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Patagônia
Patagônia

22 de novembro de 2000

A pista que vai quebrar o gelo - A selvagem e inóspita Patagônia entra para o mapa turístico da Argentina com a inauguração de um novo aeroporto que vai aproximar turistas das geleiras

O Glaciar Perito Moreno: a coloração branca pode ficar azulada em certas horas do dia. Mas a maior atração é a queda ruidosa das barreiras de gelo


Charles Darwin, criador da teoria da evolução, e o poeta Edgar Allan Poe conheceram a Patagônia no século XIX. Em 1929, o autor de O Pequeno Príncipe, o francês Antoine de Saint-Exupéry, foi piloto do primeiro vôo regular de correio que se realizou sobre a Patagônia. Ele era chefe de tráfego da linha aérea local Aeroposta e gostava de ver com os próprios olhos a gelada região austral da Argentina. Demorou seis horas e vinte minutos de Bahía Blanca, na província de Buenos Aires, a Comodoro Rivadavia. Passaram-se setenta anos e o sul da Patagônia continua a exigir espírito aventureiro de quem quer ver de perto suas impressionantes paisagens. Desde a última sexta-feira, 17, no entanto, com a inauguração do aeroporto internacional de Calafate (cidade de 5.000 habitantes a 2.700 quilômetros de Buenos Aires), tornou-se mais fácil chegar à região, que possui deslumbrantes atrações, entre elas o Parque Nacional dos Glaciares, onde estão as maiores geleiras do mundo fora dos pólos.

A apenas uma hora de viagem de Calafate, as geleiras formam um manto de 14.000 quilômetros quadrados de superfície que só não cobre as montanhas. Os picos emergem do mar branco e gelado como ilhotas de rocha, que são açoitadas constantemente por nevascas. A mais famosa geleira, ou glaciar, é Perito Moreno, batizada com o nome de um dos primeiros cientistas e desbravadores argentinos a estudar a zona. Com 257 quilômetros quadrados, 6 quilômetros de frente, esse gigantesco bloco de gelo, instalado no Lago Argentino, é admirado diariamente por turistas de uma passarela às margens do lago, muito parecida com a das Cataratas do Iguaçu. Ali as "cataratas" são de gelo. De uma hora para outra, o silêncio é rompido por estrondos produzidos por paredes de 50 a 60 metros de altura, do tamanho de um edifício de vinte andares, que se desprendem do glaciar para mergulhar nas águas azuis. Imprevisível, esse é o espetáculo mais esperado pelos turistas.

O branco do Glaciar Perito Moreno pode ganhar tonalidades que vão do violeta ao azul, de acordo com a luz. Ele foi declarado patrimônio da humanidade pela Unesco em 1981. Mesmo com dificuldades e a ainda precária estrutura turística, a região vem recebendo mais visitantes a cada ano. Foram 46.000 em 1993, 67.000 em 1997 e 87.000 no ano passado. Para a temporada deste ano (que começa agora e vai até abril), espera-se que o número pule para 150.000. A expectativa inflada é atribuída à entrada em operação do novo aeroporto. "Aos visitantes, além de aventura, podemos agora oferecer conforto", diz Hernán Lombardi, secretário nacional de Turismo da Argentina.

Lombardi enfatiza que, com a nova concorrência, os preços cairão, atenuando a fama de turismo caro e para poucos que estigmatizou - com razão - a Patagônia austral. Ao contrário do norte da Patagônia, onde estações de esqui em Bariloche ou San Martín de Los Andes atraem milhares de turistas locais e brasileiros, com boa infra-estrutura e a preços competitivos, a Patagônia austral ainda é exclusiva dos turistas com muito dinheiro para gastar: 50% dos visitantes são estrangeiros - americanos, franceses, espanhóis, alemães e italianos. A diária em um hotel de três estrelas sai por 100 dólares. Em Los Notros, hotel onde o melhor é a paisagem que se descortina das janelas dos quartos, o preço é uma gelada, 250 dólares. A vizinhança também ganhou nomes estrelados na última década. Sem o risco de ser incomodados e com muita terra à sua disposição, ricos e famosos, como a duquesa Sarah Ferguson, Ted Turner, os irmãos Benetton e até Sylvester Stallone, compraram enormes fazendas ali. "A Patagônia me dá a sensação de liberdade", diz o empresário Carlo Benetton. O grupo têxtil italiano tem 1 milhão de hectares na região, onde produz 10% da lã que usa para confeccionar seus artigos de vestuário.

O novo aeroporto vai, certamente, quebrar um pouco a tranqüilidade dos barões da Patagônia. "Agora será possível integrar pacotes: quem vai a Bariloche também pode ir a Calafate, à Península de Valdés e a Ushuaia. O aumento de fluxo de visitantes vai fazer os preços baixarem", garante Lombardi. É justamente na Península de Valdés, onde haverá vôos integrados com Calafate, que há um dos maiores tesouros da Patagônia: reservas de pingüins, elefantes marinhos, baleias e leões-marinhos que se aproximam da península para a reprodução - e que também podem ser vistos entre setembro e janeiro.



Turistas no convés de um barco filmam e fotografam
uma baleia cachalote: espetáculo raro que agora se
torna mais acessível aos orçamentos rarefeitos