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O Brasil de Anchieta
O Brasil de Anchieta

Nos relatos sobre tudo "o que seja digno de admiração", Anchieta fala com pragmatismo das estranhezas do Brasil

As enchentes de São Paulo já eram famosas em meados do século XVI. "No inverno e no verão há grandes chuveiros, que servem para temperar os ardores do sol", escreveu José de Anchieta, relatando a situação climática na quase desconhecida "Piratininga, que fica no interior das terras, a 30 milhas do mar". Desde aquele tempo, era chuva que não acabava mais. "Na primavera, que principia em setembro, e no estio, que começa a vigorar em dezembro, as chuvas caem abundantemente, com grande tormenta de trovões e relâmpagos. Então, há não só enchentes de rios, como grandes inundações dos campos." Desde a chegada dos primeiros portugueses, esta terra estranha e ignota foi abundantemente descrita por europeus que aqui aportavam quanto mais estranha, a seus olhos, mais se sentiam compelidos a escrever sobre ela. Anchieta o fazia por vocação, dada a sua prolífica veia literária, e obediência. Na carta mais extensa sobre a terra, a fauna e a flora do Brasil, datada de 1560, ele atende a um pedido do padre-geral dos jesuítas para "escrevermos acerca do que seja digno de admiração ou desconhecido nessa parte do mundo".


Assunto é o que não faltava. A natureza do Novo Mundo era um assombro, com seus bichos exóticos, cobras formidáveis, insetos jamais vistos pelos europeus. Era para eles que Anchieta escrevia, daí o acento no exotismo, mas com a vantagem de uma convivência íntima, ditada pela sobrevivência no dia-a-dia. Quando fala nos animais, por exemplo, ele freqüentemente acrescenta detalhes pragmáticos as onças são "boas para se comerem", a carne de macaco faz bem aos doentes e a dos papagaios, embora também recomendada, em alguns casos provoca prisão de ventre. "A divisão das estações do ano é totalmente oposta à maneira por que aí se compreende; porque, quando lá é primavera, aqui é inverno, e vice-versa", explica Anchieta aos interlocutores d'além-mar. "Ambas, porém, são de tal modo temperadas, que não faltam no tempo de inverno os calores do sol para contrabalançar o rigor do frio, nem no estio, para tornar agradáveis os sentimentos, as brandas aragens e os úmidos chuveiros." Na fauna fluvial, o que mais merece atenção é "um certo peixe, a que chamamos boi marinho, os índios os denominam iguaraguâ, freqüente na capitania do Espírito Santo e em outras localidades para o Norte". Alimentam-se de ervas, amamentam os filhotes e "excedem o boi na corpulência".

Nada, porém, que se compare às sucuris. "Não é fácil acreditar-se na extraordinária corpulência destas cobras", acautela o padre, antevendo a incredulidade. "Engolem um veado inteiro e até animais maiores; isto tem sido observado por todos; alguns dos nossos irmãos o viram com espanto e até um deles, vendo uma serpente a nadar no rio, pensou que era um mastro de navio." Os jacarés, "lagartos que vivem do mesmo modo em rios, cobertos de escamas duríssimas e armados de agudíssimos dentes", também são enormes, "de modo que podem engolir um homem". Caçados a duras penas, "as suas carnes, que são boas de comer-se, cheiram a almíscar, maxime nos testículos, que é onde está a maior força do cheiro". Igualmente palatáveis, as herbívoras capivaras, "pouco diferentes dos porcos", têm temperamento mais brando: "domesticam-se e criam-se em casa como os cães".

