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A Força Católica
A Força Católica

20 de outubro de 1999

Renovação Carismática reúne multidões e ajuda a atrair seminaristas para o clero

Seminarista Rafael: nova Igreja ajudou a despertar vocação


Maracanã lotado. Como não se via há quase uma década, 170.000 pessoas pulavam e cantavam no maior estádio do país. Não era um show de rock ou um clássico do futebol carioca. Da arquibancada, o povo gritava "Ahá, uhu, o Maraca é de Jesus" e "E, ô, ê, ô, Jesus Cristo é um terror". Era a celebração "Em nome do Pai", uma festa da Igreja Católica realizada na terça-feira passada, dia da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, promovida pela Renovação Carismática e pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB. Entre as atrações, padres cantores popularíssimos, como Marcelo Rossi e Zeca. Nem mesmo o papa João Paulo II, em visita à cidade no ano retrasado, conseguiu juntar tanta gente. A 260 quilômetros dali, em Aparecida, no Vale do Paraíba, outros 167.000 fiéis entupiam a basílica consagrada à padroeira para a tradicional missa anual. Poucas vezes, nos últimos anos, a fé católica deu provas de tamanho vigor.

Essas celebrações são apenas a manifestação mais visível de uma mudança que está acontecendo na Igreja Católica brasileira. Por várias décadas, os recenseamentos populacionais registraram que o país era simplesmente "católico apostólico romano". Continua sendo majoritariamente, mas os dados mostram que houve uma debandada de fiéis das paróquias. Em 1960, 93% da população se declarava católica. No último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, em 1991, esse número caiu para 83%. Nesse período, as igrejas evangélicas cresceram como nunca - justamente por ter atraído muitos católicos. A CNBB acredita que nesta década a sangria de fiéis foi controlada, mas os bispos ainda têm nas mãos estatísticas preocupantes. Por exemplo: apenas um em cada sete católicos declarados vai à missa regularmente. A novidade é que o rebanho católico está reagindo positivamente nos últimos anos, as igrejas estão mais cheias e os seminários começam a receber muito mais candidatos a padres do que antigamente.

Coube à Renovação Carismática, o mais festivo e barulhento movimento religioso católico, o papel de reunir esse disperso rebanho em torno do altar das igrejas. "Não basta só a paróquia. Não basta ficar sentado, esperando atingir as pessoas pelas missas. Daí a importância do que estou fazendo agora", afirma o padre Marcelo Rossi, a maior estrela desse movimento que está levando os católicos de volta à igreja. Nem que para isso seja preciso celebrar missas que se assemelham aos cultos das seitas evangélicas ou ter presença cativa nos meios de comunicação. O principal, no entanto, é que os carismáticos se dedicam mais ao lado espiritual dos fiéis - é o contraponto perfeito ao materialismo da Teologia da Libertação, que nos anos 60 e 70 fazia a defesa dos oprimidos por meio de um discurso politizado. Essa oratória acabou por afastar os católicos não só das missas como da própria religião.

Dados animadores

A mudança na Igreja gerou um fenômeno novo entre aqueles que são encarregados de mantê-la funcionando. O número de jovens que se dedicam ao sacerdócio tem crescido, afastando um antigo temor da cúpula católica: o envelhecimento do clero por falta de padres. Trata-se de um processo que começou timidamente nos anos 80. As duas décadas anteriores haviam sido desastrosas nessa tarefa. O número de seminaristas diocesanos chegou a apenas 3.000. Pelos números preliminares do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais, já são 7.893 neste ano (veja quadro). Até entre as mulheres, os dados são animadores. Há mais de 3.000 delas estudando para ser irmãs ou freiras no Brasil, três vezes mais que em 1974. "Queremos mais gente, mas é preciso também que venham para a Igreja como uma opção madura, para ajudar e servir", adverte o padre José Antônio de Oliveira, da área de Vocações e Ministérios da CNBB. Esse crescimento não deve ser creditado exclusivamente aos carismáticos, mas é na região onde eles atuam que fica mais claro o ressurgimento das vocações religiosas. Em São Paulo, na Diocese de Santo Amaro, onde fica o Santuário do Terço Bizantino, o número de seminaristas saltou de cinco para 115 em dez anos. A CNBB reconhece até mesmo que algumas dioceses estão com a capacidade de atendimento esgotada. A da Paraíba, por exemplo, foi obrigada a solicitar que outras regiões não enviassem jovens para lá.

A Igreja Católica só tem a lucrar com esse aumento de vocações. Para a antropóloga Regina Novaes, do Instituto de Estudos da Religião, apesar de haver o risco de que muitos jovens estejam abraçando a vocação porque foram influenciados pelos padres cantores, o catolicismo vai ser arejado pelos novos seminaristas. "É um sinal de vitalidade", avalia ela. "Vai tirar a Igreja do acomodamento e renovar o discurso religioso", explica. "Mesmo que esse aumento ocorra por influência dos padres da Renovação Carismática, isso não quer dizer que todos vão ser padres Marcelos."

É o caso do jovem carioca Rafael Morello Fernandes, de 22 anos, presente no Maracanã, na semana passada. Ele quer ser sacerdote, mas não sonha em seguir os passos do padre da TV. Filho de médicos bem-sucedidos, ele resolveu abdicar de confortos como o apartamento de cobertura da família na Barra da Tijuca, na Zona Sul do Rio, para se dedicar apenas a Deus. Hoje está no quinto ano do Seminário São José e tem certeza de que escolheu o caminho correto. "Em Deus, encontro minha realização plena", diz o jovem. "Não desmereço as conquistas materiais, mas tenho outras necessidades." Mesmo com sua missão ainda por começar, ele já comemora um grande feito. Conseguiu converter sua mãe, a ginecologista Lurdes Morello Fernandes, de 52 anos, à Renovação Carismática.