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O Efeito Estilingue
O Efeito Estilingue

25 de agosto de 1999

Sonda usa a força gravitacional da Terra para economizar combustível em viagem a Saturno

Cassini antes do lançamento, há dois anos: do tamanho de um ônibus escolar

Lançada ao espaço há dois anos, a sonda Cassini levou um empurrão e tanto na semana passada. Depois de contornar o Sol e passar pelas vizinhanças do planeta Vênus, ela se aproximou novamente da Terra. A 56.000 quilômetros por hora, penetrou na alta atmosfera até chegar a cerca de 1.200 quilômetros do solo e foi atirada de volta ao espaço a 74.000 quilômetros por hora. Foi um impulso tão grande que a Cassini poderá, em apenas um ano, percorrer os 630 milhões de quilômetros que nos separam de Júpiter. Lá, tomará novo impulso para chegar a seu destino final, Saturno, em 2004. Desde seu lançamento, a sonda Cassini vem se valendo da força gravitacional dos planetas para adquirir impulsão e viajar pelo espaço.


Quando deixou a Terra, levada pelo foguete Titan IV, a nave se locomovia a 14.000 quilômetros por hora, somente um quinto da velocidade atual. Dois anos depois, ela já percorreu cerca de 1,7 bilhão de quilômetros e, além de cruzar com a Terra, passou duas vezes por Vênus. A viagem total da Cassini é de 3,2 bilhões de quilômetros. Apesar de difíceis e trabalhosas, todas as manobras e volteios da nave valem a pena. Caso se movesse por conta própria, a sonda precisaria de um estoque de combustível 25 vezes maior do que o que carrega em seus tanques. Nesse caso, a nave, que já é enorme, teria um tamanho inconcebível.

Cassini é a maior sonda já construída. Tem o tamanho de um ônibus. É também uma das mais sofisticadas: leva 420 quilos (quase meia tonelada) só de instrumentos de medição. Os fios e cabos que ligam os equipamentos somam 14 quilômetros. Por dentro carrega uma segunda sonda, a Huygens, que vai pousar em Titã, uma das dezoito luas de Saturno, realizar análises e enviar os resultados à Terra. Somadas, as duas pesam 5,5 toneladas. Se fosse enviada diretamente a Saturno, a nave levaria décadas na viagem. Com a impulsão gravitacional dos planetas, levará apenas sete anos. O recurso é simples. Ao chegar às proximidades do planeta, as leis da física fazem com que os dois corpos se atraiam com mais força. É um cabo-de-guerra, em que cada um tenta puxar o outro. O planeta é muito maior e atrai a sonda com força, o que causa uma aceleração brutal da nave. Graças a cálculos matemáticos precisos, feitos previamente pelos computadores em Terra, a nave consegue escapar do choque. E sai do campo gravitacional do planeta muito mais veloz do que quando entrou. Quanto maior for o planeta e mais perto a sonda passar dele, maior será a velocidade de saída. Foi o desenvolvimento desse efeito estilingue que permitiu a exploração dos planetas mais distantes do sistema solar.

Histeria

A aceleração gravitacional foi utilizada nas naves Mariner, Ulisses, Voyager e Pioneer, esta última atirada para os confins do sistema solar. A nave Galileo também usou o recurso ao passar raspando junto à Terra em duas ocasiões, em 1990 e 1992, antes de empreender sua viagem até Júpiter. Mesmo assim, a passagem da Cassini provocou polêmica na semana passada. Grupos de ecologistas chegaram à beira da histeria. Como a nave carrega 32 quilos de plutônio, eles temiam que um acidente pudesse provocar uma catástrofe nuclear. A Nasa garantiu que a chance de que um erro desse tipo acontecesse era de menos de uma em 1 milhão. Calculou também que, caso houvesse um derrame de partículas de plutônio na atmosfera, os casos de câncer gerados por contaminação não chegariam a 200. Já os ecologistas estimavam em até 65.000 o número de pessoas infectadas e fizeram uma barulheira enorme, com protestos na Europa, nos Estados Unidos e até mesmo pela internet. No fim, deu tudo certo. A sonda sobrevoou o Pacífico oriental com uma variação de apenas 3 quilômetros em relação à rota planejada.

Para construir a Cassini, a Nasa torrou inacreditáveis 3,4 bilhões de dólares. Por pouco a missão não foi cancelada pelo Congresso americano dez anos atrás, tamanha era a facada no Orçamento público. Uma série de parcerias internacionais que envolveram doze países acabou salvando o projeto. O lançamento da Cassini marcou o fim da era das sondas muito caras. A Mars Pathfinder, enviada em 1996 para estudar a superfície marciana, custou apenas 250 milhões de dólares. A Lunar Prospector, esmigalhada no mês passado contra a superfície lunar depois de um ano de estudos, saiu ainda por menos: 63 milhões de dólares. Couraça

A Cassini é revestida de uma couraça dourada que a protege do impacto dos micrometeoritos e detritos espaciais que encontra pelo caminho. Com seis espectrômetros e várias câmaras de fotografia, deve revelar detalhes dos anéis de Saturno e da superfície do planeta. Sua nave gêmea, a Huygens, também terá uma missão e tanto ao sobrevoar Titã. Supõe-se que esse satélite seja muito parecido com a Terra há alguns bilhões de anos. É o único no sistema solar a ter uma atmosfera com nitrogênio. De tempos a tempos ocorrem chuvas de matéria orgânica na superfície, onde existem lagos de etano e metano. O astrônomo americano Carl Sagan acreditava que seria possível encontrar água em Titã. São condições que podem favorecer o aparecimento de formas rudimentares de vida. Os pesquisadores da Nasa, prudentes e lacônicos, limitam-se a dizer que o objetivo principal da missão da Huygens é apenas coletar mais dados.