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A Lei da Selva
A Lei da Selva

11 de março de 1998

Sunderbans, na Índia, é o único lugar do mundo onde tigres ainda comem gente

Os tigres estão entre as espécies mais ameaçadas de extinção. Existem apenas 4.600 no mundo todo, dos quais 70% vivem na Índia. O número era vinte vezes maior no começo do século. O massacre continua, estimulado pelo comércio clandestino da pele e dos ossos, utilizados como medicamentos e amuletos em alguns países. O que poucas pessoas imaginam é que ainda existe uma região do planeta onde os tigres devoram seres humanos - como na história de Mogli, o Menino Lobo. Conhecida pelos indianos como "a fronteira proibida", a reserva de Sunderbans é a maior extensão pantanosa do mundo, situada no estuário do Rio Ganges, entre a Índia e Bangladesh. Ali, 800 tigres perseguem lenhadores, pescadores e coletores de mel, do mesmo modo como caçam outros animais. Todos os anos cerca de 45 pessoas são comidas pelos animais. Outras dezenas ficam feridas em ataques de surpresa.


Em geral, os tigres só atacam pessoas quando provocados ou para defender sua comida ou seus filhotes. Em Sunderbans é diferente. Lá, os seres humanos viraram o prato predileto dos grandes felinos. Os tigres descobriram que é muito mais fácil atacar um pescador ou um lenhador desatento do que sair correndo atrás de animais selvagens através da mata cerrada. "Quase todos os tigres daqui são comedores de gente", diz A.N. Bhattacharya, diretor da reserva. "O terreno é difícil para a caça e os humanos tornam-se presas fáceis."

Garra no pescoço

Sobrevivente de um ataque, Joy Mondal estava pescando em companhia do pai e dois amigos, há dois meses, quando um tigre surgiu do meio da floresta e avançou sobre a canoa. Com um golpe, o animal enfiou as garras no pescoço de Mondal e tentou puxá-lo para dentro do rio. O rapaz só não morreu porque o pai conseguiu afugentar a fera a bordoadas de remo. "Tenho muita sorte de estar vivo", afirma Mondal, exibindo uma profunda cicatriz no pescoço.

Apesar do perigo, aventurar-se pelo território dos tigres é a única opção de sobrevivência dos nativos que habitam os vilarejos nas vizinhanças da reserva. As autoridades pagam 20.000 rúpias (cerca de 520 dólares) de indenização para a família das vítimas dos animais, contanto que o ataque tenha ocorrido nas áreas do parque onde a pesca, a coleta de mel e o corte de madeira são permitidos. Quem se aventurar mais longe fica por sua conta e risco.

Desde os anos 80, o departamento florestal do governo indiano tem tentado diferentes providências para proteger os humanos. Uma delas é a distribuição de máscaras de borracha que devem ser usadas na parte de trás da cabeça. Seria uma forma de enganar os tigres, que, segundo a crença local, só atacam suas vítimas pelas costas. Outra medida é a colocação de bonecos que imitam pessoas em tamanho natural e emitem choques elétricos quando tocados, numa tentativa de fazer com que os tigres desistam de se aproximar dos humanos. Até agora nada deu certo. Há muitos nativos traumatizados com os ataques. É o caso de Srikanto Barman, cujo companheiro de pescaria, Ali, foi devorado por um tigre. "Ele levou meu amigo em sua boca da mesma forma que um gato carrega um rato", conta Srikanto. "Depois disso, eu nunca mais voltei à floresta."