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Os Novos Titanic
Caso a história do filme Titanic fosse transportada para o maior navio do mundo em 1998, Jack (Leonardo DiCaprio) e Rose (Kate Winslet) poderiam se amar com muito mais tranqüilidade. A começar pelo primeiro encontro. Ele poderia acontecer, por exemplo, numa discoteca envidraçada a 46 metros de altura. Ela ocupa o último pedaço do tombadilho no Grand Princess, lançado ao mar no final do mês passado. O casal poderia também fugir do noivo dela e esconder-se com muito mais facilidade, já que o Grand Princess é muito maior. Com capacidade para 2.600 passageiros, duas vezes mais que a do Titanic, o novo transatlântico tem números grandiosos. Pesa 109.000 toneladas, é mais alto que a Estátua da Liberdade e mais comprido do que quatro Boeing 747 enfileirados (veja desenhos). Nos seus dezoito andares há butiques, restaurantes, treze piscinas, um spa, quadra poliesportiva, pista de cooper, um pequeno campo de golfe com nove buracos, biblioteca, um centro de diversões virtuais e o maior cassino flutuante do planeta. Além de uma providencial capela, para o caso de os Jack e Rose de hoje resolverem se casar. O barco, que custou quase meio bilhão de dólares, é também um sucesso de público. Ao zarpar pela primeira vez, no último dia 26, já tinha reservas esgotadas por seis meses.

Transatlânticos de grande porte, com muita diversão a bordo, nunca estiveram tão em moda. No ano passado, 5 milhões de pessoas fizeram cruzeiros em todo o mundo, um número dez vezes maior que o de vinte anos atrás. As maiores empresas do ramo, a Carnival, a Royal Caribbean e a Princess, disputam no momento quem faz o maior barco. O Grand Princess superou o Destiny, último titã dos mares da Carnival, um gigante de 101.000 toneladas. A Royal Caribbean quer passar ambos para trás com o Eagle, de 136.000 toneladas, a ser lançado no ano 2000. As três empresas já encomendaram mais dezenove barcos, que, em quatro anos, somarão 40.000 novas cabines. Elas vão aumentar em 50% seu atual número de lugares.

Até a Disney entrou para valer nessa batalha naval. Sua subsidiária marítima, a Disney Cruise Line, investiu 720 milhões de dólares na construção de dois navios de 1.760 passageiros cada um. O primeiro, o Disney Magic, deve zarpar pela primeira vez no próximo dia 30 de julho. Fará viagens de uma semana levando os turistas da Disney na Flórida para as Bahamas, incluindo parada em Nassau e numa ilha particular da própria Disney - a Castaway Cay, com três praias e uma lagoa para mergulho. No ano que vem, será a vez do Disney Wonder, ainda em construção. A Carnival, que acaba de lançar o Elation ao custo de 330 milhões de dólares, anuncia para novembro próximo a inauguração de um navio exclusivo para não fumantes, o Paradise. Nem os operários que trabalham na construção do barco podem dar suas baforadas no estaleiro. O Paradise inaugura nova fase da empresa, batizada de Fun Ships, com navios gigantescos de mais de 100.000 toneladas e o máximo possível de atividades, para que nenhum viajante fique parado.

"Cada vez mais os cruzeiros lotam com bastante antecedência", diz Martin Jensen, diretor da operadora Queensberry, que vende passagens para a linha Princess no Brasil. Em boa parte, o sucesso recente dos cruzeiros se deve ao esforço das agências de viagem para mostrar que um passeio pelo mar não é mais um passatempo caro e entediante, um estigma que prejudicou o negócio num passado recente. Os transatlânticos modernos são verdadeiros resorts flutuantes, com lojas, quadras poliesportivas, recreação infantil, shows, restaurantes, bares e intensa atividade social. Com exceção de itinerários específicos, podem custar até menos do que hotéis de luxo em terra firme. Viajar durante uma semana pelo Alasca num navio como o Rhapsody of the Seas, da Royal Caribbean, por exemplo, custa no Brasil 3.113 dólares por pessoa em cabine dupla, incluindo parte aérea (até Vancouver, de onde sai o barco, mais três noites de hotel e seguro). Estão incluídas todas as refeições e os serviços do barco. Com 400 dólares, mesmo preço da diária num bom hotel, é possível fazer um cruzeiro de três noites com pensão completa no Caribe.

