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Inferno no Paraíso
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De julho de 2000

Em Fernando de Noronha a vida é cara, faltam água e telefone e até casar é uma complicação

Para os 50 000 turistas que viajam para lá a cada ano, o Arquipélago de Fernando de Noronha é um pedaço do paraíso na Terra. As praias de areia branca e águas cristalinas são povoadas por uma fauna riquíssima. Num mergulho, é possível observar tartarugas, arraias gigantes, milhares de peixes coloridos e nadar acompanhado por golfinhos rotadores. A paisagem exuberante faz muita gente considerar o arquipélago o lugar mais bonito do Brasil. Assim é Fernando de Noronha que todo mundo conhece, ao menos de fotografia. O que poucos imaginam é que ali o cotidiano dos moradores está mais para inferno do que para paraíso. A falta de infra-estrutura, a distância do continente e a preocupação com a preservação da natureza fizeram de Fernando de Noronha um dos lugares mais inabitáveis do país. O custo de vida é altíssimo, faltam serviços básicos como água e telefone, não há transporte público e a vida dos habitantes é pautada por um rosário de regras que tornam a simples compra de um milheiro de tijolos um tormento burocrático.

Todas as regras existentes em Fernando de Noronha foram criadas para preservar um dos santuários ecológicos mais preciosos do mundo. E elas funcionam bem. Hoje, apesar do número de turistas que recebe todo ano, Noronha é um lugar bem-cuidado. A paisagem permanece praticamente intocada, os animais estão protegidos e não há nenhuma ameaça grave à natureza. Nesse aspecto, é um exemplo a ser seguido em outras regiões do país. Para os 3 000 brasileiros que lá vivem, no entanto, a situação é complicada. Eles estão proibidos de construir novas casas porque isso agravaria o problema da falta de água e implicaria destruição ambiental. Carro novo também está temporariamente proibido de modo a evitar o crescimento da frota, que atualmente é de 400 veículos.

Para reformar a casa, comprar um ar-condicionado ou trazer uma televisão do continente, é preciso ter uma autorização assinada pelo administrador do arquipélago, Sérgio Salles. Todos os visitantes são obrigados a pagar um imposto de 21,28 reais por dia a título de preservação ambiental. Como o valor da taxa aumenta com o tempo, quem fica um mês tem de pagar mais de 1 700 reais. Na prática, até para casar é necessário pedir a bênção de Salles. Um noronhense casado com alguém de fora da ilha tem de provar que pode abrigar o cônjuge para que ele vire residente e fique isento da taxa. "Se ele ou ela não tiver condições de acolher outra pessoa em casa, eu não permito", diz Salles. "Não posso contribuir para o processo de favelização."

Salles está no cargo há um ano e meio. Indicado pelo governador de Pernambuco, é uma espécie de prefeito sem câmara dos vereadores com poderes quase plenipotenciários. É ele quem decide quantos carros podem circular pela ilha ou quem pode construir o quê. Sua missão é zelar pela natureza do lugar sem tornar difícil demais a vida dos moradores. Não é uma tarefa simples. O arquipélago de Fernando de Noronha é composto de 21 ilhas, mas só a maior, que tem o mesmo nome do arquipélago, pode ser habitada. A ilha tem 17 quilômetros quadrados e 60% de sua área está ocupada pelo Parque Nacional. Sobram 7 quilômetros quadrados para os 3 000 moradores. Atualmente, existem 500 imóveis no local. Um estudo está sendo feito para reavaliar o tamanho da população e a quantidade de residências e carros que a ilha é capaz de comportar. O estudo deve ficar pronto em agosto. Até lá, ninguém pode construir.

As regras de preservação ambiental criam situações curiosas. Em Fernando de Noronha é comum encontrar casais divorciados vivendo sob o mesmo teto. O casamento acaba, mas ex-marido e ex-mulher permanecem morando juntos até conseguir autorização para levantar uma nova casa. Desde que se separou, há seis anos, José Ivaldo da Silva, 36 anos, encarregado de almoxarifado, vive na mesma casa que a ex-mulher, Luzineide Moraes. Tudo que o ex-casal conseguiu foi autorização para construir uma parede dividindo a casa e um muro separando os quintais. A metade da casa que pertence a Luzineide e a seu novo marido foi reformada e ganhou pintura nova. A outra ficou como era antes. "É a única solução, já que aqui não tem para onde ir", explica Silva.

Água da chuva - Perto de 95% da população de Fernando de Noronha vive do turismo. As pousadas funcionam nas próprias residências locais. Para evitar que o número de pousadas cresça, a administração controla a entrada de eletrodomésticos como ar-condicionado e frigobar. A falta de serviços básicos é crônica. A água, captada da chuva, só chega de dois em dois dias. Embora existam 450 linhas de telefone instaladas na ilha, só 29 pessoas podem falar ao mesmo tempo em virtude do espaço disponível no satélite. Não há ônibus, e o quilômetro rodado nos táxis chega a custar 6 reais - mais de sete vezes o preço cobrado no Recife. Por falta de professores locais, as aulas da única escola do arquipélago chegam em forma de telecursos, pela televisão.

O isolamento e a distância do continente criam outros transtornos. Uma pesquisa mostrou que um quarto da população da ilha já enfrentou problemas com alcoolismo. O que é apenas uma cervejinha gelada na praia para os turistas é o programa de todo dia dos moradores de Fernando de Noronha. O que é apenas uma viagem de férias para o turista é a casa do ilhéu. É aí que o paraíso perde a graça.