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O Pelourinho é Chique
O Pelourinho é Chique

28 de julho de 1999

O Pelourinho, que estava em ruínas, hoje atrai moradores e se torna endereço elegante de Salvador

A região antes e depois da reforma de 75 milhões de dólares


O Pelourinho, na capital baiana, é o caso mais exemplar. Ali, a recuperação foi feita em duas etapas. A primeira incluiu a limpeza, a reforma e a pintura do patrimônio arquitetônico e a atração de atividades comerciais e culturais que transformaram a região em um novo ponto turístico da cidade. A segunda etapa está em andamento agora. Aos poucos, o Pelourinho está se tornando um bairro residencial. Artistas, intelectuais, arquitetos, tanto baianos quanto de outras partes do Brasil, estão se mudando para lá. Entre os moradores há estrangeiros também.

Há sete anos, o centro histórico de Salvador era reduto de marginais, mendigos, travestis e prostitutas. Andar por lá à noite era um perigo. O casario dos séculos XVI ao XIX havia se transformado em cortiços. Em 1992, começou a mudança. Com o desembolso de 75 milhões de dólares, o governo da Bahia reformou 600 dos 3.000 casarões. Existem ainda 300 em ruínas nos planos de restauração do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural, Ipac, responsável pelas obras. Os outros 2.100 encontram-se em condições razoáveis de conservação, ou foram reformados por seus donos. De cara nova, o Pelourinho foi ocupado por bares e restaurantes. Virou um ponto agitado da vida noturna baiana. Aos poucos, o governo incentivou também atividades para movimentar o bairro durante o dia. Apareceram diversas organizações não governamentais, lojas de suvenir, butiques, joalherias, consulados e escolas. Agora é a vez de os descolados de Salvador ocuparem os imóveis de amplos salões com pisos de tábuas seculares, janelões e varandas. Morar no Pelourinho virou coisa chique. Ao todo, entre moradores novos e antigos, há 1.875 famílias por ali.

Legião estrangeira

O galerista francês Dimitri Ganzelevitch foi o precursor da nova leva de ocupação do Pelourinho. Mora numa casa com fachada em estilo neogótico, de três pisos e quatro terraços com vista para a Baía de Todos os Santos, com muitas salas e quartos decorados com obras de arte e móveis de várias partes do mundo. "Quando vim para cá, causava espanto na alta sociedade", conta Dimitri. "Em jantares elegantes, quando dizia meu endereço, as pessoas custavam a acreditar." Hoje, ele tem vinte vizinhos estrangeiros, incluindo americanos, ingleses, argentinos, italianos, suíços e uruguaios. A maioria mudou-se nos últimos dois anos.

A casa de Dimitri fica em uma parte do centro histórico chamada Santo Antônio, mais afastada do burburinho dos turistas. Por isso, ali o barulho é bem menor que o da região do Largo do Pelourinho, do Terreiro de Jesus e da Praça Padre Anchieta, que também começam a receber novos moradores. O inglês Robert Lancaster e a baiana Ludmila Mueller Leal ocupam há três anos um casarão, decorado com móveis indianos. De suas sacadas, descortinam-se todas as terças-feiras as festas do Dia da Bênção. Há distribuição de pães pela Igreja, ensaio do Olodum e outras festas. Os eventos que acontecem no Pelourinho atraem em média 100.000 pessoas por mês. O casal, no entanto, adora todo esse movimento. "Aqui a gente conhece todo mundo, tem uma vida cultural agitadíssima e mora em um lugar incrível", afirma Ludmila. "Na Europa, eu nunca conseguiria viver em um lugar desses por tão pouco", diz Robert.

Antes da reforma do Pelourinho, uma casa de tamanho médio, com até quatro pisos, em estado razoável de conservação, podia ser comprada por 20.000 dólares. Hoje os casarões maiores e já restaurados valem até dez vezes mais. "Temos uma demanda maior do que a oferta de imóveis", diz Adriana Castro, diretora do Ipac, que controla a ocupação da área. Existem alguns inconvenientes de morar lá. No bairro, nenhuma casa tem garagem e são poucas as padarias e farmácias. "Para comprar um queijo, tenho de pegar o carro e ir a outro bairro", conta a professora de sociologia urbanística da Universidade Estadual da Bahia Maria Palácios, moradora do Pelourinho. Para ela e seus vizinhos, o que vale mesmo é o charme do local.


Algumas soluções para problemas urbanos nascem de iniciativas simples. Às vezes, nem exigem muito dinheiro para dar resultado, mas apenas vontade de levá-las adiante. É o que tem acontecido na recuperação dos centros históricos de Recife, João Pessoa, São Luís do Maranhão e Salvador. Essas áreas, que estavam em decadência até anos atrás, agora voltam a ganhar vida, graças a programas bem-sucedidos de restauração e ocupação.