, o papa João Paulo II deve beatificar uma leva de heróis da cristandade de vários países. "Tudo indica que os primeiros beatos mártires brasileiros sairão dessa fornada", diz o monsenhor Francisco de Assis Pereira, vigário-geral da Diocese de Natal e postulador das beatificações dos massacrados. A expectativa tem fundamento. Dom Geraldo Magela Agnelo, secretário da Congregação para o Culto Divino, do Vaticano, confirma que todas as etapas que conduzem à beatificação já foram vencidas. "O papa deve assinar o decreto entre o dia 17 e o dia 23 de dezembro."

São trinta pessoas, duas mortas em Cunhaú e 28 em Uruaçu. Delas, sabe-se apenas o nome e como morreram. Na falta de rostos conhecidos, os fiéis dos novos mártires terão de cultuar imagens do massacre. Três quadros que detalham as chacinas já estão prontos. Com 83% de sua população se dizendo católica, o Brasil tem apenas três beatos oficiais e nenhum santo. O padre José de Anchieta, a madre Paulina e o frei Galvão - o único brasileiro nato - receberam o reconhecimento da Igreja Católica porque levaram uma vida de virtudes e, diz-se, operaram milagres. Os três estão no degrau imediatamente anterior à canonização.

Os mortos do Rio Grande do Norte não fizeram nenhum milagre, ao que se saiba. Serão elevados à categoria de beatos porque o Vaticano está convencido de que preenchem os três requisitos para se tornar um mártir. Morreram defendendo a fé católica, foram supliciados e não reagiram. Num trabalho minucioso, monsenhor Assis incluiu os massacres na categoria da intolerância religiosa porque os massacrados eram católicos - um português, um francês, um espanhol e 27 brasileiros. Os algozes eram índios, instruídos e incentivados por holandeses calvinistas, que então disputavam o controle do Nordeste brasileiro. É uma faceta bem pouco conhecida da História.

O Brasil, acreditava-se, tinha pouca chance de ter seus mártires, por causa da decantada tradição de tolerância e sincretismo religiosos. As chacinas do Rio Grande do Norte revelam que nem sempre imperou a tolerância, no entanto. O grupo brasileiro de candidatos a mártires poderia ser cinco vezes maior. Estima-se que 150 pessoas tenham morrido nos massacres de Cunhaú e Uruaçu. Foram escolhidos apenas trinta, porque são os únicos cujo nome ou descrição da morte puderam ser apurados.

Ao contrário do processo de beatificação de frei Galvão, no qual os depoimentos de padres, parentes e amigos tiveram peso fundamental, no caso dos mártires foram levados em conta documentos, cartas e livros encontrados em universidades e bibliotecas do Nordeste, em Portugal e na Holanda. Mais do que detalhar a matança, o relatório montado com base nesse material mostra lances sensacionais da batalha que portugueses e holandeses travaram durante vinte anos por um naco do Nordeste brasileiro. De um lado estavam os Países Baixos, a maior potência econômica e militar do século XVII. Os Estados Unidos da época. De outro, Portugal, que acabara de se livrar de sessenta anos de domínio espanhol. Os dois países cresciam os olhos sobre o Nordeste em busca da riqueza gerada pela cana-de-açúcar. No meio, divididos, ficavam os índios. Como chegaram antes, os portugueses catequizaram, escravizaram, em alguns casos exterminaram, e misturaram genes com os silvícolas. Os holandeses, que aportaram para valer no Brasil 130 anos depois dos lusitanos, precisavam arregimentar colaboradores e investiram na cooptação de lideranças indígenas.

A tática foi a das boas relações. No Nordeste holandês, três índios chegaram a ser indicados como governadores de capitanias. Alguns deles foram enviados para estudar na Holanda. Em pouco tempo existiam índios calvinistas. Usavam arco e flecha, e não aquela sisuda vestimenta preta ornada com colarinho branco, vista em retratos renascentistas flamengos.

Os novos calvinistas de pele acobreada eram antropófagos - de novo o sincretismo atávico da nova terra. Comiam ritualmente adversários mortos em batalhas, porque acreditavam que a refeição lhes traria coragem e nobreza. Mas professavam a fé protestante exposta e defendida por Calvino no século anterior. Os massacres do Rio Grande do Norte foram promovidos por índios que mantinham estreitas relações com os Países Baixos. As duas chacinas foram comandadas por um mercenário alemão, Jacó Rabe, que trabalhava para o governo holandês e morava entre os tapuias havia quatro anos. O chefe potiguar Antônio Paraopaba, que deu a voz de comando para a matança à beira do Rio de Uruaçu, chegou a morar na Holanda.

A base do dossiê do postulador são relatos detalhados do massacre feitos por três historiadores portugueses. Um deles, frei Manuel Calado, foi o primeiro a descrever o período holandês no Brasil no livro O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade, escrito entre 1645 e 1646 e publicado em Portugal em 1648. Como participavam da resistência portuguesa contra o domínio holandês e eram politicamente engajados, os historiadores poderiam ser acusados de carregar nas tintas da chacina. Por isso, monsenhor Assis resolveu se precaver. Anexou ao dossiê documentos holandeses que descreveram e confirmaram o episódio, só que sem a mesma riqueza de detalhes. Como consenso entre os dois lados, pode-se afirmar que as mortes ocorreram, que as vítimas eram católicas, que não ofereceram resistência e que foram mortas por calvinistas. O que já é suficiente para a causa da beatificação. Entre as divergências estariam os motivos pelos quais os índios e holandeses teriam atacado os mártires.

Os portugueses na época, e o Vaticano hoje, apontam a intolerância religiosa como a causa principal. É uma explicação bem diferente daquela sugerida por uma simples troca de correspondência entre o índio potiguar Pedro Poti e seu primo, também índio, Felipe Camarão. Nela, Poti, aliado dos holandeses e provável participante do massacre, conta a Camarão, herói da resistência pelo lado português, por que a maioria da nação potiguar se tinha aliado aos flamengos. "Os holandeses vivem conosco como irmãos, sem nunca ter escravizado índio algum, ao contrário dos portugueses, que nunca trataram de outra coisa senão de nos escravizar. Sou cristão e melhor do que vós; creio só em Cristo, sem macular a religião com idolatria, como fazeis com a vossa." A idolatria a que se referia Poti era exatamente a que os católicos devotam a seus santos e beatos.

O dossiê dos mártires
O positio é o documento analisado pelo Vaticano para decidir sobre as causas dos candidatos à beatificação. Quem o escreve são os postuladores. No processo dos trinta mártires brasileiros foram consultados livros de mais de cinqüenta autores, arquivos de Roma, de Haia, na Holanda, o Arquivo Secreto do Vaticano e o da Torre do Tombo, em Lisboa. O postulador, monsenhor Francisco de Assis Pereira, fez doze viagens a Roma em dez anos. Também participou de um curso de seis meses na Congregação da Causa dos Santos, no Vaticano. Foram escritas 300 páginas, em italiano. O custo de todo o trabalho foi de cerca de 30.000 dólares.

Marcas apagadas
A Capela de Cunhaú, cenário do primeiro massacre, fica na cidade de Canguaretama. Durante anos, foi visitada por causa das manchas espalhadas pelas paredes. Os fiéis acreditavam que eram marcas do sangue das vítimas da chacina. Nos anos 80, a capela foi restaurada e pintada de branco. Foi como apagar o Santo Sudário. Atualmente, cerca de 100 pessoas vão à igreja todo domingo.