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04 de novembro de 1998

Retirado da Amazônia, o tucunaré destrói espécies em outras regiões

O carnívoro tucunaré: redução de vinte espécies num lago

O tucunaré, saboroso peixe da Amazônia, é o alvo predileto dos praticantes da pesca esportiva. Em razão dessa preferência, ele foi transportado dos rios do norte do país para se reproduzir em outras regiões, como o Pantanal e represas do Paraná. O resultado foi bom para os pescadores, mas desastroso para o meio ambiente. Carnívoro de grande porte, o tucunaré passou de caça a caçador e está devorando pequenos peixes e camarões. Uma prova do desequilíbrio ecológico foi constatada num lago do Paraná, onde populações de mais de vinte espécies foram reduzidas depois da chegada do predador. O problema é grave. A mudança de animais para lugares distantes de seu habitat é a principal causa da extinção de espécies no mundo, segundo relatório do World Conservation Monitoring Centre, uma ONG ambientalista internacional.


Embora o grande vilão ecológico no Brasil ainda seja o desmatamento, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Ibama, já disparou o sinal de alerta contra a introdução de exemplares exóticos em ecossistemas nacionais. "Vamos aprimorar a fiscalização das fronteiras", afirma o presidente do órgão, Eduardo Martins. "Essa é uma questão que exige muito rigor." A vigilância pretende evitar problemas como os que já acontecem com os tucunarés e também com as carpas. Vinda do exterior - provavelmente da Hungria, de Israel ou da China -, a carpa trouxe para os rios e lagos brasileiros um parasita chamado Lérnia. Esse bichinho se espalha pela água ainda na forma de larva e é engolido pelos peixes. Inofensivo para a carpa, ele provoca ulcerações que podem matar outros exemplares.

"O Brasil não tem dado a atenção devida a esse problema", alerta o chefe do Centro Nacional de Pesquisa de Peixes Tropicais, Geraldo Bernardino. Com suas 6.000 espécies, o que o coloca entre os três países mais ricos do mundo em peixes de água doce, o Brasil é especialmente vulnerável à chegada de animais exóticos. Uma variedade mais forte ou mais voraz introduzida em um novo ecossistema passa a concorrer - e vence a batalha - por alimentos com os habitantes originais. Dificilmente há predador para eles. Espécies pequenas também são problemáticas quando trazem parasitas e bactérias desconhecidos para o local. A dizimação costuma ser rápida e é difícil de ser revertida. A única solução é evitar o movimento de animais entre países e ecossistemas diferentes. Se continuar introduzindo espécies em novos ambientes naturais, o ser humano vai conseguir um feito até agora inédito: fazer com que os animais sejam, eles próprios, os maiores inimigos da natureza.

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Existem pelo menos 14 espécies de tucunarés na Amazônia, sendo cinco espécies descritas: Cichla ocellaris, C. temensis, C. monoculus, C. orinocensis e C. intermedia. O tamanho (exemplares adultos podem medir 30cm ou mais de 1m de comprimento total), o colorido (pode ser amarelado, esverdeado, avermelhado, azulado, quase preto etc.), e a forma e número de manchas (podem ser grandes, pretas e verticais; ou pintas brancas distribuídas regularmente pelo corpo e nadadeiras etc) variam bastante de espécie para espécie. Todos os tucunarés apresentam uma mancha redonda (ocelo) no pedúnculo caudal.

Espécies sedentárias (não realizam migrações), que vivem em lagos/lagoas (entram na mata inundada durante a cheia) e na boca e beira dos rios. Formam casais e se reproduzem em ambientes lênticos, onde constroem ninhos e cuidam da prole. Têm hábitos diurnos. Alimentam-se principalmente de peixes e camarões. São as únicas espécies de peixes da Amazônia que perseguem a presa, ou seja, após iniciar o ataque, não desistem até conseguir capturá-las, o que os torna um dos peixes mais esportivos do Brasil. Quase todos os outros peixes predadores desistem após a primeira ou segunda tentativa malsucedida. Todas as espécies são importantes comercialmente e na pesca esportiva.