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Abaixo os Santos
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01 de março de 2000

Expoentes do candomblé baiano não querem mais saber de sincretismo com os católicos

Lavagem da escadaria da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador: dentro, não



Baixou o espírito da antropologia nos terreiros de candomblé da Bahia. Os arautos da cultura negra agora batalham intensamente para que os orixás deixem de ser associados a santos católicos, sincretismo que remonta à época da colônia. Proibidos de realizar seus cultos, os escravos passaram a misturar símbolos da Igreja aos africanos, como forma de ludibriar seus senhores. A estratégia de sobrevivência entranhou-se de tal maneira na essência dos cultos que gerou uma religiosidade peculiar, afro-brasileira, na qual os orixás têm correspondência com os santos católicos. Uma correspondência, diga-se, totalmente arbitrária. Por exemplo: o orixá equivalente a São Jorge, o santo guerreiro, não é Ogum, a divindade da luta, e sim Oxóssi, bem mais pacífico, senhor das florestas e da caça. Ao lado dos estudiosos que defendem o purismo militam algumas das figuras mais influentes dos terreiros baianos, como Mãe Stella e Mestre Didi.

A revogação do sincretismo, acreditam eles, reforçará a visão de que o candomblé não é manifestação folclórica ou animista, mas uma religião como qualquer outra. O outro sentido dessa batalha é retaliar os ataques do clero baiano. Os padres partiram para a confrontação com o candomblé estimulados por dom Lucas Moreira Neves. Em 1998, na condição de cardeal-arcebispo de Salvador, dom Lucas afastou da cidade o bispo negro dom Gílio Felício, que gostava de usar batas africanas e se mostrava simpático demais com relação às tradições afro-brasileiras. Até um dos mais tradicionais ritos sincréticos do país não é mais tão sincrético assim. Antigamente a lavagem da Igreja do Nosso Senhor do Bonfim acontecia no seu interior, mas hoje só é permitida nas escadarias. "Da nossa parte, o anti-sincretismo é também uma questão política", confirma Mestre Didi, sumo sacerdote do culto aos ancestrais no candomblé.

Mãe Stella, mãe-de-santo do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, foi uma das primeiras a dar seu apoio ao anti-sincretismo. Ela afirma que o uso de imagens católicas no terreiro é profanação. "Sincretismo é resquício da escravatura", diz. "Não precisamos disso." A maior dificuldade dos que desejam um retorno às origens africanas é fazer com que a idéia chegue à massa dos adeptos. Isso porque no candomblé não existe comando central. Cada pai ou mãe-de-santo é papa em seu próprio terreiro - estima-se que haja 2.000 apenas em Salvador. Ou seja, diferentemente do que acontece na igreja católica, não é possível estabelecer uma lei que valha em todo lugar. O trabalho dos anti-sincretistas tem de ser de convencimento, quase de doutrinação. A tarefa é duplamente árdua porque a maioria dos donos de terreiro acha que interditar a correspondência entre orixás e santos católicos vai afugentar boa parte dos freqüentadores. Mesmo no terreiro de Mãe Stella há mães-de-santo que se declaram católicas e vão à missa. Os anti-sincretistas terão de bater muito atabaque para que as suas concepções vinguem. Se é que algum dia vingarão.

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A Igreja de Nosso Senhor do Bonfim foi construída por escravos, entre 1750 e 1754. O templo católico possui estilo colonial, paredes de taipa de pilão e piso de aroeira. A arquitetura colonial e a arte sacra são os atrativos para os turistas. Provavelmente a mais famosa igreja de Salvador, Bahia, sua construção é característica religiosa da segunda metade do século XVIII, embora a fachada tenha sido alterada no século XIX. Possui rica coleção de alfaias de prata e grande conjunto de ex-votos populares.

A Festa do Bonfim, realizada da segunda-feira, depois do dia de Reis (6 de janeiro) ao segundo domingo após o dia de Reis, faz parte da devoção sincrética ao Senhor do Bonfim (Oxalá) e costuma reunir cerca de 100 mil pessoas. Todos se vestem de branco, a cor do orixá, e percorrem 10 km em procissão, desde o largo da Conceição até o largo do Bonfim. O ponto alto da festa ocorre quando as escadarias da igreja são lavadas por cerca de 200 baianas vestidas a caráter que, de suas quartinhas - vasos que trazem aos ombros -, despejam água nas escadarias e no adro da igreja, ao som de palmas, toque de atabaque e cânticos de origem africana. Terminada a parte religiosa, a festa continua no largo do Bonfim, com batucadas, danças e barracas de bebidas e comidas típicas.