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Flipper Assassino
Flipper Assassino

14 de julho de 1999

Pesquisas recentes revelam o lado cruel e agressivo dos golfinhos

Espécie de anjos da guarda dos sete mares, os golfinhos são vistos como criaturas dóceis, brincalhonas e amistosas. Observar um cardume saltitante durante um passeio de barco é assistir a um dos mais belos espetáculos da natureza. Melhor do que isso, só a experiência de nadar ao lado dos encantadores seres azulados. Inesquecível - mas perigosa. À medida que os estudos sobre o comportamento dos golfinhos avançam, mais e mais eles se distanciam da imagem de Flipper, herói simpático da televisão e do cinema. De animais ingênuos, amigos e protetores dos humanos, eles não têm nada. Há evidências cada vez maiores de que os golfinhos são seres agressivos, predadores da própria espécie. A última dessas comprovações foi feita por pesquisadores da Universidade de Aberdeen, na Escócia. Por uma hora, eles testemunharam um ritual macabro: um golfinho adulto torturou um filhote até a morte. Prendia o pequeno entre os dentes e atirava, violentamente, seu corpo contra a água. A cena, repetida inúmeras vezes, só teve fim quando o filhote afundou, morto. Em praias por todo o mundo, os cientistas têm encontrado golfinhos bebês mortos, com o crânio esfacelado e marcas de dentes de golfinhos adultos espalhadas pelo corpo.

São descobertas perturbadoras para qualquer pessoa, inclusive para os cientistas. Não se trata de um instinto assassino movido pela fome, como acontece com os animais tipicamente predadores. A prática de matar o próprio filhote é comum em diversas espécies. Mas existe sempre uma explicação. Chimpanzés podem matar a cria de uma fêmea que passou a integrar o grupo depois de grávida. Para eles, o bebê concebido fora do bando é um inimigo em potencial. Alguns estudiosos desconfiam de que essa tese poderia explicar o comportamento dos golfinhos. Não há, contudo, informações suficientes que fundamentem a teoria. "Os golfinhos são um desafio à ciência porque eles passam a maior parte da vida submersos, o que dificulta a observação", diz Marcos César de Oliveira Santos, pesquisador do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.

Como o comportamento desses animais é pouco conhecido, os especialistas recomendam muita cautela ao abordá-los. A maioria das pessoas pensa que Flipper realmente existe, e está na moda nadar entre golfinhos. "Como qualquer animal selvagem, eles reagem por instinto quando se sentem ameaçados", afirma Eduardo Secchi, pesquisador do Museu Oceanográfico de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. No Brasil, tornou-se célebre a história do golfinho "Tião", acusado de ferir 29 pessoas no litoral norte de São Paulo, em 1994. Supõe-se que o animal tenha reagido às agressões dos turistas, que tentavam agarrar suas nadadeiras e introduzir palitos em suas narinas. No episódio mais trágico, Tião golpeou no fígado um banhista que tentou retirá-lo da água à força. O homem morreu vítima de hemorragia interna. "As pessoas não podem fazer movimentos bruscos na água e não é recomendável perseguir ou alimentar os animais", aconselha a bióloga Liliane Lodi. Toda a cautela é pouco - até com os golfinhos.


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