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14 de março de 1999


Bem conservada, Diamantina será o patrimônio cultural da humanidade no Brasil


A cidade ladeada pela Serra dos Cristais: diamante definiu tudo


Mais uma jóia da arquitetura colonial brasileira está prestes a ser declarada patrimônio cultural da humanidade. Desta vez, a honraria concedida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, Unesco, deverá contemplar a cidade mineira de Diamantina, primeiro centro de extração de diamantes do mundo ocidental, que viveu seu auge nos séculos XVIII e XIX e, desde 1938, é considerada patrimônio histórico nacional. A candidatura de Diamantina foi aprovada há duas semanas, por unanimidade, pelo Conselho Internacional de Monumentos e Sítios Históricos, Icomos, entidade responsável pela análise dos dossiês técnicos das cidades candidatas. A decisão final só será conhecida no final do ano, mas a sagração da cidade mineira é dada como certa. "Diamantina manteve intacta a arquitetura barroca de suas igrejas e dos casarios geminados, é emoldurada por uma exuberante paisagem natural e conta ainda com tradicionais festas culturais", justifica a historiadora paulista Suzana Sampaio, presidente do Icomos no Brasil, que participou da reunião de avaliação técnica em Paris.

Os diamantes marcaram toda a formação urbanística da cidade. O traçado dos becos e das vielas, por exemplo, acompanha os caminhos usados pelos escravos para chegar até os locais de mineração. A própria distribuição dos prédios na cidade tem a ver com o fato de a coroa portuguesa ter implantado ali um inédito regime de exploração fechada de diamantes. Assim que a boa nova da pedra preciosa chegou a Portugal, em 1729, a coroa passou a controlar com mão de ferro a extração do mineral. Até então, só se sabia da existência de diamantes na Índia. O lugarejo passou a ser regido por leis diferenciadas e não se reportava, como os demais, à Capitania de Minas Gerais. Para evitar a autonomia administrativa, a elevação do arraial à condição de cidade foi postergada por mais de um século. Isso explica, segundo os historiadores, por que na Diamantina colonial não existiram cadeia, Câmara Municipal nem pelourinho. "A característica de cidade fechada, restrita à extração de diamantes, propiciou o surgimento de uma paisagem urbana e de um tipo de sociedade peculiares", afirma a arquiteta Cláudia Freire Lage, superintendente regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Iphan.

Cachoeiras
O poder local era atribuído aos "contratadores de diamantes", homens de confiança da metrópole portuguesa. O último deles, João Fernandes de Oliveira, ficou famoso por amancebar-se com a lendária escrava Xica da Silva, cuja saga já foi contada em verso e prosa no cinema e na televisão. Com o propósito de não atrair a atenção de Roma para a riqueza subterrânea da região, os portugueses não permitiam a entrada de ordens religiosas. Grande parte das igrejas foi erguida por encomenda dos "contratadores". Talvez por isso elas tenham fachadas bem menos imponentes que as das outras cidades de mineração, como Ouro Preto. As igrejas de Diamantina, em geral, têm uma torre só e são contíguas às casas. A sobriedade externa é compensada pela pintura de detalhes em cores vivas. Os interiores revelam qualidades técnicas que comprovam a formação erudita de artistas, como o português José Soares de Araújo, mestre da pintura barroca em perspectiva, que também era guarda-mor do Distrito Diamantino.

Formada por donos de grandes riquezas, a sociedade de Diamantina era muito reclusa e pouco afeita às congregações sociais. Uma peça característica da arquitetura da cidade, os muxarabiês, tem a ver com essa vocação para a privacidade. De origem árabe, o balcão é todo fechado com treliça e tinha a função de proteger o observador, que podia ver a rua sem ser visto. O Passadiço da Glória, uma insólita passarela de madeira que liga dois casarões e virou cartão-postal da cidade, teria função semelhante. Diamantina é privilegiada ainda por possuir toda essa riqueza urbanística realçada pela Serra dos Cristais, que, com suas formações em quartzito e belas cachoeiras, emoldura o centro histórico.

Para que serve
Diamantina será o décimo patrimônio cultural da humanidade brasileiro. A honraria já foi atribuída a 582 locais de 114 países. No Brasil foram premiados a cidade de Ouro Preto, os centros históricos de Olinda, Salvador e São Luís do Maranhão, as ruínas de São Miguel das Missões no Rio Grande do Sul, o Santuário de Bom Jesus de Matozinhos, em Minas, o Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, o Plano Piloto de Brasília e o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí. O principal benefício é a garantia de empenho do governo na preservação do bem. A consagração internacional costuma facilitar o acesso a linhas de crédito para programas culturais e divulga o local no exterior. "Aqui, o turismo vai revigorar a economia, o que é muito importante agora que a mineração está quase exaurida", afirma Américo Antunes, coordenador da Comissão por Diamantina Patrimônio da Humanidade.


Foto à direita: afrescos do português Araújo na Igreja do Carmo
Foto ao centro: natureza junto à arquitetura: conjunto reconhecido
Foto à esquerda: o Passadiço da Glória