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Uma das propriedades vistoriadas por Accioly foi a Ilha Pequena, em Angra dos Reis. Ela pertence ao empresário João Hansen, dono da fábrica de tubos e conexões Tigre. Com 10.000 metros quadrados, o local está à venda por 8 milhões de reais. Tem oito suítes, heliponto, salão de festas, duas saunas e duas piscinas - uma delas com hidromassagem. Accioly gostou do que viu, mas só vai decidir pela compra depois de visitar outras propriedades. "Nos dias de hoje, só um lugar desses oferece ao mesmo tempo tranqüilidade e segurança", justifica.

O litoral brasileiro possui centenas ou talvez milhares de ilhas e ilhotas, mas as pessoas realmente ricas ocupam algo como cinqüenta delas, principalmente no litoral da Bahia, do Rio de Janeiro e de São Paulo. Nessa seleção, não entram ilhas avaliadas em menos de 3 milhões de reais e há algumas cujo valor de mercado estimado por corretores pode bater os 16 milhões. No mundo das ilhas caixa-alta são comuns suítes do tamanho de um apartamento de três ou quatro quartos, helipontos, pista de pouso para avião, piscina aquecida, frota de lanchas e sala de cinema. Nesse universo há até o caso espetacular do empresário que, em vez de comprar sua ilha, resolveu construí-la.

O baiano Marcelo Pessoa, incorporador e presidente de uma empresa especializada em montar pequenas centrais hidrelétricas, possui uma das menores ilhas do país. Tem apenas 4.000 metros quadrados e resume-se a sua casa e à imensa área de lazer, cenário da festa de casamento de Carolina, neta de Antonio Carlos Magalhães, ocorrida em julho do ano passado. Apesar do tamanho, o lugar é um espetáculo digno do Taiti. Ali há cinco suítes, sauna, heliponto, duas salas de jantar e uma fonte italiana em sua entrada. A construção da casa levou mais de três anos. Todo material veio de balsa, numa empreitada que durava até doze horas por dia. Curiosamente, Pessoa não desembolsou um tostão sequer pela ilha localizada nas cercanias de Salvador. Até porque não havia ali propriamente uma ilha. O que existia era apenas um pequeno banco de areia, sem árvore alguma, sempre ameaçado de inundação, pelo qual ninguém se interessava. Pessoa diz ter conseguido (de graça) da União o direito de ocupar o local. Logo depois, contratou uma empreiteira e construiu barragens de pedra por toda a ilha, que não tem mais perigo de ser engolida pelas águas.

No caso das propriedades mais caras, mais adequado do que chamá-las de ilhas é tratá-las por aquilo que realmente são: resorts particulares. A Ilha do Capítulo, localizada em Angra dos Reis, é um desses resorts. Avaliada em 16 milhões de reais pelos corretores da região, é considerada a melhor ilha do país. Ela pertence ao empresário português João Pereira Coutinho, que tem negócios no ramo de automóveis, um banco e uma incorporadora imobiliária na Europa. Do alto, por causa da mata nativa, pouco se vê da estrutura que ali foi construída. Só o bangalô-suíte reservado a Coutinho e sua mulher tem dois andares e 300 metros quadrados. Apesar de vir ao Brasil apenas três vezes ao ano, o empresário português mantém por ali dez empregados que cuidam da manutenção do lugar o ano inteiro. Aficionado de cinema, mandou construir uma sala climatizada para dez pessoas. Também há uma pista de cooper contornando a propriedade.

Outra ilha padrão resort fica próxima a Salvador e pertence a Jorge Erisperger, ex-sócio do Banco Garantia. Após a venda do banco, o executivo entrou em quarentena e resolveu aproveitar a vida. Virou velejador e "fez" da Ilha das Canas um lugar de tirar o fôlego. Toda a decoração remete à Tailândia. A maioria dos móveis veio direto da Indonésia. Há um complexo de chalés-suítes espalhados por toda a ilha e embaixo do bangalô de 500 metros quadrados, feito com toras de eucalipto trazidas do sul do país, Erisperger pode avistar uma parte de sua assombrosa frota de embarcações: 22 no total. Os funcionários da ilha andam impecáveis em uniformes brancos, boina e coletes azuis.

Até trinta anos atrás, possuir uma ilha requeria um certo espírito aventureiro, um quê de Robinson Crusoé. Os precários geradores de energia sempre falhavam e o contato com o continente só podia ser feito por rádio. É evidente que a tecnologia melhorou e muito a vida nas ilhas. Telefones celulares, TVs por satélite, energia solar e energia a vento usadas na maioria das propriedades tornaram a permanência no meio do mar mais confortável. O empresário Milton Soldani Afonso, ex-dono da Golden Cross, acabou de reformar sua paradisíaca Ilha do Cavaco, em Angra dos Reis, com a intenção de se mudar de vez para o lugar, avaliado pelos corretores em 12 milhões de reais. "Com certeza está entre as cinco melhores do país", diz o corretor Luís Boaventura, um dos mais experientes da região. Espalhadas por 18.000 metros quadrados, as construções são deslumbrantes. O conjunto possui sete bangalôs e área de lazer com quadra de tênis. A casa mais nova, com apenas dois quartos, é uma das mais bonitas do litoral. Detalhe: cada quarto tem 100 metros quadrados.