"Há muitas lontras, que vivem nos rios; das suas peles, cujos pêlos são muito macios, fazem-se cintos. Há também outros animais quase do mesmo gênero, designados no entanto por nome diverso entre os índios e que têm idêntico uso", prossegue Anchieta, referindo-se provavelmente às ariranhas, protagonistas de um episódio singular. "Há pouco tempo tendo um índio atravessado com a flecha a um deles e saltando na água para apanhá-lo, apareceu uma multidão de outros que estavam debaixo d'água, acometeram-no com unhas e dentes de tal maneira que, trazendo com dificuldade o que havia morto, saiu quase em pedaços." Preciso na descrição dos animais e em suas denominações na língua indígena, que dominava, Anchieta explica razoavelmente bichos como o tamanduá ("tem o pescoço comprido e fino; cabeça pequena e mui desproporcionada ao tamanho do corpo; boca redonda: a língua distendida tem o comprimento de três palmos só na porção que pode sair fora da boca, a qual costuma, pondo-a para fora, estender nas covas das formigas, e logo que estas a enchem de todos os lados, ele a recolhe para dentro da boca, e esta é a sua refeição ordinária") e o chamado de aig pelos índios e pelos portugueses de preguiça "por causa da sua lentidão em mover-se". No caso da anta, atrapalha-se . "Há outro animal, bastante freqüente, próprio para se comer, chamado pelos índios tapiíra e pelos espanhóis antas; julgo que é o que em latim se chama alce", escreve ele.

A "grande cópia de moscas e mosquitos" azucrinava os europeus. "Uns têm o ferrão e as pernas compridas e sutilíssimas; furam a pele e chupam o sangue", diz Anchieta sobre os pernilongos. "Outros chamados mariguî, e que habitam à beira-mar, são uma praga terrível; são tão pequenos que mal os pode perceber com a vista; és mordido, e não vês quem te morde; sentes-te queimar e não há fogo em parte alguma; se te coças com as unhas, maior dor sentes." Mais intrigantes ainda são as taturanas, das quais há tipos que "são venenosos e provocam desejos libidinosos", atesta Anchieta, para encerrar com uma explanação horripilante: "Os índios costumam aplicá-los às partes genitais, que assim incitam para o prazer sensual; incham elas de tal modo que em três dias apodrecem, donde vem que muitas vezes o prepúcio se fura em diversos lugares, e algumas vezes o mesmo membro viril contrai uma corrupção incurável". Melhor breve contra a luxúria não poderia existir.

Dos macacos, "há uma infinita multidão". "Vivem sempre nos matos, saltando em bandos pelos cumes das árvores, onde se, por causa da pequenez do corpo, não podem passar desta árvore para aquela que é maior, o chefe da tropa, curvando um ramo, que ele segura com a cauda e com os pés, e segurando outro macaco com as mãos, dá caminho aos restantes, fazendo uma espécie de ponte, e assim passam com facilidade todos", conta Anchieta. Depois de dizer que as "fêmeas têm mamas como as mulheres; os filhos pequenos agarrados sempre às costas e ombros das mães, correm daqui para ali", ele deixa uma curiosidade no ar: "Contam-se deles cousas maravilhosas, que omito por incríveis". O padre não se furta, porém, a dar como verdadeiras as lendas indígenas, como a do curupira e a do boitatá. "É cousa sabida e pela boca de todos corre que há certos demônios, a que os brasis chamam curupiras, que acometem aos índios muitas vezes no mato, dão-lhes de açoites, machucam-nos e matam-nos. São testemunhas disto os nossos irmãos, que viram algumas vezes os mortos por eles", atesta Anchieta. Quanto ao baetatá, "o que seja isto, ainda não se sabe com certeza", mas a descrição é igualmente assustadora "não se vê outra cousa senão um facho cintilante correndo daqui para ali; acometem rapidamente os índios e mata-os, como os curupiras".

