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Ilha dos Extremos
É um paraíso ecológico guardado por 32 voluntários da Marinha, que se revezam a cada quatro meses. Leva-se quatro dias para fundear nos corais da ilha, mas a beleza da fauna marinha, das samambaias gigantes, únicas no mundo, e dos picos vulcânicos paga qualquer sacrifício.

Aqui, a palavra "fácil" foi banida. Uma caminhada de 2 quilômetros consome quatro horas, às vezes uma tarde inteira. Há que conquistar montanhas, caminhar sobre imensos seixos cobertos de limo e, sobretudo, manter a calma e o equilíbrio quando as ondas rebentam furiosas. Nadar, nem pensar. É coisa para veterano, que conhece na palma da mão as traiçoeiras correntes submarinas conhecidas como "chupas". Três piscinas naturais aliviam o calor dos que por ali passam. As ondas batem nas pedras e enchem as piscinas. Com cerca de 3 metros de profundidade e peixes em abundância, dão ao nadador a sensação de estar dentro de um aquário.

A aproximação da ilha é difícil. Com 9,2 quilômetros quadrados, Trindade oferece um litoral de corais que impedem a atracação. O pico mais elevado, o Desejado, tem 600 metros de altitude. Mesmo portentosas ao olhar, as montanhas parecem frágeis como um castelo de cartas. Sua origem vulcânica é o maior atestado dessa fragilidade monumental. A última erupção deve ter ocorrido há 50.000 anos. A ilha é o ponto extremo da cadeia submarina que parte do litoral do Espírito Santo e mergulha até uma profundidade de 5.000 metros. Nesse ponto, duas erupções fizeram surgir as ilhas da Trindade e Martim Vaz, separadas por 30 quilômetros, e descobertas em 1501 pelo navegador português João da Nova.

A Marinha mantém na ilha um posto avançado de observações meteorológicas. Todas as manhãs um balão carregando um transmissor sobe a 25.000 metros e envia informações sobre o vento, temperatura e pressão. De dois em dois meses é a festa. Chega o navio para troca de metade da guarnição e abastecimento. No primeiro dia, parece filme de Vietnã, com o ruído incessante do helicóptero decolando e pousando para trazer desde frangos, tomates e gêneros até motores e peças sobressalentes. O comandante Djalma Cavalcanti, que acaba de cumprir quatro meses comandando Trindade, aponta o "banzo" como grande inimigo. "Marujo com olhar perdido no mar é perigo na certa." Só existe uma terapia: trabalho intensivo.

Tesouros e piratas -- Tubarões? Barracudas? Moréias? Estão todos lá, mas não atacam. O ictiólogo capixaba João Gasparini explica a mansidão dessas feras do mar: "Estão tão saciadas em seu apetite com a profusão de peixes que não se sentem impelidas ao ataque." Na ilha não há animais a temer. Não há cobras nem mosquitos. Um grande perigo são as ondas "camelo". Aparecem sem se fazer anunciar. O contratorpedeiro Beberibe foi jogado sobre as pedras por uma sucessão de "camelos" nos idos de 60. O veleiro francês Le Roi des Harengs foi destroçado contra as rochas em 1995, assim como o pesqueiro chinês Hwa Shing, cuja tripulação uruguaia se amotinou, assassinando o comandante e o cozinheiro.

Trindade foi coberta por uma vegetação exuberante até 200 anos atrás. Um século antes, o astrônomo inglês Edmond Halley soltou algumas cabras na ilha como provisão de emergência para algum náufrago. Sem um predador à sua altura, as cabras devoraram a vegetação. A Marinha já caçou quase todas com tiros de fuzil. Restaram apenas as samambaias gigantes. Podem atingir até 6 metros de altura, desafiando botânicos que ainda nada descobriram sobre sua origem. Desde sua descoberta, Trindade passou de abandonada a cobiçada por piratas ingleses, que nela escondiam tesouros e navios negreiros. Em 1895 foi ocupada pelos ingleses com grande sem-cerimônia, sob o pretexto de construir uma base para a ligação da Inglaterra com a Argentina por cabo submarino. O Brasil apostou na diplomacia e levou. Em 1897, a tripulação do navio Benjamin Constant colocou o marco que lá permanece: "O direito vence a força".

Trindade é um dos raros santuários para a desova das tartarugas oceânicas. Esses imensos animais, com cerca de 300 quilos, arrastam-se vagarosamente até as poucas praias para depositar seus ovos. Cavam um buraco nas areias vulcânicas e põem em torno de 120 ovos. Siris e caranguejos formam o exército de predadores. Estudiosos garantem que a chance de uma tartaruga atingir a idade adulta é de uma ou duas em 1.000. Biólogos do Projeto Tamar zelam pela desova, de janeiro a abril, e não deixam ninguém se aproximar. Os marinheiros não resistem. "Quem vai deixar uma tartaruguinha ser devorada por um caranguejo?", indaga o sargento Freitas. "Dane-se a tal lei das espécies. Temos de salvá-las."


Ilha dos Extremos

13 de maio de 1998

Beleza, solidão e perigo convivem no ponto mais remoto do Brasil no Atlântico

Ao nascer do sol, o comandante André Fernandes Más ordena a redução da velocidade do Ary Rongel, o navio polar da Marinha. Inacreditáveis escarpas afloram do fundo do mar. São picos e montanhas quase duas vezes mais altos que o Pão de Açúcar, em colorações que se alternam do negro ao grafite e ao cinza-claro, outras do ocre ao vermelho. O mar azul-profundo bate com estrondo no litoral rochoso da Ilha da Trindade, a porção mais longínqua do Brasil, perdida no meio do Atlântico - a 1.200 quilômetros de Vitória.