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No Berço da Vida
O resultado desse e de outros "tiros" visuais desse santista franzino de 47 anos acaba de sair do forno. É o projeto Terra Brasil, um registro fotográfico inédito e exaustivo da paisagem, flora, fauna e da gente que habita os 36 parques nacionais do país, ou seja, daquelas regiões designadas pelo governo como santuários de proteção ambiental. Somados, esses pedaços de terra, alguns dos quais ameaçados por madeireiros, caçadores e fazendeiros, ultrapassam duas Suíças, por exemplo. Nos últimos dez anos, Araquém perdeu a conta de quantas viagens fez. De avião, carro, canoa, ultraleve e também a pé, palmilhou mais de 60.000 quilômetros. De suas andanças, além de histórias do arco-da-velha, como o ataque que sofreu no ano passado de um grupo de antas no cio, no Parque Nacional da Amazônia, o fotógrafo trouxe 100.000 imagens, das quais selecionou cerca de 120 para ilustrar o livro e a exposição a ser lançados na semana que vem, em São Paulo.

Recortado pelas lentes de Araquém, esse Brasil é um Jardim do Éden eclético, povoado em sua porção norte e central por onças-pintadas, tamanduás-bandeira, emas, macacos e araras, não raro espécies ameaçadas de extinção. Já na região costeira despontam aves como a biguatinga, no Paraná, ou mais ao norte, mamíferos como a enorme baleia jubarte, que todo ano chega da Antártica para procriar nas águas mornas do Parque de Abrolhos, na costa da Bahia. Em suas viagens, Araquém pôde fazer um balanço pessoal do estado de preservação dos parques que visitou. De maneira geral, segundo o fotógrafo, o Brasil de hoje preserva melhor seus ecossistemas do que fazia há dez anos. Já há por aqui parques com algumas características encontradas nos que existem na Europa e nos Estados Unidos, como é o caso do Parque do Iguaçu, na fronteira do Paraná com a Argentina e o Paraguai, ou o da Serra da Canastra, no centro de Minas Gerais. Neles, há fiscais, pesquisadores e uma infra-estrutura adequada ao ecoturismo. Araquém constatou também que não basta o parque estar demarcado no mapa para que as vidas que abriga estejam a salvo de madeireiros, do garimpo e da especulação imobiliária.

Ao contrário do que possa parecer, os parques mais ameaçados não estão na Amazônia, mas sim na Mata Atlântica, da faixa que vai do litoral da Bahia ao Paraná. "Parques como o da Juréia são alvo constante de loteamentos clandestinos, de caçadores e até de coletadores de plantas", diz o fotógrafo. Na região da Mata Atlântica, além da biguatinga vivem espécies raras de papagaios e garças. Fincados em regiões remotas e de difícil acesso, há parques nacionais que mal saíram do papel, mas que estão em áreas com pouca interferência humana,como é o caso do Parque de Pacaás Novos, em Rondônia. Demarcado em 1985, só agora o Pacaás começa a merecer de fato a atenção do governo federal. Com mais de cinqüenta cachoeiras, abriga uma variada fauna de preguiças, antas e jacarés, como o de papo-amarelo, ameaçado de extinção. Só acessível por avião, o Pacaás é também a moradia da tribo uru-eu-wau-wau, índios que vivem da caça e da pesca abundantes. A visão de um lugar como esse levou o sertanista Cláudio Villas-Boas a observar que "na Amazônia tudo se confunde numa única fertilização, numa digestão imensa, numa excreção imensa".

Viajante inveterado, Araquém Alcântara embrenhou-se pela primeira vez no mato há mais de trinta anos. Desde então, perdeu o medo de enfrentar as feras de perto. "Faço com os bichos aquilo que o fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson fazia com as pessoas, se misturando com a multidão." Em seu vasto currículo de peripécias silvestres, Araquém desenvolveu teorias insólitas, como a que diz que as onças detestam o cheiro dos humanos. "Só faminta, ou muito acuada, uma onça ataca. Geralmente ela odeia o cheiro de gente, principalmente de fotógrafo sem banho", diz ele. De agora em diante, suas onças, biguatingas e araras estarão à disposição de fregueses de todo o planeta. O fotógrafo acaba de vender 3.000 reproduções para o banco de imagens Corbis, pertencente a Bill Gates, o bilionário dono da Microsoft.

Na foto abaixo à esquerda: Lagarta de mariposa na Serra do Cipó: proteção
Na foto abaixo à direita: Vista aérea do Rio Negro, no Parque do Jaú, Amazonas: ecoturismo


No Berço da Vida

05 de agosto de 1998

Pelas lentes do fotógrafo Araquém Alcântara, as imagens exuberantes dos 36 parques de preservação ambiental do país

Na foto à direita: a biguatinga-azul, de Superagüi, na costa do Paraná: relíquia da Mata Atlântica

Agachado dentro d'água e já torturado por um formigamento nas mãos, o fotógrafo Araquém Alcântara dava o dia por perdido, quando finalmente sua caça apareceu. De asas abertas, à moda de um pavão, a biguatinga pousou, insolente, num galho perto dali. Como bom caçador, Araquém não vacilou. Camuflado no meio da mata, antes que a presa o notasse, ele disparou o gatilho de sua Nikon F-5.