A explicação para tamanha credulidade por parte de um homem que, embora sem formação científica, em geral traça um retrato bastante preciso da fauna e da flora brasileira estava no próprio sistema de crenças do padre quinhentista: tudo era possível numa terra ainda não redimida pela palavra de Cristo. "Há também outros espectros do mesmo modo pavorosos, que não só assaltam os índios, como lhes causam danos", garante ele. "O que não admira, quando por estes e outros meios semelhantes, que longo fora enumerar, quer o demônio tornar-se formidável a estes brasis, que não conhecem a Deus, e exercer contra eles tão cruel tirania." Para essa gente, cuja redenção das garras da tirania demoníaca contribuiria para levá-la ao quase extermínio, Anchieta tem umas poucas palavras simpáticas: "Destes brasis direi, em último lugar, que quase nenhum se encontra entre eles afetado de deformidade alguma natural; acha-se raramente um cego, um surdo, um mudo ou um coxo, nenhum nascido fora do tempo". A ausência de anomalias era produto do infanticídio, prática comum entre os índios, como sabia o padre que, nesse caso, curiosamente não associa os dois fatos.

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Biografia

José de Anchieta nasceu em família rica, numa das sete ilhas Canárias, de onde avistava os navios que se abasteciam no porto de Tenerife para seguir rumo ao Oriente ou ao Novo Mundo. O pai era um nobre basco, e a mãe, uma judia conversa. Aos 14 anos, foi estudar em Coimbra (Portugal). Sentia a vocação religiosa e, em 1551, foi admitido como noviço no colégio jesuíta da Universidade de Coimbra. Em 1553, com 19 anos, foi convidado a vir para o Brasil como missionário, acompanhando Duarte da Costa, o segundo governador-geral nomeado pela Coroa. No comecinho de 1554, chegou a São Vicente, a primeira vila fundada no Brasil por Martim Afonso de Sousa. Lá, teve o primeiro contato com os índios.

No mesmo ano, junto com o jesuíta português Manuel da Nóbrega, subiu a serra do Mar até o planalto que os índios denominavam Piratininga, ao longo do rio Tietê. Os dois missionários estabeleceram um pequeno colégio, e, em 25 de janeiro de 1554, celebrou-se ali a primeira missa. Anchieta começou o trabalho de conversão, batismo e catequese. Para os índios, foi médico, sacerdote e educador: cuidava do corpo, da alma e da mente. Na catequese, usava o teatro e a poesia, tornando a aprendizagem um processo prazeroso. Ensinou latim aos índios, aprendeu tupi-guarani com eles e (seguindo a tradição missionária, que mandava assimilar e registrar os idiomas) escreveu a "Arte da Gramática da Língua Mais Falada na Costa do Brasil", publicada em Coimbra em 1595.

O colégio de São Paulo de Piratininga, como era chamado, logo expandiu seu núcleo. Mas, ao longo do litoral de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, as tribos formaram uma aliança (conhecida como Confederação dos Tamoios) que atacou São Paulo diversas vezes entre 1562 e 1564. Anchieta e Nóbrega tiveram um conflito com Duarte da Costa e decidiram iniciar as negociações de paz com os tamoios em Iperoig (hoje Ubatuba). Anchieta, falando tupi-guarani e viajando por toda aquela costa, foi crucial para ganhar a confiança dos índios, e, após muitos incidentes, estabeleceu-se a paz entre tamoios, tupinambás e portugueses. Nessa época, Anchieta escreveu o "Poema em Louvor à Virgem Maria", com 5.732 versos, alguns dos quais traçados nas areias das praias.

Em 1565, entrou com Estácio de Sá na baía de Guanabara, onde estabeleceram os fundamentos do que viria a ser a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Dali, Anchieta seguiu para Salvador, onde foi ordenado sacerdote. Por ocasião dessa viagem, novamente pisou em terras capixabas. Em 1567, voltou para o Rio e para São Vicente. Nessa última, permaneceu dez anos, quando foi nomeado provincial (supervisor) dos jesuítas no Brasil. Em 1585, fundou a aldeia de Guaraparim (hoje Guarapari), no Espírito Santo. Morreu aos 63 anos em Reritiba, atual Anchieta. Os índios levaram seu corpo numa viagem de 80 quilômetros até Vitória, onde foi sepultado. Anchieta, chamado o Apóstolo do Brasil, foi beatificado em 22 de junho de 1980 pelo papa João Paulo II.