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Lixeira Celeste
Lixeira Celeste

01 de julho de 1998

Satélites e pedaços de foguete já congestionam órbita da Terra

Depois de ameaçar rios, mares e florestas, o desenvolvimento humano começa a causar problemas em outro lugar antes ecologicamente intocado: o espaço. Desde a subida do Sputnik, primeiro objeto enviado ao espaço, há quatro décadas, foram lançados 3.800 foguetes e 4.600 satélites. Desses, 500 estão hoje em funcionamento. O restante foi aposentado, descartado ou explodiu, dando origem a milhares de pequenos fragmentos que se transformaram em lixo espacial à deriva.


Atualmente giram em torno do planeta cerca de 10.000 restos de objetos artificiais, de satélites fora de atividade a fragmentos maiores que uma bola de bilhar, além de mais de 100.000 detritos com até 10 centímetros. Claro que ainda há muito espaço vazio na órbita da Terra. Pelo ritmo atual, contudo, o congestionamento celeste tende a piorar. Até 1999, mais 300 satélites serão colocados em órbita. Somente a Microsoft, que pretende criar uma rede de comunicação em torno da Terra para facilitar o tráfego de informações na Internet, tem o projeto de lançar mais de duas centenas de satélites até 2.003. Além de significar mais lixo no futuro, o aumento dos satélites em atividade torna cada vez maior o risco de colisões, que se estão transformando num problema real.

Na chamada baixa órbita, entre 200 e 2.000 quilômetros de altura, satélites meteorológicos e de telecomunicações se cruzam com detritos que viajam a 30.000 quilômetros por hora. Para ter uma idéia do estrago que o impacto com um desses fragmentos pode causar, uma esfera de alumínio com 1,2 milímetro de diâmetro viajando nessa velocidade produz o mesmo efeito que um tiro de espingarda calibre 22. Embora ainda não tenha causado nenhuma grande catástrofe, a lista de estragos provocados pelo lixo espacial é extensa. A estação russa Mir, que está sendo abandonada depois de doze anos em operação, caducou em parte por causa dos inúmeros impactos que danificaram principalmente seus painéis solares e radiadores. Em junho de 1996, o satélite de telecomunicações francês Cerise foi destruído por um pedaço de foguete lançado dez anos antes. Nem o telescópio Hubble escapou. Numa missão para reparos feita em 1993, astronautas encontraram um buraco de 2 centímetros em uma antena de comunicação produzido num choque com um fragmento metálico. Somente em reparos de janelas trincadas por pequenos detritos nos ônibus espaciais, a Nasa já queimou 5 milhões de dólares.

Para evitar um desastre mais sério, a agência espacial americana tem investido em pesquisas sobre o tamanho e a trajetória dos detritos espaciais. Boa parte do que se sabe hoje sobre isso é devido ao LDEF, um satélite do tamanho de um ônibus especialmente desenvolvido para recolher informações sobre impactos sofridos no espaço. Em seis anos, o LDEF recebeu 32.000 choques, metade causada por detritos artificiais. A outra metade por trombadas com microasteróides. Uma rede de satélites e telescópios ópticos monitora permanentemente cerca de 8.000 objetos que giram em torno da Terra, dos quais apenas 7% são satélites em operação. Quando um foguete ou ônibus decola, sua trajetória é confrontada com a de toda a quinquilharia astronáutica. Por pelo menos três vezes já foi necessário fazer curvas de última hora na rota dos ônibus espaciais para evitar trombadas de graves proporções. Ainda assim, astronautas e satélites continuam precisando contar com a sorte. Os radares ainda não são capazes de rastrear os objetos com menos de 10 centímetros de diâmetro.

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A colisão entre um satélite russo e outro americano em meados de fevereiro de 2009 reacendeu o debate sobre os riscos do acúmulo de lixo espacial para a humanidade. Desde o lançamento do Sputnik, o primeiro objeto a entrar em órbita, em 1957, a evolução tecnológica permitiu que naves, foguetes e outras centenas de satélites explorassem o espaço tranquilamente. Após perderem a utilidade, porém, esses objetos permaneceram no mesmo local e passaram do status de exploradores para o de poluidores espaciais. Atualmente, cerca de 17.000 destroços com mais de 10 centímetros giram em torno do Planeta Terra, provocando colisões e danificando naves. O lixo espacial é composto detritos de naves, combustíveis, satélites desativados, lascas de tinta, combustível, pedaços de mantas térmicas e foguetes, objetos metálicos e até mesmo ferramentas perdidas por astronautas durante as suas explorações espaciais.

Dia 22 de março de 2008, um estranho objeto, com um metro de diâmetro, caiu a cerca de 150 metros da sede de uma fazenda em Montividiu, interior de Goiás. Seria sobra de algum satélite ou foguete? Possivelmente um tanque de combustível? Essa não é a primeira vez que registramos a queda de lixo espacial em território brasileiro. Em 1995, por exemplo, fragmentos de um satélite chinês de comunicação caíram no interior de São Paulo, no município de Itapira. Em 1966, um tanque de combustível de um foguete Saturno, com um metro de diâmetro caiu na costa do Pará, sendo achado por pescadores. Nada tão “espetacular”, entretanto, quanto o ocorrido na madrugada de 11 de março de 1978, quando partes de um foguete soviético reentraram na atmosfera acima da cidade do Rio de Janeiro e caíram no Oceano Atlântico. Foi um belo espetáculo. Inúmeros fragmentos, entrando em ignição devido ao atrito com a atmosfera, brilharam intensamente, enquanto “cortavam o céu”. Mas se a reentrada tivesse acontecido alguns minutos depois teríamos uma tragédia, pois a queda seria na área urbana do Rio e não no oceano.