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04 de outubro de 2000

Protegidas, as baleias jubarte e franca multiplicam-se
e já podem ser vistas por turistas no litoral


Baleias jubarte em Salvador: sem medo da aproximação dos barcos

Todo ano, no início do inverno, centenas de baleias começam a chegar às águas brasileiras, vindas da Antártica, para aqui se reproduzirem. Durante seis meses, determinados trechos de nosso litoral se transformam em verdadeiras maternidades desses mamíferos gigantes. Estamos agora no auge da temporada das baleias no Brasil e há pelo menos dois bons motivos para comemorar. O primeiro é que as baleias jubarte não estão mais restritas ao parque nacional do Arquipélago de Abrolhos, no sul da Bahia. Um claro sinal de recuperação da espécie, que, aos poucos, começa a repovoar as áreas ocupadas antes da matança indiscriminada que quase fez desaparecer esses animais no início do século XX. O número de avistamentos desses mamíferos no litoral norte da Bahia foi tão surpreendente nos últimos dois anos que o Instituto Baleia Jubarte, que trabalha pela preservação da espécie no Brasil, está instalando uma filial de pesquisas na Praia do Forte, a 87 quilômetros de Salvador. O segundo motivo é a criação do primeiro santuário oficial destinado às baleias no Brasil. Trata-se da Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca, que ocupa 156.000 hectares do litoral catarinense, com 120 quilômetros de extensão.

As duas novidades mostram que a incansável luta entre conservacionistas e predadores finalmente teve uma trégua. Protegidas, as baleias franca e jubarte estão se recuperando, aumentando sua população e ganhando mais espaço no litoral brasileiro. Como resultado, são vistas cada vez mais freqüentemente, protagonizando um verdadeiro show de exibições bem perto da costa. Era o que faltava para colocar o Brasil no mapa de um dos ramos do ecoturismo que mais crescem no mundo: o da observação de baleias. Apenas no ano passado 8 milhões de pessoas em 87 países viajaram para ver esses animais, movimentando cerca de 1 bilhão de dólares. O Brasil ainda está engatinhando, mas já mostra sinais de enorme potencial. Quando migram para as águas rasas e claras de Abrolhos, as cerca de 1.600 jubartes arrastam consigo um grupo de turistas quase cinco vezes maior. Mansos, esses enormes animais, que chegam a medir 16 metros de comprimento e pesar 40 toneladas, costumam aproximar-se dos barcos de observação e presentear os passageiros com seu canto melancólico e imagens surpreendentes. Muitas vezes aparecem acompanhadas dos filhotes recém-nascidos.

Tudo indica que o sucesso das baleias jubarte em Abrolhos vai repetir-se no litoral norte da Bahia. Ali já é possível vê-las da praia. Pela característica da espécie, elas ficam a partir de 3 quilômetros de distância da areia - o suficiente para ser vistas as acrobacias e os borrifos de água, que chegam a atingir 3 metros de altura. Apenas em agosto, o primeiro mês de atuação da base do Instituto Baleia Jubarte na Praia do Forte, catalogaram-se dezessete baleias e 76 avistamentos no litoral norte do Estado. "Os números superaram todas as nossas expectativas, que já eram enormes", diz Enrico Marcovaldi, coordenador da nova base do instituto. "Já existe um grande interesse no desenvolvimento de uma estrutura para o turismo consciente de observação das baleias também aqui na Praia do Forte." Tanto entusiasmo tem uma razão. Esta é uma modalidade de turismo que, por acontecer em áreas protegidas, se desenvolve sob o controle dos próprios grupos de conservação das espécies. E os fundos arrecadados com a atividade unem os ecologistas e a comunidade da região em torno do único propósito de proteger os animais. Todos saem ganhando.

Cara a cara

Quando iniciou suas atividades de preservação no litoral de Santa Catarina, há dezoito anos, o Projeto Baleia Franca encontrou um quadro delicado. A espécie tinha praticamente desaparecido das águas brasileiras. No primeiro ano, elas simplesmente não vieram. No ano seguinte, foi visto apenas um animal com seu filhote. Hoje, o Brasil recebe cerca de 200 baleias por ano, quantidade significativa, pois se estima que existam apenas 7.000 exemplares da espécie em todo o mundo. O espetáculo apresentado pelas baleias é fascinante. Enormes, com seus 18 metros de comprimento e 60 toneladas de peso, elas ficam muito próximas da praia, logo depois da arrebentação, a cerca de 30 metros de distância da areia. Neste ano, está sendo testado um barco de turismo para ver as baleias de perto. As primeiras experiências foram surpreendentes. Num dos passeios no município de Imbituba, uma baleia chegou a encostar no barco e ficou cara a cara com os turistas. "É uma experiência indescritível", resume José Truda Palazzo Júnior, coordenador do projeto.