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A Fronteira Final
A Fronteira Final

14 de outubro de 1998

O telescópio espacial Hubble fotografa galáxias situadas nos limites do universo

As novas imagens do universo captadas pelo telescópio Hubble desafiam a compreensão humana. Apresentadas na semana passada, elas mostram as mais distantes galáxias já observadas da Terra. Estão situadas, literalmente, nos limites do universo. Pela teoria mais aceita atualmente, depois dessa fronteira nada existe. É o vazio mais absoluto e desconhecido, além do qual as leis da física não funcionam e a própria noção de espaço e a de tempo perdem o sentido. Para chegar até as lentes do Hubble, a luz dessas galáxias viajou 12 bilhões de anos. Isso significa que a imagem registrada pelo telescópio é uma fotografia de um passado muito distante. Quando a luz foi emitida, faltavam ainda cerca de 7 bilhões de anos para o surgimento do Sol e seus planetas.


O mais provável é que todas as galáxias que ali aparecem, incluindo seus bilhões e bilhões de estrelas, já tenham desaparecido ou se transformado em outras estruturas cósmicas, muito diferentes das que se observam na foto. "São as imagens mais profundas de galáxias que jamais obtivemos", disse o coordenador da pesquisa, o astrônomo Rodger Thompson, da Universidade do Arizona. "Mergulhamos no universo mais remoto", acrescentou Alan Dressler, astrônomo do Carnegie Observatories, de Pasadena, na Califórnia.

Os pontos luminosos, registrados pela primeira vez em 1995 pelo Hubble, são muito tênues. Para consegui-los, os cientistas apontaram pela primeira vez o telescópio para uma região aparentemente vazia do espaço. Em seguida, abriram suas lentes para uma longa exposição, que durou 36 horas. Obtiveram sinais luminosos fracos e passaram a trabalhar com lentes de infravermelho, capazes de enxergar através da poeira espacial que atrapalha a captura de imagens a tão longa distância. Aos poucos, as novas galáxias foram se tornando mais nítidas e parecidas com as já conhecidas, como nossa Via Láctea.

As novas imagens produziram grande entusiasmo entre os pesquisadores, embora sejam um problema para a ciência. A idade dessas galáxias é quase igual à do próprio universo, estimada em cerca de 13 bilhões de anos pelos astrofísicos. Até agora acreditava-se que, há 12 bilhões de anos, o cosmo era muito novo para ter estruturas tão complexas como as que aparecem nas fotos do Hubble. Por essas contas, a essa altura a matéria espalhada pela força do Big Bang, a explosão que originou o universo, não teria tido tempo suficiente para se agrupar em estrelas e galáxias. Uma possibilidade é que o cálculo de sua idade esteja errado. Nesse caso, será necessário rever tudo o que se sabe sobre ele até agora.

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A grande importância do Telescópio Espacial Hubble (nome dado em homenagem ao astrônomo norte-americano Edwin Powell Hubble que viveu de 1889 a 1953) está no fato de ele estar colocado no espaço, fora da atmosfera da Terra. A luz dos astros para chegar a ele não precisa passar por nossa atmosfera. Toda informação que obtemos de um astro está na luz que vem deles. A atmosfera sempre "some" com parte dessa informação e é por isso que os observatórios astronômicos profissionais sempre são construídos em locais bem altos. Mesmo assim um telescópio "de solo" somente conseguirá momentaneamente uma resolução de imagem superior a 1,0 segundo de arco, isso em condições atmosféricas extremamente adequadas à observação. Com essa resolução somos capazes de ver uma bola de futebol a 51,5 km de distância. A resolução do Hubble é cerca de 10 vezes melhor, ou seja, de 0,1 segundo de arco.

A "potência" de um telescópio está na quantidade de luz que ele pode receber instantaneamente de um objeto. Quanto maior o diâmetro de um telescópio, maior a sua "potência". O Hubble é um telescópio refletor (seu elemento óptico principal é um espelho) com 2,40 metros de diâmetro. Se fosse um telescópio de solo ele seria considerado de porte médio. (Os 2 maiores telescópios do mundo estão no observatório de Mauna Kea no Havaí e têm 10 metros de diâmetro cada. Existem 28 telescópios maiores que o Hubble, espalhados pelo mundo, em funcionamento.) Mais que um telescópio, o Hubble é um verdadeiro observatório espacial, contendo instrumentação necessária a vários tipos de observação. (Contém 3 câmeras, 1 detector astrométrico e 2 espectrógrafos). Além de fotografar os objetos e medir com grande precisão suas posições, o Hubble é capaz de "dissecar" em detalhes a luz que vem deles. O Hubble está em uma órbita baixa, a 600 km da superfície da Terra e gasta apenas 95 minutos para dar uma volta completa em torno de nosso planeta. A energia necessária para o seu funcionamento é coletada por 2 painéis solares de 2,4 x 12,1 metros cada. A sua massa é de 11.600 kg.