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A Vez do Pantanal é Agora
A Vez do Pantanal é Agora

31 de janeiro de 2001


O turismo se profissionaliza, velhas fazendas têm confortos de hotel e 200 pousadas estão prontas para receber 1 milhão de visitantes neste ano num dos mais rústicos e belos cenários brasileiros


Quando o rio se estreita, eles seguem colados uns aos outros. São tantos e em tal esforço para avançar que alguns chegam a ser empurrados para as margens, onde logo são atacados por predadores vorazes. A água, que nas semanas anteriores mudou do prata para o amarronzado, por causa das chuvas, ferve e brilha com o movimento de milhares deles nadando contra a corrente. Esse é o congestionamento aquático que se vê na piracema, a subida dos cardumes na direção de águas tranqüilas, onde vão desovar, ganhar peso e, depois, começar o caminho de volta, quando chegar o período mais seco. Trata-se de um dos grandes espetáculos do Pantanal de Mato Grosso. A piracema, que está acontecendo, é a maior atração do Pantanal entre dezembro e abril, a época em que metade de toda a planície se enche lentamente, até sumir coberta por rios que transbordam e se unem, formando lagos gigantes, canais e novos riachos. Nesta fase do ano, durante três meses é proibido pescar. Animais selvagens, o gado e os homens migram para as partes mais altas. Os bichos embrenham-se nas matas, os bois consomem o pasto preservado na outra metade do ano e os homens ficam ainda mais isolados com o alagamento das poucas estradas. Nas cheias, só aviões alcançam algumas áreas do Pantanal. Mas até mesmo muitas pistas de pouso estão inundadas.

Esse fenômeno das cheias, que se repete há tempos imemoriais, contado em eras geológicas, é todo o segredo da mais selvagem e inexplorada região do Brasil, mais intacta até que a Amazônia, mais preservada que qualquer outro grande ecossistema do planeta. Dividido entre o Brasil, a Bolívia e o Paraguai, o Pantanal tem 210.000 quilômetros quadrados, mais que a soma da área de Portugal, Bélgica, Holanda e Suíça. Mais de dois terços dele ficam nos Estados de Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso. Sua espinha dorsal é o Rio Paraguai, que vai recebendo dezenas de afluentes enquanto desce preguiçosamente e cheio de curvas rumo ao sul do continente. O rio é tão vagaroso que uma canoa deixada à deriva demoraria seis meses para cruzar toda a extensão do Pantanal impulsionada apenas por seu ritmo. Uma quantidade colossal de água escorre pela região na direção do Rio Paraguai, para alimentá-lo, equivalente ao volume de uma Lagoa Rodrigo de Freitas por hora. Da combinação da morosidade do rio com as proporções diluvianas das chuvas, forma-se uma imensa banheira de águas rasas, cujas bordas são compostas de mínimos aclives. Na maior parte do Pantanal, uma elevação de 5 centímetros no terreno já é suficiente para represar alguma água. Por isso, elevações de até meio metro já são chamadas de "cordilheiras".

Muito mais que um show para os olhos, lagoas, brejos, cacimbas e corixos significam o primeiro estágio do imenso laboratório de vida montado pela natureza no Pantanal. Há 260 espécies de peixes nessas águas, alimento para muitas das 650 espécies de aves, oitenta de mamíferos e cinqüenta de répteis. Existem lambaris, de 40 gramas, e monstruosos jaús, com mais de 100 quilos, além de piaparas, pintados e dourados que fazem a alegria dos predadores, entre eles o homem, que tira da região mais de 2.000 toneladas de pescado por ano. Cáceres, em Mato Grosso, sedia anualmente o maior festival de pesca do mundo, com milhares de participantes. Alguns milhões de piranhas completam a fauna aquática pantaneira. São tantas e tão vorazes que os boiadeiros evitam até mesmo que bois feridos, perdendo sangue, cruzem um rio infestado por elas. As piranhas devoram um animal desses em minutos. Raramente, no entanto, elas se aproximam de humanos.

Na Amazônia também há peixes imensos e em maior variedade. Mais exuberante e muito mais densa, a mata amazônica exibe muito mais que os 1.700 tipos de plantas encontrados no Pantanal. Mas em um quesito a planície mato-grossense é imbatível. Só o Pantanal tem tanto bicho para mostrar. Numa caminhada distraída, é possível, literalmente, tropeçar num jacaré na beira de uma lagoa. Há 35 milhões deles na região. As aves se vêem às centenas, aos milhares, formando verdadeiros conjuntos habitacionais nas árvores, com casos de cinco ou seis ninhos de espécies distintas num único galho. Verdes, azuis, vermelhas, cor-de-rosa ou tricolores, como o tuiuiú, uma variedade de cegonha que ganhou o título de ave-símbolo do Pantanal, elas enchem as madrugadas e os fins de tarde com uma algaravia em que é impossível distinguir um canto de outro. Suas revoadas, misturando cores contra o azul do céu, são a segunda atração mais procurada pelos fotógrafos que sobem e descem rios, varam as matas e camuflam-se à beira d'água. A paisagem e a fauna oferecem imagens únicas a cada passo, e eles se esbaldam. Mas o que todos procuram é um troféu difícil. É muito fácil ouvir histórias de onças no Pantanal e até achar rastros dessas colossais rainhas entre todos os animais do local. Mas ver uma delas não é nada simples. Fotografar, então, é como ganhar na loteria. "A onça sempre vê a gente primeiro e foge", conta o fotógrafo Valdemir Cunha, um dos poucos que já conseguiram capturar o felino com suas lentes.