A região de Angra concentra as melhores e mais exclusivas ilhas do país. Qualquer pedaço de terra cercado por água alcança cotações estratosféricas. O cirurgião plástico Ivo Pitanguy, proprietário de um desses resorts na região, já recusou a oferta de 20 milhões de reais feita por um xeque árabe por sua propriedade. Mas atenção: quando se diz que uma ilha "vale" X ou Y milhões de reais, é preciso ficar claro que a forma de calcular o preço de um imóvel desse tipo envolve boa dose de subjetividade. Não há nada mais objetivo do que avaliar o preço de um carro. Basta abrir o jornal e conferir a tabela dos classificados. No caso de apartamentos, a objetividade é um pouco menor, porque esses imóveis não são vendidos segundo o modelo e o ano de fabricação, mas de acordo com o gosto do freguês. No caso específico das ilhas, a subjetividade é máxima, pois não existe uma tabela de preços. Para se ter uma idéia mais clara da confusão a que pode chegar o debate sobre o valor de uma ilha, tome-se o caso da Ilha dos Mantimentos, localizada na região de Parati, no Rio de Janeiro. O lugar é propriedade do empresário italiano Sergio Maggiore, dono de uma fábrica de produtos derivados de petróleo. Segundo os corretores, é uma das mais fabulosas ilhas do país e vale 12 milhões de reais. "Jamais!", afirma Maggiore. "Essa ilha vale no máximo 3 milhões", garante.

Diz a lei que os donos de ilhas devem recolher um tributo anual à União que varia de 0,6% a 2% do valor da propriedade. É uma taxa semelhante ao IPTU, com a diferença de que o imposto cobrado sobre os imóveis urbanos leva em conta o valor do terreno e da construção erguida sobre ele. No caso das ilhas, calcula-se apenas o valor do terreno. Não são contabilizadas a casa, a piscina, as benfeitorias em geral.

O controle desse imposto, ou melhor, o descontrole, está a cargo da Secretaria de Patrimônio da União, órgão do Ministério do Planejamento. O problema é que os arquivos da secretaria trabalham com valores absolutamente irreais, o que permite aos donos de ilhas recolher impostos irrisórios. Tome-se como exemplo a Ilha do Capítulo, pertencente ao empresário português João Pereira Coutinho, dono de banco e incorporadora de imóveis. Localizada em Angra dos Reis, segundo os registros do governo, os 55 000 metros quadrados da ilha valem apenas 109 000 reais. Isso mesmo: o equivalente a um apartamento de dois quartos. Por esse motivo, a propriedade recolhe ao governo somente 2 200 reais por ano.

No mercado imobiliário, especula-se que a ilha de Coutinho poderia valer algo como 16 milhões de reais. É evidente que a estimativa considera todas as benfeitorias e as construções. Mesmo assim, é difícil acreditar que, caso sejam implodidas as edificações, reste um terreno avaliado em pouco mais de 100.000 reais. "Há um gritante descompasso de valores, mas infelizmente ainda não conseguimos identificar as razões de tanta diferença", afirma Augusto de Almeida, secretário adjunto da Secretaria de Patrimônio da União.


Foto à esquerda: a Ilha do Capítulo, em Angra - dez empregados durante o ano inteiro
Foto ao centro: a paradisíaca Ilha das Canas - mobiliário da Tailândia, complexo de chalés e frota de 22 embarcações
Foto à direita: a propriedade de Milton Afonso, ex-dono da Golden Cross - uma das mais espetaculares casas do litoral, avaliada pelo mercado em 12 milhões de reais
Fotos abaixo: ilha com IPTU de apartamento


Paraísos em Alto-Mar


14 de fevereiro de 2001 Verdadeiras mansões no oceano, as ilhas particulares brasileiras chegam a valer 16 milhões de reais

A ilha de Marcelo Pessoa em Salvador: o banco de areia virou uma propriedade cinematográfica no meio do oceano

O empresário carioca Alexandre Accioly, 36 anos, é um homem muito rico. Há alguns anos, vendeu sua empresa de telemarketing, a Quatro/A, e embolsou o equivalente a 120 milhões de reais. Accioly já tem barco, aluga jatinhos quando necessário, anda de helicóptero sempre que precisa, mas agora decidiu que vai comprar uma ilha.