Agitação e compras
Para os brasileiros, o Caribe é o lugar preferido para uma viagem marítima. "Os cruzeiros caribenhos são mais informais, têm charme, programação intensa e ainda param em Miami, para as compras", diz Mariz Leiman, da Nascimento Turismo, que representa a Royal Caribbean, segunda maior empresa de cruzeiros do mundo. Neste ano, a empresa já vendeu 5.430 passagens a brasileiros, 25% mais que no ano passado. A operadora Oremar, que vende cruzeiros pela Carnival, dona da maior frota de navios de passeio no mundo, com 37 transatlânticos, sendo doze da sua Cruise Line, estima vender 15.000 passagens no Brasil até o fim do ano. Até mesmo navios de luxo vêm sendo mais procurados. A Queensberry pretende colocar neste ano 2.000 brasileiros no mar a bordo dos navios Seabourn (preços de 6.000 dólares em média por pessoa em suíte dupla, por uma semana), Windstar (grandes veleiros a 3.000 dólares por semana em suíte dupla, por pessoa) e Princess (preço médio de 2.000 dólares por pessoa em cabine dupla). "Os brasileiros estão aprendendo a viajar de navio", diz Martin Jensen, da Queensberry. "Só precisam aprender a fazer reservas com meses de antecedência, para garantir lugares nos melhores barcos."

Embora a disputa seja grande, brasileiros já estão comprando bilhetes para o Grand Princess. Em dezembro do ano passado, a Queensberry já havia vendido 160 cabines para 320 passageiros nos nove cruzeiros que o navio está fazendo pelo Mediterrâneo. Doze brasileiros estavam no primeiro cruzeiro do Grand Princess, que chegou a Barcelona no último dia 6. Mais 300 pessoas reservaram lugar no país para a temporada caribenha, que começa em outubro. Para um cruzeiro de doze dias no Grand Princess na cabine mais simples, sem vista para o mar, o preço é de 2.895 dólares por pessoa em cabine dupla. Só há lugares a partir de 4 de outubro, quando o navio começará sua rota pelo Caribe. No caso do barco da Disney, as vendas ainda não começaram, de acordo com a Stella Barros Turismo. Motivo: o lançamento do Disney Magic já foi adiado três vezes. Com a entrada da Disney, o mercado deve mudar de perfil, inventando roteiros específicos para viajantes bem mais jovens do que o habitual nos itinerários marítimos. O barco de 85.000 toneladas, com o Mickey Mouse estampado no casco, promete uma programação tão animada quanto um giro pela DisneyWorld. No restaurante Animator's Palate, os passageiros entram para jantar num salão preto e branco que aos poucos é colorido com animação. Depois do jantar, todos são convidados para brincar dentro de um verdadeiro estúdio de TV. Para as crianças, clubes com atividades específicas, desde escaladas até jogos interativos de computador. É um cruzeiro só delas.

Viagens luxuosas
A preocupação com o lazer e o conforto dentro dos grandes cruzeiros é maior do que nunca. O Sovereign of the Seas, da Royal Caribbean, que faz a rota das Bahamas, oferece shows diários e, para quem quer descanso, tem uma bela biblioteca. A Costa, outra linha da corporação Carnival, oferece viagens luxuosas, com um projeto arquitetônico que faz lembrar um hotel cinco estrelas, de vista panorâmica e cabines espaçosas. No Grand Princess, a qualquer hora do dia há no mínimo três atrações sendo oferecidas em algum lugar do barco. Nove de suas treze piscinas são de hidromassagem e há uma especial para exercícios que permite nadar com correnteza contrária. Até mesmo quem desejar entrar no filme Titanic e dançar de fato com Jack e Rose pode fazê-lo brincando com a tela de vídeo, que permite recortar sua imagem e inseri-la no filme: uma diversão como no filme A Rosa Púrpura do Cairo.

No futuro Eagle, que terá capacidade para 3.100 passageiros, haverá espaço para o primeiro rinque de gelo no mar, a primeira pista de patins in-line, cabines internas com varanda (e vista para o interior do navio), paredão para escaladas e até um estúdio de TV. O que mais falta inventar para os Titanic do terceiro milênio? Uma réplica do original. Esse é o projeto ambicioso da US Swiss, que pretende gastar 500 milhões de dólares na construção de um Titanic para zarpar em 2002, no aniversário de noventa anos da viagem que acabou mal. Com a promessa de um serviço a bordo similar ao do navio de Jack e Rose, porém com botes salva-vidas suficientes para todos os 2.000 passageiros.


Os Novos Titanic

17 de junho de 1998


Uma geração de supertransatlânticos resgata o fascínio das viagens marítimas


Grand Princess: lançado no mês passado, é maior e muito mais confortável que o Titanic original