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22 de abril de 1998

Católicos e protestantes na Irlanda enfrentam com prudência os primeiros dias do acordo de paz

Para vizinhos divididos por rancores ancestrais, a diferença entre guerra e convivência pacífica pode repousar em pequenos gestos de boa vontade. Um exemplo singelo disso foi dado na semana passada por uma organização protestante que mudou o itinerário de uma marcha tradicional, evitando atravessar um bairro católico de Belfast, a capital da Irlanda do Norte. A temporada de marchas, que começa com a Páscoa e vai até setembro, é um período de turbulências e ranger de dentes, com cada comunidade religiosa aproveitando para reafirmar sua identidade.


Os protestantes evitaram a provocação anual porque a Irlanda do Norte vive o impacto do que parece ser, em sua própria escala, um dos milagres deste final de século, junto com o fim da Guerra Fria e a abolição do apartheid na África do Sul: a assinatura de um acordo de paz.

Negociado por quase dois anos pelos principais partidos católicos e protestantes com os governos da Inglaterra e da República da Irlanda, o documento tem o ambicioso objetivo de encerrar séculos de um antagonismo que ganhou fogo renovado nos últimos trinta anos, deixando 3.200 mortos nesse período. Não é tarefa simples numa região dividida entre suas comunidades apartadas por objetivos excludentes. Os protestantes, maioria de pouco mais de 50%, querem continuar a fazer parte do Reino Unido. Os católicos, que até hoje vêem os ingleses como invasores, lutam pela fusão com a República da Irlanda. O segredo para tirar um acordo a partir de posições tão diferentes foi um cuidadoso balanço de perdas e lucros para ambas as partes. Os protestantes, em princípio, saem ganhando, pois a Irlanda do Norte continua parte do Reino Unido. Os católicos aceitaram a impossibilidade, na prática, de conseguir seu objetivo maior, acatando a alternativa de um conselho com representantes do norte e do sul, cuja missão é promover a integração na ilha (veja os principais itens do acordo).

A rivalidade entre católicos e protestantes começou com a ocupação inglesa da Irlanda, cinco séculos atrás. Desde então, os católicos foram perseguidos, expulsos de suas terras, discriminados. Nas primeiras décadas deste século, revoltas sucessivas resultaram na divisão da ilha: os católicos conseguiram a independência da República da Irlanda, mas a região norte, onde os protestantes são maioria, continuou atrelada à Inglaterra. Os nacionalistas mais exaltados partiram para a luta armada, incluindo o terrorismo. Extremistas protestantes responderam à altura. A violência atormentou a Irlanda do Norte de tal forma que o acordo acabou apoiado por partidários dos métodos mais radicais. A população também está farta de sangue - pesquisas de opinião indicam que o acordo será aprovado no plebiscito marcado para o próximo mês.

Teste de fogo
O desafio é manter a trégua até lá. O acordo foi negociado pelo Sinn Fein, o braço político do Exército Republicano Irlandês, o IRA, a principal força armada católica, e pelos maiores partidos unionistas, como são chamados os protestantes fiéis à Inglaterra. Mas é preciso controlar os bolsões radicais, organizações menores que prometem uma onda de violência capaz de inviabilizar o plebiscito. O primeiro teste de fogo foi a libertação de nove prisioneiros do IRA na República da Irlanda. O grupo era composto de militantes pouco importantes, em final de pena. A prova real será soltar a barra-pesada, os terroristas condenados por crime de morte. Prudentes, os negociadores adiaram a libertação para daqui a dois anos. Já se saberá, então, se a paz veio para ficar.

Pontos principais do acordo de paz:
Eleição de uma assembléia com representação proporcional para administrar a Irlanda do Norte Criação de um conselho com representantes da República da Irlanda e da Irlanda do Norte Revisão das penas dos presos políticos Plebiscito sobre o acordo Desarmamento das milícias católicas e protestantes

A cidade de Belfast
Apesar de ser famosa por alguns sangrentos conflitos entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte, Belfast tem muitos outros atrativos que fazem esquecer essa parte da história da cidade. Há muitas opções de lazer e diversos pubs. Outra marca na história local é a construção do grande navio Titanic. Pontos turísticos: 1) City Hall: Sua construção de estilo renascentista clássico terminou em 1906 e se tornou o símbolo da cidade. 2) Belfast Castle: Construído em 1870 em uma das colinas da cidade, a Cavehill, o Belfast Castle é circundado por diversas trilhas possíveis de se fazer a pé de onde se tem uma vista privilegiada. 3) The Queens University: Com mais de 150 anos, é um marco arquitetônico entre as universidades locais.