Pois bem: o Pantanal acaba de chegar a sua melhor fase para receber visitantes. Um saudável processo de profissionalização do turismo foi instaurado na região. Mais de 200 pousadas estão instaladas na área, com preços que atendem a vários níveis de poder aquisitivo - de 50 reais a diária, em instalações mais simples, a 200 reais, nas mais equipadas. Até um hotel do Sesc, com trinta apartamentos, já está funcionando no Pantanal. No total, há 8.000 leitos para turistas na região. Peões ganharam cursos para renascer como guias, cozinheiras estão prontas a atender também quem tem limitado interesse pela pesada culinária regional e as agências conseguem pegar regularmente nos três aeroportos, com vans pontuais e limpas, os turistas que dependem de transporte para chegar aos hotéis a que se destinam. Até bem recentemente, havia um pouco de loteria nessas situações.

O Brasil do litoral demorou mas acabou descobrindo no Pantanal talvez o mais destacado paraíso ecológico do país e um dos mais ricos do mundo. Há vinte anos, quando o ecoturismo começou a ganhar corpo em todo o planeta, estrangeiros que apareciam em Poconé, Corumbá e Cáceres, algumas das cidades locais, só tinham à disposição as instalações que serviam aos pescadores: chalés rústicos, muitas vezes sem energia elétrica, e barcos dotados de imensas geladeiras, mas quase nenhum conforto. Nessa época, os turistas estrangeiros davam de 10 a 1 nos nacionais em matéria de comparecimento ao Pantanal. Hoje, a proporção já é equilibrada. Em 1998, os governos de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul comemoravam ter alcançado a marca de meio milhão de visitantes por ano no Pantanal.

Agora, em 2001, espera-se 1 milhão de turistas. Ou seja, houve um crescimento de 60% na procura pela região. Existem trinta vôos diários para o Pantanal, partindo de todos os pontos do Brasil. "A estrutura está pronta para receber turistas o ano inteiro", celebra o presidente regional em Mato Grosso do Sul da Associação Brasileira de Agências de Viagem, Nei Gonçalves. O governo do Estado, por seu lado, esforça-se para aumentar a freqüência dos turistas em todas as épocas. Conseguiu 1 milhão de reais para patrocinar o desfile da Escola de Samba do Salgueiro, no próximo mês. O tema, evidentemente, são as surpresas e os encantos proporcionados pelo Pantanal.

As pescarias ainda são importantes - 40.000 licenças para amadores expedidas anualmente nos dois Estados -, mas sobram alternativas para quem prefere outro tipo de diversão. Safáris fotográficos, por exemplo, tornaram-se a especialidade de algumas antigas fazendas que, nos últimos anos, se transformaram em pousadas. Essas fazendas, no princípio dotadas apenas de um esquema primário para receber os turistas, foram contratando guias e criando roteiros para exibir os mistérios e as belezas pantaneiras. A Fazenda Barra Mansa é um desses casos. Lá, o visitante encontra guias especializados em localizar bichos e deixá-los diante dos fotógrafos amadores, num cenário que é considerado o mais belo do Pantanal, na região do Rio Negro. A diária na Barra Mansa custa 195 reais e, durante a estada, o visitante pode participar de uma pescaria de piranhas, passear de barco para ver de perto as ariranhas, as sucuris e o passaredo. Pode ainda fazer uma expedição noturna para focar com lanternas os olhos vermelhos dos jacarés e andar a cavalo no meio da surpreendente vegetação, entre outras possibilidades.

Nessa mesma área, a Fazenda Rio Negro, onde foi gravada a célebre novela da extinta Rede Manchete, está há dois anos sob administração da organização Conservation International, que a transformou numa reserva e paraíso do ecoturismo. Lá, o preço do pacote médio, de hospedagem por três dias, é de 480 reais e o turista fica num casarão construído há um século, com grandes quartos, pé-direito alto, ladrilhos antigos e clima quase colonial. Também há um lugar que já se tornou referência quando se fala de turismo no Pantanal: o Refúgio Ecológico Caiman, que tem acomodações marcadas pelo conforto, em meio a um cenário rústico e belíssimo. Pode-se ver o pôr-do-sol e ouvir toda a cantoria dos pássaros de dentro da piscina e passar as noites mais quentes na agradável temperatura do ar-condicionado. O refúgio inspirou-se em empreendimentos semelhantes construídos na África para montar sua fórmula de hospedagem. Com pista de pouso própria, o hotel conta com um esquema terceirizado de acesso por avião. Voar de Campo Grande até lá num pequeno avião custa aproximadamente 400 reais, que podem ser rateados entre três pessoas. A maioria das fazendas que recebem turistas conta com esquema semelhante.

Em boa hora nasceram esses empreendimentos nas fazendas pantaneiras, que vinham num processo acelerado de decadência. Seu método extensivo de pecuária já não é competitivo e as freqüentes subdivisões das propriedades, por herança, agravavam ainda mais essa dificuldade. Agora elas permitem ao viajante um contato com a realidade pantaneira. Entre as descobertas que proporcionam, a que mais pode motivar um turista é verificar ao vivo que o Pantanal não é aquela paisagem contínua de água intercalada com porções de terra cobertas de vegetação baixa sobre a qual se empoleiram as aves. Esse quadro pode ser belo, mas quem viu uma vez tende a achá-lo maçante numa segunda visita. Por isso é bom saber que há muitos pantanais, visualmente distintos, dentro da área maior. Primeiro porque existe grande variedade na vegetação. Como faz divisa com o cerrado, a leste, a Floresta Amazônica, ao norte, e algumas ilhas de Mata Atlântica, ao sul, o Pantanal tem toda essa diversidade representada ao longo de sua extensão. Conforme a área em que se está, podem-se ver vitórias-régias, campos típicos do cerrado ou até matas densas e recheadas de cipós, orquídeas e bromélias. Depois, há a subdivisão proporcionada pela geologia da região.